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Apenas três fotografias

Apenas três fotografias

23/09/2005 Da Redação

Itabira é apenas uma fotografia na parede.(Drummond, Confidências do itabirano)São apenas três fotografias, díspares na aparência das paredes; não parecem guardar qualquer similaridade ou compromisso entre si.

Suas fontes existem afastadas, uma na América, outra no Oriente Médio, outra na Eurásia. Pouco têm em comum, a não ser, talvez, os fatos de terem existido simultaneamente em setembro de 2005 e de serem capazes de revelar, sob a química apensa ao papel, sua íntima associação.

Uma é apenas um retrato da opulência da sede do Império contemporâneo: um conjunto de carros novos coloridos. Nada demais, não fossem as suas posições curiosas: amontoados uns sobre os outros em meio a destroços de casas e miríades de objetos aos pedaços e lama. Associa-se a um nome hoje maldito: New Orleans, nos Estados Unidos da América.

Outra é, por si mesma, bastante rara e curiosa: também apenas um amontoado, agora de sandálias e sapatos, muitos de plástico, espalhados numa ponte que vence um rio, e que denuncia a pobreza, o exato oposto da opulência. Associa-se a um nome hoje maldito: Baghdad, no Iraque.
A terceira é apenas uma reunião de pessoas, a maioria vestida com roupas de cores escuras, em uma escola com as paredes cobertas com fotografias de pouco mais de uma centena de rostos de crianças sorridentes entre flores e velas. O curioso da foto é que as pessoas, ao contrário das crianças, não sorriem; algumas até mesmo choram. Associa-se a um nome hoje maldito: Beslan, na Ossétia do Norte, próxima à Chechênia.
O jornal The New YorkTimes estampou em título a idéia de que aqueles que sempre viveram à margem agora passam para o centro da cena. Referia-se à tragédia que se abateu sobre os pobres de New Orleans e cidades da rota, quase todos pretos e mulatos, que não tiveram condições (leia-se: nem carro nem dinheiro) de deixar a sua cidade antes da chegada do furacão Katrina. Esquecidos pelo governo Bush, só começaram a ser socorridos com presteza a partir de quatro dias de desespero e morte.

Bush já havia preparado o cenário para a tragédia, ao reduzir os impostos dos ricos, elevar a curva da pobreza por cinco anos consecutivos de crescimento, e deslocar parte da Guarda Nacional dos estados para os massacres no Iraque. Na hora em que os desvalidos necessitaram de comida, água, abrigo e consolo, só restou ao imperador o envio de tropas militares, para, na ordem de prioridades, combater os saqueadores e defender as propriedades, e, em segundo plano, resgatar os sobreviventes em telhados e sótãos; se houvesse pessoal e tempo, talvez até mesmo se pudesse pensar em recolher as centenas de cadáveres que boiaram por dias ao sabor das correntezas.

Mesmo a imprensa conservadora aponta Bush como o responsável final pela tragédia humana que se segue ainda agora à fúria natural. Tsunamis são súbitos, mas furacões como o Katrina formam-se lentamente, ganham corpo aos poucos, são fotografados de observatórios e naves que orbitam o planeta. O alerta de fuga não foi acompanhado de um só ônibus gratuito para os sem-carro e sem-dinheiro. Os carros coloridos destruídos pela força dos ventos serão substituídos por outros mais novos, mas as faces aterrorizadas e entristecidas dos pobres pretos e mulatos nas fotografias talvez não readquiram jamais a feição alegre que sempre marcou a imagem de New Orleans, a mais musical e festiva cidade da América do Norte.

Grupos de combatentes islâmicos pelo mundo regozijam-se: o Império finalmente foi atingido pela mão de Allah! Mas em Baghdad, cidade em que se descortina hoje toda a dimensão do horror de uma guerra movida em nome e em benefício dos interesses do capital, a mão de Allah prossegue sua fatwa neutra e implacável: centenas de mortos também boiavam na água. Mas uma água diferenciada: a do Rio Tigre, que viu nascer a civilização humana da urbe, da comunidade e da escrita.
Uma multidão que se dirigia pacificamente a uma cerimônia religiosa descontrolou-se ao ouvir um grito de alerta sobre a existência de um homem-bomba. Na cena seguinte, parte da multidão em desespero derrubou a amurada da ponte, o que levou centenas de pessoas a serem empurradas para o mergulho fatal ou a procurarem solução nas águas do Tigre milenar.

O pânico que se seguiu ao grito de alerta sobre a presença de um homem-bomba na multidão seria impossível antes da invasão imperial. Mesmo em tempos anteriores à tirania de Sadam Hussein, e até 2003, Baghdad nunca havia sofrido nenhum atentado terrorista. A insurgência iraquiana foi criada como resposta à truculência da dupla Bush-Blair, e os ingleses apenas perpetuam sua presença na região desde a época do final do Império Inglês. Dessa forma, é correto considerar o imperador Bush como o responsável também pela morte dos 985 bagdalis esmagados na ponte ou afogados no Tigre. Nem seus nomes foram gravados, apenas restaram sandálias e sapatos.

Não foi a primeira vez que se atiraram pessoas ou objetos ao Tigre. Em 1258, o imperador Hulagu Khan, neto do imperador Gengis Khan, saqueou a cidade e assassinou quase todos os seus 800 mil habitantes, lançando milhares de corpos no rio e pondo fim ao Califado Abássida. Timur-i-Leng, ou Tamerlão, imperador do Khanato Chagatai, em 1401, assassinou mais de 20 mil bagdalis após o saque da cidade e atirou todo o acervo da mais vasta biblioteca do Oriente nas águas do Tigre. No início da década de 1990 Baghdad sofreu bombardeios por tropas comandadas pelos Estados Unidos da América.

Em 2003, o imperador George Walker Bush, titular passageiro do Império Estadunidense, invadiu o Iraque e estabeleceu em Baghdad seu quartel-general, tendo até agora sido responsável pela cifra de mais de 100 mil mortos civis, conforme dados de pesquisa da Johns Hopkins University. Não atirou livros ao Tigre, mesmo porque livros não compõem parte das suas preferências, mas permitiu o saque do Museu de Baghdad e instalou base militar sobre as ruínas de Babilônia, com o comprometimento irremediável de milhares de relíquias, sítios históricos e documentos. A única edificação da cidade que protegeu com tanques e tropas foi a do Ministério do Petróleo.

Cem mil civis Bush assassinou até agora no Iraque (também morreram quase 2 mil dos seus soldados, a maioria pobres hispânicos, pretos e mulatos, base social das forças armadas estadunidenses; a elite não tem filhos na frente de batalha). Cem mil pessoas, a maioria civis, foram mortos na Chechênia durante a sua primeira ocupação por tropas russas entre o fim de 1994 e o início de 1997. Retiradas as tropas russas, vencidas pela guerrilha de resistência, a Chechênia proclamou independência. Em 1999, baseado em eventos de difícil determinação de autoria, o Império Russo invadiu novamente a Chechênia, então um país isolado, não reconhecido formalmente por nenhum outro, dominado por máfias, destruído e faminto.

O atual imperador russo Vladimir Putin mantém a guerra invasora. Com sua razão: como coronel da KGB, a polícia política mais temida e assassina da história, e na qual construiu sua carreira, é herdeiro do carniceiro Lavrenti Beria, braço-direito do carniceiro-mór Stalin (que sujeitou ao exílio na Ásia Central toda a população da Chechênia em 1944). É mestre no seu ofício de eliminar, matar, torturar, anular. Estimam-se as vítimas chechenas entre 200 mil e 250 mil (um quinto da população do país), entre elas cerca de 40 mil crianças. Entre essas crianças não se contam as mais de cem mortas numa escola em Beslan, na vizinha Ossétia do Norte, num combate entre tropas russas e guerrilheiros chechenos resistentes ao Império invasor, que a ocuparam. Crianças sorridentes nas fotografias nas paredes, em meio a um grupo de pessoas que um ano após não sorriem; algumas até mesmo choram.

A Chechênia situa-se na região do Cáucaso, de altas montanhas entre os mares Negro e Cáspio, habitado por mais de 50 povos com línguas diversas, conhecidos por sua combatividade e resistência milenar a invasores. São tantas as línguas que historiadores árabes chamavam a região de "Montanha das Línguas", uma imensa Torre de Babel. Tão afastadas, e tão próximas; tão díspares, e tão semelhantes: Grozni, a devastada capital da Chechênia, e Baghdad, a muitas vezes devastada capital do Iraque. Ambas, vítimas de imperadores assassinos. Ambas, irmãs da New Orleans preta e pobre, com seus milhares de mortos civis inocentes e suas sandálias e sapatos perdidos e suas faces de desespero e pranto e suas crianças sorridentes apenas nas fotografias.

Profético Drummond:
"Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!" 



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