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Bolsonaro mudou lógica de fazer campanha no Brasil

Bolsonaro mudou lógica de fazer campanha no Brasil

08/10/2018 Jean-Philip Struck (DW)

Ex-capitão chega ao segundo turno deixando rivais milionários.

Bolsonaro mudou lógica de fazer campanha no Brasil

Quatro anos após a campanha presidencial mais cara da história, em que centenas de milhões de reais de empresas irrigaram as duas principais candidaturas da disputa, o pleito de 2018 chega ao final do primeiro turno com um candidato na liderança que não conta com marqueteiro, tempo relevante de TV, estrutura partidária e que declarou ter arrecadado até agora menos de 2 milhões de reais em sua campanha.

Ao conquistar mais de 46% dos votos válidos na primeira rodada, Jair Bolsonaro (PSL) parece representar o início de uma nova era nas campanhas presidenciais brasileiras, em que a figura dos marqueteiros milionários sai de cena, o tempo de TV perde importância, e as redes sociais passam a ter um papel central na divulgação de candidaturas.

Some-se isso ao fato de que o próprio candidato esteve ausente de atos públicos de campanha por um mês, após levar uma facada no início de setembro, e se pode concluir que Bolsonaro conduziu uma das campanhas improvisadas mais bem-sucedidas em relação aos recursos disponíveis da história das eleições presidenciais desde a redemocratização.

"Sem grande partido, sem fundo partidário, sem tempo de TV, mas tendo a verdade e a sinceridade, desbancamos figurões que achavam que, fazendo parcerias e acordos com grandes partidos, via televisão, ganhariam a eleição", disse Bolsonaro neste domingo ao votar no Rio de Janeiro.

Na sua última prestação de contas, o candidato do PSL declarou ter arrecadado 1,9 milhão de reais. Deste valor, 1,5 milhão tem como origem plataformas de financiamento coletivo na internet, que são uma das novidades desta eleição. Os gastos do candidato no primeiro turno alcançaram até agora 1,2 milhão de reais. De verba da sua sigla, que tem como origem principal o fundo partidário, o candidato contou com apenas 334 mil reais.

Esse quadro ainda deve sofrer alterações, mas os gastos de campanha de Bolsonaro já contrastam com o que foi declarado por outros candidatos. Geraldo Alckmin (PSDB), por exemplo, que obteve menos de 5% dos votos válidos, declarou até este domingo ter gasto cerca de 51 milhões de reais - 18 milhões foram gastos com apenas uma empresa de publicidade. Henrique Meirelles (MDB), que recebeu cerca de 1% dos votos válidos, arrecadou 45 milhões de reais e gastou 43 milhões - todo o valor arrecadado saiu oficialmente do próprio bolso do banqueiro.

Fernando Haddad (PT), que vai disputar o segundo turno com Bolsonaro, já declarou arrecadação de 28 milhões e despesas contratadas de 12 milhões de reais - combinadas com os gastos iniciais do ex-presidente Lula, que teve a candidatura barrada em setembro, o valor gasto chega a 30 milhões de reais.

A própria campanha de Bolsonaro admite que sua estrutura é amadora. Sem contar com marqueteiro, as principais decisões são tomadas pelo próprio candidato, pelos seus filhos e pelo presidente do PSL, Gustavo Bebianno. A sigla nanica só contou com oito segundos de tempo de TV na campanha e só conseguiu se aliar com um partido, o igualmente irrelevante PRTB do folclórico Levy Fidelix.

Sem contar com os recursos milionários de outros candidatos e o tempo de TV, Bolsonaro se voltou para táticas mais espartanas para fazer campanha, como o financiamento coletivo e as redes sociais. Até o momento, ele é o candidato que mais arrecadou em plataformas na internet.

Mas foram as redes sociais que se revelaram o pilar principal da campanha do militar da reserva. Muito antes da campanha começar, Bolsonaro já era o pré-candidato com mais curtidas no Facebook e contava com dezenas de páginas de apoio, várias delas em tom humorístico que divulgam ataques contra a esquerda. Seu perfil nesta rede tem 6,9 milhões de seguidores. Haddad só conta com 670 mil.

Pesquisa Datafolha mostrou que os eleitores de Bolsonaro também são aqueles que mais usam redes sociais. Neste grupo, 81% os que participam de alguma rede social. O número está acima dos 72% que declaram voto em Ciro Gomes (PDT) e 59% daqueles que disseram apoiar Fernando Haddad.

Ainda de acordo com o Datafolha, os eleitores de Bolsonaro também se informam mais sobre política e eleições pelo WhatsApp do que em relação a apoiadores de outros candidatos. O percentual dos apoiadores que usam o Whatsapp para ler notícias chega a 57%. No caso de Haddad, o índice é de 38%. Os brasileiros que usam a plataforma somam mais de 120 milhões de usuários.

As redes de Whatsapp que apoiam Bolsonaro se estruturaram especialmente durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e da greve dos caminhoneiros em 2018. Até agora, pesquisadores têm encontrado dificuldade para determinar se elas são administradas por membros diretos da campanha de Bolsonaro ou por voluntários.

De qualquer forma, elas vem se mostrando um terreno fértil para a propagação de boatos e mentiras sobre os candidatos, especialmente os adversários de Bolsonaro. A família do candidato não parece demonstrar nenhum problema com esse tipo de tática suja, e vem até mesmo atuando publicamente na propagação de mentiras em outras redes, como o Twitter e o Facebook. Nesta semana, dois filhos do candidato reproduziram em suas contas uma informação falsa de que Haddad teria sido o criador de um "kit gay" para distribuição em escolas quando era ministro da Educação.

Com Bolsonaro no segundo turno, é possível esperar que sua campanha deve ganhar mais robustez e poder de atuação em campos de disputa mais tradicionais, como o corpo a corpo nas ruas e a TV. Em poucos dias, o deputado que era considerado um pária no establishment político do Congresso e nunca havia exercido um papel de liderança, se tornou um favorito de algumas das principais bancadas da Câmara, como a ruralista e a evangélica. Também passou a contar com o apoio de vários candidatos a governador que devem se eleger neste domingo. No segundo turno, também vai deixar para trás os meros 8 segundos de TV e contar com 10 minutos diários, divididos em dois blocos.

Aliados de Bolsonaro, no entanto, já afirmaram que não devem adotar uma estratégia mais tradicional. Neste domingo, Bebianno, o presidente do PSL, resumiu como a campanha vai agir a partir da próxima semana. "É porrada", afirmou. "Se tiver um segundo turno, o confronto vai ser direto. Com o PT não tem conversa", ressaltou. "Vamos com força, não vamos ter piedade com os erros e os males do PT." 



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