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Divulgação de delações eleva caos político

Divulgação de delações eleva caos político

20/05/2017 Deutsche Welle

Vídeos e documentos com acusações dos executivos da JBS implica nomes dos principais partidos.

O Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou nesta sexta-feira (19/05) o conteúdo dos depoimentos de executivos da JBS, incluindo os irmãos Joesley e Wesley Batista, no âmbito da Operação Lava Jato. As delações foram homologadas pelo ministro Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo.

A divulgação da íntegra das delações – que somam cerca de 2 mil páginas além de horas de depoimentos gravados em vídeo – elevou o caos político no país, com menções a repasses milionários ilegais a figuras de diversos partidos. Entre os citados nos depoimentos estão o presidente Michel Temer e seus antecessores, Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva.

Em depoimento à Procuradoria-Geral da República (PGR), Joesley Batista descreveu como funcionava o esquema de pagamento de propina a políticos que agiam em benefício da empresa, delatando que muitos repasses eram feitos por meio de doação oficial.

O empresário disse que cerca de 500 milhões de reais foram entregues recentemente a agentes políticos. Desse valor, 400 milhões de reais foram pagos por meio de doação, e outros 100 milhões, através de dinheiro em espécie e notas fiscais falsas. Segundo Joesley, a maioria das doações políticas realizadas de forma legal pela JBS eram propina disfarçada.

"Acontece o seguinte: combina-se o ilícito, o fato de corrupção com o político, com o dirigente do Poder Público, e daí para frente se procede o pagamento", contou ele. "Os pagamentos são feitos das mais diversas maneiras: nota fiscal fria, dinheiro, caixa dois ou até mesmo doação política oficial."

O ex-diretor da JBS Ricardo Saud, que também assinou acordo de delação, relatou que repasses da empresa por meio de "pagamentos dissimulados" alimentaram as campanhas de 1.829 candidatos de 28 partidos nas eleições de 2014. Segundo Saud, os valores ajudaram a eleger 179 deputados estaduais, 167 deputados federais, 28 senadores e 16 governadores.

Temer e Cunha

O presidente aparece como uma das figuras centrais nos depoimentos de Joesley, que chegou a gravar uma conversa com o peemedebista no Palácio do Jaburu. No diálogo, Temer supostamente dá aval a repasses ao ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) em troca de seu silêncio na prisão.

Na delação, o dono da JBS revelou ter dito ao presidente que pagava uma espécie de mesada ao doleiro Lúcio Funaro, um dos operadores presos na Lava Jato, e que repassou 5 milhões de reais a Cunha depois que ele foi preso, em outubro de 2016.

Joesley disse ter ouvido de Temer que era "importante manter" pagamentos mensais de 400 mil reais a Funaro para "garantir o silêncio". "Eu ouvi do presidente Michel Temer que era importante manter isso. A primeira missão era essa. [Procurei] saber dele se o compromisso era necessário, ele me disse de pronto que sim", afirmou ele num trecho do depoimento.

Segundo o empresário, o presidente atuou também em nome de outras figuras de seu partido. Em 2012, quando ainda era vice, Temer teria solicitado a Joesley um pagamento de 3 milhões de reais a Gabriel Chalita, então filiado ao PMDB. Na ocasião, Chalita concorria à prefeitura de São Paulo pelo partido. Os valores foram pagos por meio de caixa dois, de acordo com o executivo.

Joesley mencionou ainda um pagamento, em 2014, de aproximadamente 15 milhões de reais a Temer "em troca da atuação favorável aos interesses do grupo J&F". Mais recentemente, em 2017, Temer teria pedido "vantagem indevida" para resolver assuntos de interesse do grupo. O empresário acrescentou que o presidente receberia 5% dos valores em questão.

Por fim, o delator disse ter ouvido de Temer uma promessa de interferir junto ao STF e ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em favor dos interesses da JBS.

Segundo Joesley, a tentativa de ingerência no banco, no entanto, foi "infrutífera", uma vez que a presidente Maria Silvia Bastos não levou a conversa adiante.

Dilma e Lula

Em depoimento à PGR, Joesley e Saud relataram pagamentos no exterior em favor dos ex-presidentes petistas. A título de "vantagens indevidas", a empresa teria transferido 50 milhões de dólares para uma conta fora do Brasil destinada a Lula e mais 30 milhões em outra conta, também no exterior, com destino a Dilma.

Segundo os delatores, em 2014, o saldo dessas contas, somadas, teria chegado a 150 milhões de dólares. Os repasses, de acordo com Joesley, eram feitos por intermédio do ex-ministro Guido Mantega.

Em 2010, o empresário disse ter repassado ainda 30 milhões de reais ao ex-ministro Antonio Palocci que seriam usados na campanha eleitoral de Dilma.

Aécio

Os executivos da JBS acusaram nas delações o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) de ter feito sucessivos pedidos por dinheiro. Em 2014, o tucano teria recebido pelo menos 60 milhões de reais em propina. Os delatores afirmaram que, em troca desse repasse, Aécio "beneficiou diretamente interesses do grupo" durante seu mandato.

"Conheci ele na campanha de 2014. Nós fomos o maior doador da campanha dele. Em 2015, ele continuou precisando de dinheiro. Através da compra de um predinho em Belo Horizonte, esse dinheiro chegou na mão dele. Foram 17 milhões", revelou Joesley à PGR, mencionando mais um repasse ao político.

No ano passado, Aécio pediu a Joesley 5 milhões de reais para pagar uma dívida com advogados, segundo o empresário. O repasse, porém, não teria acontecido.

O último pedido de dinheiro foi neste ano, quando Aécio se reuniu pessoalmente com Joesley para solicitar uma quantia de 2 milhões de reais, afirmou o delator. Em troca, o político teria oferecido ao executivo que indicasse um nome para a diretoria da Vale. Dessa vez, o dinheiro teria sido entregue em espécie a um primo de Aécio, identificado como Fred.

Por conta das recentes revelações, o STF decidiu afastar Aécio de seu mandato na quinta-feira. No mesmo dia, o senador afastado anunciou que estava se licenciando também da presidência do PSDB para se concentrar apenas em "provar inocência".

Kassab e Serra

Em seu depoimento, o irmão de Joesley e também executivo da JBS Wesley Batista mencionou que a empresa pagou 29,4 milhões de reais em propina para o ministro da Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab. Segundo o delator, o político recebeu esse valor em parcelas mensais de 350 mil reais, pagas de janeiro de 2010 a dezembro de 2016.

Wesley explicou que os contatos com Kassab se iniciaram depois que a JBS comprou o setor de frigoríficos do grupo Bertin, em 2009. Segundo o empresário, o proprietário dessa empresa,
Natalino Bertin, mantinha um contrato com o político envolvendo uma frota de caminhões.
"[O Kassab] era uma pessoa que considerávamos de alguma influência. Concordamos em pagar esse overprice [sobrepreço], na expectativa de um dia usar a influência dele", relatou Wesley.

Já o senador tucano José Serra, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Temer, teria recebido pagamentos que somaram 20 milhões de reais para sua campanha presidencial em 2010. Joesley afirmou que parte dos repasses foi realizado por meio de caixa dois.

"O senador José Serra, a gente participou da campanha dele em 2010 à presidência da República. Ele esteve pessoalmente no nosso escritório. Nos pediu que participasse. Eu autorizei fazer 20 milhões de reais. Fomos os principais financiadores de campanha dele", delatou o dono da JBS.



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