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Transferência de Neymar enterra o “jogo limpo”

Transferência de Neymar enterra o “jogo limpo”

04/08/2017 Joscha Weber (DW)

Transação de 222 milhões de euros mostra que regra criada pela Uefa é só fachada.

Transferência de Neymar enterra o “jogo limpo”

Jürgen Klopp é um bom treinador, mas não foram os êxitos que o transformaram em ídolo dos torcedores em Mainz, Dortmund ou Liverpool – foram seu senso de realidade, sua autenticidade e suas palavras claras. Em várias ocasiões, ele disse o que muitos entusiastas do futebol pensam. Como também agora: "Na verdade, sempre pensei que o fair play financeiro havia sido criado para que algo assim não fosse possível, mas pelo jeito esse "jogo limpo" nas finanças é mais sugestão do que regra", afirmou o treinador do Liverpool.

Com sua resposta espontânea no gramado da Allianz Arena, de Munique, Klopp, mais uma vez, acertou em cheio. Não só o técnico do Liverpool, mas também milhões de torcedores se perguntam, diante da estonteante dimensão da transferência de Neymar: o futebol respeita as próprias regras? A resposta é: infelizmente, não.

O fair play financeiro é apenas uma expressão vã, uma promessa vazia, uma tentativa bem-intencionada de conter a capitalização desenfreada do futebol profissional num nível razoavelmente aceitável. Mas a regra já é desrespeitada há muito – na verdade, desde o início. Com os 222 milhões de euros (cerca de 824 milhões de reais) que o Paris Saint-Germain transferiu para o Barcelona, essa tentativa fracassou definitivamente. Em outras palavras, o "jogo limpo" financeiro foi desmascarado como sendo apenas uma fachada.

Aprovado em 2009 e introduzido em 2013, o fair play nas finanças deveria "melhorar a saúde financeira dos clubes europeus de futebol", como explica, floreadamente, o site da Uefa. A essência da regra é que um clube pode gastar até 5 milhões de euros a mais do que arrecada por período de avaliação, ao longo de três anos. Em casos excepcionais, pode ser aprovado um deficit de 30 milhões de euros.

O PSG, no entanto, não poderá nunca compensar os 222 milhões de euros (que no total deverão se elevar a 500 milhões, com multa rescisória, gratificações, salário e comissões), considerando que o balanço de transferências do PSG, sem Neymar, apresentava um superávit de apenas 1 milhão de euros. O presidente da liga espanhola, Javier Tebas, que até o último momento tentou bloquear o negócio, está certo ao falar, com irritação, de "doping financeiro": os milhões que os proprietários catarianos injetam em seu brinquedo Paris Saint-German são uma ameaça para a concorrência e prejudicam o futebol.

É claro que o Paris Saint-Germain não está sozinho, muitos outros pesos-pesados do futebol europeu pouco se importam com o fair play financeiro. É tentadora demais a perspectiva de ampliar, com as grandes estrelas, não só o sucesso em campo como também o número de torcedores e as opções de marketing.

Na verdade, deficits relativos a transferências, como no caso de Neymar, deveriam resultar em penalidades: a Uefa prevê sanções para tais violações, desde a exclusão de competições até a perda de títulos. O problema é que as sanções não são impostas. Assim, o fair play financeiro é um tigre sem dentes – talvez porque, na verdade, a Uefa nunca o quis de outra forma. Certamente, Neymar não vai deter esse recorde de transferência por muito tempo. A mudança do valioso Kylian Mbappé, de 18 anos, deverá alcançar dimensões semelhantes.

Os torcedores, que cofinanciam tudo isso com a TV por assinatura, as camisetas, os cachecóis ou até ações de clubes de futebol, devem reagir. Protestos já se anunciam há muito, mas agora eles precisam se acirrar. É hora de uma revolução no futebol. Os clubes vão tentar recuperar os salários e as taxas de transferência astronômicas de seus seguidores. É exatamente nesse ponto que os torcedores devem demonstrar que não estão mais dispostos a isso. O limite foi ultrapassado. O futebol se degenera para um evento meramente comercial. E quem continua jogando esse jogo se torna cúmplice. 



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