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A baixa autoestima da civilização ocidental

A baixa autoestima da civilização ocidental

06/03/2016 Amadeu Garrido de Paula

Por séculos o Ocidente se quis soberano no mundo, não bastassem suas duas grandes guerras mundiais.

Guerras de fundamentos econômicos, predomínios pretendidos de mercados. A enunciação das virtudes sem o apontamento de grosseiros desvalores não significa, porém: (a) que aquelas sejam desimportantes e (b) que não devamos buscar, em nosso inconsciente coletivo, o em si coletivo, sem o qual não sobrevive o individual.

A crise que abalou a economia e todo o mundo ocidental nos últimos anos pôs em dramaticidade o coração ideológico do sistema.

Há pouco a experiência fugaz do socialismo real havia terminado. Nada que invalidasse as utopias, mas descortinou a inevitável propensão humana a burocratizar-se, a divinizar o poder, a hierarquizar a sociedade: o domínio do capital substituído pelo domínio do partido. Ambos em sacrifício da liberdade.

Não houve melhor momento para que alguns alardeassem o fim da história; tal como, no ápice da crise eclodida em 2008, muitos outros falassem em fim do capitalismo. Nem uma coisa nem outra, mas profundos reflexos na psique do homem do Ocidente.

Em ainda pífio processo de recuperação, as sociedades ocidentais geram desalento, sobretudo em suas camadas jovens, que saem das universidades não para um emprego criativo, mas para madraçarias urbanas sustentadas pelo álcool, drogas, fumo e todo tipo de práticas desalentadoras, desbussoladas.

Nesse clima, questionam como não seria de outro modo, as lições de bons colégios, os pensamentos aprendidos de seus filósofos, psicólogos e historiadores. E as de seus pais, de convicções frágeis, antes os dramas recorrentes e jamais solvidos.

É o caldo de cultura ideal para dizer-se que os valores da democracia liberal e ocidental são falsos.

Os grandes conflitos mundiais seriam sua resultante. O problema é que o homem desta parte do universo não logrou construir melhor fórmula de harmonização entre estado e a sociedade.

Sabe-se que os conquistadores de adeptos do terrorismo oriental contemporâneo, gota a gota, homeopaticamente, sob a crise do Ocidente e a exaltação de imaginários valores de seitas orientais, plantam na consciência de jovens dos arrabaldes de grandes capitais da Europa a libertação, sua transferência para os guetos radicais e poderosos de onde emanam os mais torpes atentados praticados contra a humanidade.

O grande C.G. Hung, em boa parte de suas obras, principalmente em "O Segredo da Flor de Ouro", coteja as civilizações ocidental e oriental, jamais para conflitá-las, porém na busca de um intercâmbio criativo mundial que jamais se concretizou, para nossa infelicidade, cultivando as primitivas lendas do Oriente, mandalas, costumes fundamentalmente humanísticos, meditações e métodos curativos imemoriais.

A almejada ponte planetária não foi construída, em que pesem sonhos e desforços hercúleos de pensadores, seus parceiros, como Richard Wilhelm. Aquele observa que "Não poderíamos, portanto assumir diretamente as doutrinas e métodos orientais sem prejuízo de nossa própria psique." (Cartas, 1934, pg. 173).

Daí nossa perplexidade ante o comentário do Nobel Mario Vargas Llosa "As estátuas vestidas" (Jornal "O Estado de São Paulo", 7/2/2016) acerca da conduta do governo italiano que mandou "vestir" todas as esculturas gregas e romanas do museu do Capitólio, na passagem do Presidente do Irã, Hassan Rohani, para não ofender sua sensibilidade espiritual, cultural e estética, com os nus que representaram liberdade, autonomia, direito, equilíbrio, virtude, perpassados de nossa antiguidade clássica.

Estamos a ponto de anular nossa formação ocidental? Talvez por 17 bilhões de euros, que estão em jogo na visita.

Não temos mais defensores de nosso "eu" e de "nós"?

É bom lembrar que o Irã, enquanto conduzido pelo Estado Democrático de Direito, tripartite (Executivo, Legislativo e Judiciário), nos moldes das democracias ocidentais, encontrava-se harmonizado com o Ocidente e seus signos de prosperidade eram evidentes, comparativamente ao Irã do atual momento.

Substituído pelo governo de uma instituição unitária e todo-poderosa, o governo dos aiatolás, o mundo assistiu a seu declínio, no plano das liberdades e do bem-estar social.

Procura redimir-se. Sob tais circunstâncias, é grotesco o ato de encobrir nossa estética milenar, presente na imemorial civilização italiana, do governante abençoado por aquela instituição autoritária, supostamente ancorada no divino.

Os nus de nossas estátuas clássicas, a simbolizar os deuses e deusas, sem esconder seus imaginários corpos, seus falos, seus seios, seus arquétipos consubstanciados nos atos naturais de amor, são o que há de mais avançado na história da arte, tanto que renascidos, no período do renascimento e no neoclassicismo.

Envergonhar-se dessa estética é como envergonhar-se da riqueza, material, intelectual, espiritual e de todas as demais manifestações humanas vitoriosas.

*Amadeu Garrido de Paula, é um renomado jurista brasileiro com uma visão bastante crítica sobre política, assunto internacionais, temas da atualidade em geral. Além disso, tem um veio poético, é o autor do livro "Universo Invisível". 



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