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A triste infância de um grande escritor

A triste infância de um grande escritor

20/07/2021 Humberto Pinho da Silva

Era uma terça-feira do mês de Junho (18) do ano de 1861, quando o Sr. João recebeu, no estabelecimento, a irmã Jacinta.

Em alvoroço, exclamou eufórica:

- " Parabéns, João, tens mais um filho!…"

- " Olha, que grande coisa!…" – contrapôs, este, serenamente.

Casara na cidade do Porto. Tinha duas meninas e um rapaz. Trindade Coelho, era o quarto. O Sr. João fazia-se insensível, mas no íntimo, era homem bom: Gostava de auxiliar, mas receando que viessem a saber, dissimulava, para não o julgarem: "mole".

A esposa, perfeita dona de casa, cuidava com esmero, do maneio da casa, e aplicava, muitas horas na costura e a passajar.

Fazia o conserto da roupa, numa salinha, com janela para o Convento de S. Francisco, onde se prendia a corda, que accionava o sino, da torre.

Trindade Coelho, muitas vezes, tocava as "Avé-Marias", da janela. Ajudava à missa, com perfeição. Gostava de "celebrar" e"pregar". Por brincadeira, chamavam-no: " O Sr. Padre José".

Certa ocasião, bebeu trago de vinho, das galhetas. Descoberto, foi severamente repreendido e castigado: tinha que pedir perdão, ao Sr. Abade.

Lá foi o rapazinho, de cabeça baixa, a tremer, muito enfiado, a casa do Prior. Este, sorrindo, desculpou-o, e em "recompensa" deu-lhe punhado de cerejas.

Em dia frio de rigoroso Inverno, chegou a casa sem camisa. A mãe interrogou-o asperamente. Em prantos, contou, que a dera a menino pobre, que tinha muito frio. Foi castigado; mas a mãe, enquanto lhe batia, ria-se de alegria, por dentro.

Aos domingos, ia à casa do oleiro, vê-lo a fazer louça. Levantava-se muito cedo, quase de madrugada, para observar o Sr. Domingos, girar a roda, e o barro ganhar a forma de utensílios.

Frequentava, com algum gosto, a escola, mas tinha também, professor particular. Em suma: era feliz, até ao momento, que o pai resolveu levá-lo, com o irmão, à aldeia de Travanca, no intento dos filhos prosseguirem os estudos.

Ficaram hospedados na casa do professor, que ficou na incumbência de os educar. A vida dos pequenos demudou-se completamente. Dormiam num quarto pequenino. Mais tarde transformam-no em galinheiro.

Levantavam-se muito cedo. Trindade Coelho, possuía hortinha para cuidar e plantar; mas detestava a vida que levava. Um dia fugiu. O professor encontrou-o a caminho da casa… 

Nas horas de lazer, ia à caça, com furão. Nunca conseguiu caçar. Certa vez o animal, entrou numa toca, e ao sair, vinha cego. Foi grande a tristeza. Fez-lhe uma caminha, junto à lareira, mas o bicho acabou por falecer, aconchegado no regaço.

O professor, pelo mínimo engano ou dificuldade, surrava-o desalmadamente. Tinha régua de madeira para esse fim. Batia-lhe nos nós dos dedos… Que barbaridade inquisitorial!… 

Nessa recuada época, a aprendizagem era feita à força de pancada. Ramalho, conta, nas Farpas, em 1876, que um rapaz, de 14 anos, foi tão mal tratado pelo director do colégio, que teve de ser socorrido no hospital. O sangue escorria-lhe debaixo das unhas!… Isso aconteceu na cidade do Porto.

No Colégio Central, em Gaia, nos anos vinte, do século passado, ainda se batia nos nós dos dedos, com régua de esquina! Já em plena República!

As férias eram passadas numa alegria pegada. O pior era o regresso. Aferrava-se ao corrimão da casa – moradia que ficava diante ao largo da feira, – a chorar.

As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, que tomava expressão temerosa. Diziam-lhe: - " É preciso aprender!…", e ele respondia:

- " Eu quero ser burrinho!… Eu quer ser burrinho!…" – Num choro convulso.

Certo dia, ganhando coragem, escreveu à mãe, pedindo-lhe que o deixasse ir a festa que se realizava perto de casa.

Em resposta, mandaram-lhe, criadito – António Joaquim, – com o Garoto (cavalo). Pediram burrinha, muito mansa, para ele e o irmão.

Tão alegre ficou, que apegou-se ao cachaço do Garoto, e cobriu-o de repenicados beijos. Após o professor ter dado por terminado o ensino, o pai, mandou-o continuar os estudos, com dois padres.

Se o professor de Travanca batia brutamente, os novos eram ainda piores. Chegavam à crueldade de vendar-lhe os olhos, e obriga-lo a "ler", com os dedos, a gramática. Se não soubesse, era pancadaria brava.

Como tinha fraca memória, para decorar o livro, os professores, confessaram, ao pai, que Trindade Coelho, nunca seria doutor, porque tinha muita dificuldade em aprender…

Como o progenitor queria que o filho fosse doutor, assentou matriculá-lo num colégio, no Porto. Preparado o enxoval, partiram para a Invicta Cidade do Porto, de barco.

Desceram o rio Douro. Ao desembarcar, Trindade Coelho perdeu-se. O pai, após muito o procurar, foi descobri-lo na esquadra!

Visitaram, depois a cidade. O futuro escritor de nada gostou, a não ser o mar. Ao despedirem-se, agarraram-se a chorar, cheios de futuras saudades. Mas o menino tinha que ser doutor!....

No colégio permaneceu 6 anos. Era conhecido pela alcunha de: "O Mogadouro". Receava os professores e os perfeitos. Ficou traumatizado e abalado o sistema nervoso; problema que o acompanhou por longo tempo.

Certo professor inumano, chegou a dar-lhe 37 palmatoadas seguidas! Era-lhe proibido ler, a não ser livros escolares. Conseguiu, assim mesmo, ler: "Os Três Mosqueteiros", de Dumas, e mais dois livros.

Nas horas vagas, disfarçadamente, escreveu dois contos: "O Enjeitado" e "Uma Trovoada", e artigo, que teve a coragem de o ler ao porteiro, que ficou encantado, e levou-o a um jornal. Foi publicado com o nome de: "José Coelho". Feliz, enviou-o ao pai, que não gostou, e pediu-lhe para deixar de escrever.

Finalmente entrou na Faculdade de Direito de Coimbra. Estudou muito, mas nada entendia. O resultado foi ficar reprovado. Entretanto escreveu um livro sobre: " Direito Romano" que levou para ser publicado.

Quando saiu, ofereceu exemplar ao professor que o "chumbara". Este arrependeu-se acerbamente de o ter reprovado e chegou a recomendar a leitura, da obra, aos seus alunos.

O pai, ao ter conhecimento da reprovação, quase deixou de lhe falar e cortou-lhe a mesada. Não ficou descorçoado. Partiu para Coimbra. Estudava e escrevia nos jornais.

Assinava os artigos com o pseudónimo: "Belisário", "Progressista Imparcial", "Porta Férrea" e por fim: Trindade Coelho. Andava no segundo ano de Direito, quando recebeu a triste notícia da morte do pai.

Foram tempos difíceis. Casara e tinha um filho, a sustentar – o Henrique. A mulher, na sua opinião, tinha a sensibilidade da mãe, e a coragem e determinação do pai.

O pai deixou-lhe dívidas, que teve que pagar. Ficou ainda mais pobre do que era. Terminado o curso, advogou, mas sem sucesso.

Concorreu, então, a dois concursos públicos. Receava não ser aceite, porque não tinha "padrinho". Inesperadamente recebeu carta de Camilo Castelo Branco. Dizia a missiva: lera nos jornais que concorrera a concurso, e resolveu escrever ao Ministro, para que fosse preferido.

Camilo fê-lo por amizade ou aliado político? Não sei responder, tanto mais que o conhecia...só de nome, e Trindade Coelho, não era politico.

Foi colocado para: "delegado Procurador de Sabugal". Dai passou para Portalegre, onde granjeou inimigos políticos. Ganhava, então, 11 mil reis. Muito pouco. Chegou a passar fome.

Entretanto chamaram-no a Lisboa, para oferecerem o lugar de deputado, por Portalegre; cidade onde fundou: "Gazeta de Portalegre" e "Correio de Portalegre".

Não aceitou. Para o convencer, prometeram dar-lhe o cargo de juiz, por "mérito". Mas não era – a seu pensar, – justo, receber esse favor. Trindade Coelho nunca se filiou num partido político; preferia ser independente.

Sobre o valor das obras do escritor, nada direi. Não sou crítico literário, nem me considero competente para isso.

Adiantarei, porém, que na sua terra, só conseguiu, numas férias, escrever os contos: "Sultão" e " Idílio Rústico). Só escrevia na cidade, espicaçado pela saudade.

A propósito, recordo que meu pai, quando ia passar as férias à aldeia de minha mãe, levava pequena livraria de campanha, mas não escrevia nada, nem nunca terminou a leitura de um livro!

Escreveu Eça, em: "Cidade e as Serras": "Toda a intelectualidade nos campos se esteriliza, e só resta a bestialidade"

Assim termino, a triste infância de uma grande escritor. Espero que gostassem, se tiveram a pachorra de me lerem.

O texto –, escrito por palavras minhas, – foi baseado na autobiografia (1902) de Trindade Coelho, publicada, em 1910. Obra esgotadíssima, oferecida e autografada por D. Maria Christina Trindade Coelho, nora do escritor.

* Humberto Pinho da Silva

Para mais informações sobre Trindade Coelho clique aqui…

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