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A vida nos anos cinquenta em Portugal

A vida nos anos cinquenta em Portugal

19/11/2020 Humberto Pinho da Silva

Sou da geração em que havia: respeito e autoridade.

As senhoras, em geral, acumulavam as tarefas do lar, com os afazeres profissionais – se os tinham, – e desempenhavam alegremente o maneio da casa, com prazer, e não obrigação.

Se alguma da classe média, contratava criada, a maioria considerava dever seu, e faziam-no sem ajuda de utensílios eléctricos, porque não os havia.

Os cavalheiros, eram sisudos. Raramente auxiliavam as esposas, seguido a rigor o velhíssimo anexim: “O marido barca, a mulher arca”. Cabia ao homem, o dever de sustentar a família; à mulher: cuidar dos filhos e manter o lar acolhedor.

Os filhos, em norma, eram obedientes, amorosamente submissos à mãe, e temiam o pai: “Olha que vou contar ao teu pai!”, era o bastante para aquietar o rebelde.

As crianças, do povo, andavam descalças; não na cidade. Folgavam na rua. Brincavam com a imprescindível bola – feita de trapos e meias velhas, – e divertiam-se com joguinhos tradicionais.

A família, convivia: com vizinhos e parentes. Visitava-se frequentemente. Tomava-se, ao lanche, chá com torradas – se pertenciam à classe média, – e bolinhos secos.

Quase sempre, a dona de casa, ofertava bolo caseiro, muito elogiado: “Depois há-de me dar a receita!”

A vida era simples. Poucos possuíam viatura, e menos ainda viajavam para o estrangeiro. Os que possuíam casa, quinta, na província, fabrica ou comércio, na cidade, eram considerados ricos.

Os superiores hierárquicos eram tratados por excelência: “Vª Ex.ª é quem manda…” - dizia o manga de opaca.

Os filhos pediam a bênção e dirigiam-se aos pais, por você: “A Senhora quer que ponha a mesa?” Ainda ouvi, nos anos setenta, a moça, em São Paulo.

Respeitava-se o professor. Bastava este pedir a presença da mãe, para aterrorizar o mais destravado. As escolas, das primeiras letras, tinham palmatória (pequena régua de madeira,) e cana.

Dizem, que nos anos vinte, havia pancadaria brava. A cana nodosa, sibilava nas orelhas e na nuca, ao mais simples desrespeito.

Esses excessos, já não haviam no tempo da minha geração. Escusado será dizer: que não havia: televisão, gravadores e telefones moveis…

Havia, infelizmente, garotos obscenos e moças assanhadas, mas a maioria, eram simples, de ingenuidade quase angélica.

Todos os jovens ou quase todos, deslocavam-se a pé, para a escola e emprego (nem todos estudavam,) em grupinhos divertidos.

Assim era a vida da maioria das pessoas, após a 2ª Grande Guerra. Essa conduta pacata, alterou-se: modas, condutas, pareceres…

O que era natural e aceite, passou, em certos casos, a ser condenável; e o que era condenável, passou, muitas vezes, a ser aceite, e até acarinhado por mitos…

Tudo muda, tudo passa… Mudam-se os pareceres, mudam-se os conceitos, mudam-se, as vontades; mas só o coração do homem não muda…

* Humberto Pinho da Silva



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