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O anti-americanismo cultural

O anti-americanismo cultural

25/12/2014 João César de Melo

Creio que, enfim, entendi o motivo do anti-americanismo da maioria dos intelectuais. Os Estados Unidos representam a vitória do Povão! Povão brega e fanfarrão, mas independente. Povão que manda no Estado.

Povão que ignora a masturbação filosófica europeia. Povão que, em vez de tentar ser inteligentinho, prefere se divertir. Povão cujos indivíduos têm liberdade, dinheiro e provavelmente uma arma dentro de casa. As acusações de que os Estados Unidos impõem um “imperialismo” comercial e político ao mundo não passa de uma cortina para esconder um dos sentimentos mais pobres do ser humano: o recalque.

Recalque doloridíssimo diante do sucesso de uma sociedade feita de imigrantes e que em pouco mais de um século não apenas enriqueceu, mas também se tornou a principal referência cultural do mundo. Os inteligentinhos daqui e de todas as partes do mundo não se conformam em ver a cultura americana influenciando a cultura de todos os outros países. Todas as vezes que um intelectualzinho brasileiro escuta, aqui, uma música americana na rádio, no bar, na televisão ou na rua, ele se lembra de que o povão americano só escuta músicas em sua própria língua.

Hollywood trabalha para os americanos, não para nós. O povão do mundo consome o que o povão americano produz. A verdade: Os Estados Unidos representam o maior dos sonhos e o pior dos pesadelos de um intelectual. Sonho por terem desenvolvido uma cultura tão forte e diversa que sua sociedade não se interessa por quase nada de fora. Pesadelo por terem feito tudo isso de forma independente, sem pedir licença à intelligentsia. O Blues e o Jazz vieram das igrejas cristãs.

Andy Warhol ergueu-se emoldurando como arte aquilo que ainda hoje, em pleno século XXI, causa calafrios nos inteligentinhos socialistas. Michael Jackson queria ser branco e o atual presidente é negro, de origem pobre mas que estudou em Harvard. Rappers não apenas ficam ricos milionários, como também fazem questão de exibir carrões, joias e negras de cabelos alisados. Hollywood sustenta-se expondo tanto a inocência quanto a violência do povão. Artistas criticam o governo. Toda a indústria cultural dos Estados Unidos é sustentada pelo mercado, pelo dinheiro privado.

Nenhum cineasta, músico, ator ou pseudojornalista vive à custa do governo. A produção cultural americana se sobrepõe a da maioria dos outros países por uma única razão: por ser mais atraente. Eles produzem melhor. Eles divulgam melhor. Eles sabem, como ninguém, o que o povão quer de ver. Isso faz com que os inteligentinhos culpem o “imperialismo americano” pela mediocridade da produção cultural em seus respectivos países. Cineastas culpam as produções americanas pela pífia bilheteria de seus filmes. Músicos culpam as produções americanas pela falta de espaço no mercado. Inteligentinhos culpam os “enlatados” americanos pela idiotização da sociedade.

Recalque! Recalque! Recalque tão grande que ignoram até o que a história nos conta: culturas são organismos em constante transformação, influenciando umas as outras desigualmente, com algumas abrindo caminho dentro das outras na proporção do interesse que despertam no público. Ou seja: a influência americana é um fenômeno natural – se não fossem eles, estaríamos sob a influência de outro país. O Egito influenciou a Grécia, que influenciou Roma, que influenciou a Europa ocidental...

Cá estamos, com nossa cultura sendo moldada pelo resultado da fusão de todas as culturas. Em contra-ataque, os recalcados cobram que o Estado crie barreiras contra a influência da cultura americana sob a justificativa de... “proteger a cultura nacional!”. Lembro-me de uma palestra do Ariano Suassuna em Recife, quando ele passou longos minutos defendendo que o brasileiro deveria usar chapéu de couro em vez de boné. Aff! Contudo, não é o sucesso em si que alimenta o recalque dos intelectuais daqui e de todo o mundo.

É o dinheiro que eles – americanos − ganham com a cultura popular. Dinheiro! Intelectual nenhum assume que trabalha para ganhar dinheiro, porém, todos estão sempre tentando arrancar (arrancar!) do Estado as verbas necessárias não apenas para viabilizar seus projetos, mas principalmente para bancar seus confortos, perversões e, claro, suas viagens a Paris. Intelectual diz que não gosta de dinheiro, mas exige que a sociedade pague todas as suas contas. Sim... eles se acham evoluidíssimos espiritual e filosoficamente, tanto que enxergam-se imprescindíveis para a sociedade.

Todo o resto da sociedade é ralé e o entretenimento de massa é a desgraça humana! Por isso, o povão deveria adorá-los, aplaudi-los e financiá-los. Mas então surgem os artistas “comercias”, que tomam a atenção e o dinheiro do povo; e esses artistas comerciais são influenciados pela cultura capitalista e opressora americana. O recalque os enlouquece... A certeza: Cada artista ou intelectual que grita contra o imperialismo cultural dos Estados Unidos consome-se de inveja do sucesso americano. Invejam sua força e independência. Invejam a forma como reverenciam sua história e seus ídolos. A breguice e a fanfarronice da cultura pop americana não lhes incomoda apenas por sua extravagância estética, mas também pelo dinheiro e pelos aplausos que seus agentes recebem.

* João Cesar de Melo é Arquiteto, artista plástico, escritor e colunista do Instituto Liberal.



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