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O drogado

O drogado

02/12/2008 Divulgação

Que saudade do Brasil. Sobrevoando o território nacional, a rádio brasileira já sintonizada. Estou tão nostálgico que consigo ver alguma graça nas piadas do locutor. Juro, toda vez que vou para Madrid penso que nunca mais verei minha pátria. Quando desço em Guarulhos dá vontade de seguir o exemplo do saudoso papa João Paulo II e lascar uma beijoca no chão.

Terminei a faculdade de arquitetura. Foram dez anos. O curso leva quatro anos para uma pessoa sadia. Mas para o drogado da turma, natural que o tempo se estenda. E tive muita sorte em concluir. Cheguei a pensar que as dependências me iriam jubilar.

Hoje, tenho 29 nove anos. Um curso de arquitetura nas mãos e estágios na Alemanha e Rússia. Se me serve de consolo, dos dez anos que levei preso à faculdade, passei um na Alemanha e seis meses na Rússia, fazendo estágio.

Tá, isto não anula minhas mancadas. Eu tinha 19 anos quando meu pai me vendo perder-se com os carinhas em esquinas a cheirar e beber me intimou a ir para junto de meus avós, naturais de Barcelona. No primeiro ano, até que a mudança de ares me fez sadio. Eu me aprumei, estudei e superei a adversidade do idioma de Miguel de Cervantes. Como havia concluído o ensino médio num colégio espanhol em São Paulo, foi sopa pedir o equivalente diploma que o governo da Espanha exige em suas universidades.

Do segundo ano em diante foi barra. Me envolvi com a turma mata aula e zoa todas. Várias vezes, eu passei a noite em claro fumando. Overdose? Foram três. Nem sei como sobrevivi. A dependência seguia. Eu queria parar. Gostava dos créditos, dos papos dos nerdes, dos mestres e doutores. Nunca fui um rebelde, era quase um certinho. Mas não conseguia largar a droga.

Fui a psiquiatras e psicólogos? Todos diziam que eu é que teria que ter a iniciativa de parar. Contudo, eu tinha a de continuar. Os dias iam, e eu me afundando. Era dureza, para sorrir, para me sentir bem por uns minutos, me entupia de droga. Não cheguei a roubar, mas cair em vários lodos que o mundo da droga proporciona.

Certa vez estava em Berlim, e tudo estava tão legal, o estágio, os elogios, os projetos, e nem sei por que me bateu um desânimo e corri como um desesperado para cheirar. Aí o dia foi ruim paca, faltei à reunião superimportante, quase fui banindo do projeto e perdi muita credibilidade. Tudo por causa dum pó babaca.

Um dia passeando em Moscou, entrei num sebo e me deparei com um livro do psicólogo Ricardo de José da Silva. Já tinha ouvido falar do cara. E sinceramente sempre o achei um charlatão. Coisa de preconceito infundado, visto que nada lera dele. Peguei o texto mais para aperfeiçoar o idioma, uma vez que estava em Russo.

Ter metas, as mais banais que possam parecer, ajudam-nos a driblar as amarguras da vida. Um amor, um lar, um emprego, a carreira profissional, ser solidário. Em alguns casos, chega até preencher o vazio que costuma ser alvo das drogas. Claro que achei a frase forçada, chavão. Para dizer a verdade, só refleti sobre a frase quando me esbarrei com a Karina, quando da segunda vez que fui ao sebo. Conversamos e nos entendemos. Ela é minha droga, no bom sentido. Há três anos vivemos juntos. Me faz superbem e aceitou morar no Brasil. Vai ver ela seja minha meta.

*Escritor, colabora neste jornal semanalmente. Para agendar palestra na sua cidade,  contatar pelo e-mail: [email protected]



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