Portal O Debate
Grupo WhatsApp

O frentista

O frentista

20/11/2008 Divulgação

Sábado é dia de correria. Já pelas oito horas faltava espaço para a fila de carros para lavagem. Ao contrário dos outros dias, nesse dia a fila se divide. A primeira para o local com cobertura, no qual se lava carros no dia de movimento normal. A segunda destina-se ao local improvisado. Em geral, a agitação cede um pouco na hora do almoço.

Seis meses atrás eu estava lá. Ficava ensopado. É praticamente impossível não se molhar mexendo com água e sabão. Os mais experientes, molham-se, mas não tão quanto os novatos. A roupa secava no corpo. O posto de gasolina nos dava o macacão para trabalhar. Sorte. Já pensou sair do serviço pingando água. Quanto mais eu que corria para a escola, com a aula às 19h. Éramos três lavadores. Durante a semana, se alguém faltava, dava-se um jeito. Mas no sábado, a ausência de um atrapalhava todo o serviço.

Como sou de uma família na qual ninguém tem carro, eu curtia entrar nos veículos. A rotina era lavar com água e sabão, depois enxugar. Logo em seguida, aspirar, retirando os tapetes, reclinando bancos, erguendo porta-malas. Limpar e passar produto para proteger o painel. Aplicar o pretinho nas rodas. Num carro levávamos em torno de 40 minutos.

Não é um emprego de se morrer de paixão, mas tinha suas horas de descontração. Por exemplo, prosear com o dono do carro, ou com familiares, nos dias de pouca correria. Não sei se por estar no terceiro colegial, ou sei lá o que, a função é que me incomodava. Transferir minha atenção para o frentista. Na realidade quando procurei um posto de gasolina era para ser frentista. Logo me aceitaram, mas disseram que não estavam precisando de frentista no momento e que, além disso, eu precisava ter experiência. Pensei: trabalhando como lavador teria a oportunidade de ver como se faz para ser um frentista, e quando surgisse a vaga pediria uma chance.

Queria ser frentista porque teria menos chefes. No setor de lavagem, todos queriam ser chefes, queriam dizer como lavar bem. Já como frentista, o serviço era mais objetivo: você deve encher o tanque, calibrar os pneus, trocar o óleo, e pronto. Sobrava pouco espaço para os puxa-sacos subir no conceito do chefe oficial fazendo a caveira dos colegas de trabalho. Enfim, almejei melhores condições de trabalho. Mas passado meses, entrava frentista sai frentista e nada de eu ter uma chance. Temia perder o emprego, afinal todos precisamos comer. Tantos entrando e saindo do emprego e eu lá desde quase a inauguração da unidade, e nada de ter uma oportunidade. Confesso, fiquei chateado. Por isso insisti um bocado, passando-me por chato, ao ponto de ficar mal comigo.

Passeava pelo centro de Marília. Estava com minha namorada. Dois dias que eu não reclamava do serviço. Havia aprendido que é bom dar valor à minha gata quando estivéssemos juntos. De repente vejo um cartaz no posto da BR. Precisava de frentista. Fomos até o gerente, que nos atendeu sorrindo. Falei que me interessava. Perguntou se eu estudava. Acenei afirmativamente. A vaga era minha por enquanto.  Eu ficaria com ela se provasse ser capaz. Minhas pernas bambas, sorte que meu amor me segurou. Na segunda-feira seguinte comecei. Aqui estou quase seis meses. O que é do homem o bicho não come. E se temos firmeza no que queremos, um dia tropeçamos na oportunidade, a pegamos e levamos para casa.

*Escritor, autor de romances. Escreve semanalmente neste jornal. Contato: [email protected] 



Aviso e anúncios nas redes sociais

Ao abrir, hoje, a minha rede social para ver as publicações de meus amigos, deparei, varado, com aviso, informando-me que certa matéria, colocada por mim, era parcialmente falsa.


Nexialista: o profissional plural do futuro ou de hoje?

Que o mercado de trabalho tem se transformado de forma cada vez mais acelerada, e o nível de exigência por profissionais talentosos é crescente dentro das empresas, todo mundo já sabe; não é verdade?


Onde a geração Z investe

O último Anuário de Retorno de Investimentos Globais do Credit Suisse, entre outras coisas, apresenta um raio-x de alternativas de financiamento para a Geração Z, aqueles que nasceram entre 1995 e 2000.


A CPI pariu um rato

Fosse hoje vivo, é o que Horácio, o pensador satírico romano diria sobre a CPI da Covid.


Como identificar um ingresso falso?

Com recorrência vemos reportagens abordando diferentes fraudes e golpes que aparecem no mercado.


A primeira visita de D. Pedro a Vítor Hugo

O livro: "Vitor Hugo chez lui", inclui a curiosa visita, realizada pelo Imperador, a 22 de Maio de 1877, ao célebre poeta.


São Frei Galvão, ‘Homem de paz e caridade’

A Igreja celebra, em 25 de outubro, a Festa de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, que na devoção popular é conhecido como “São Frei Galvão”.


CPI da Covid desviou-se e não sabe como terminar

Chegamos ao cume da montanha de inconveniências que povoam o cenário contemporâneo da política brasileira.


Sentimentos e emoções provocadas pela série “ROUND 6”

Nas últimas semanas estamos vivenciando uma série de críticas, comentários, “spoilers” e reflexões sobre a série sul-coreana de maior sucesso da plataforma Netflix: “Squid Game” ou “Round 6”.


Perdas e ganhos dos médicos “filhos” da pandemia

A maioria das situações com as quais nos deparamos na vida tem dois lados. Ou, até, mais de dois.


Defensoria Pública da União x Conselho Federal de Medicina

A Defensoria Pública da União (DPU) ajuizou Ação Civil Pública contra o Conselho Federal de Medicina (CFM), objetivando a condenação por danos morais coletivos no importe, pasmem senhores leitores, não inferior a R$ 60.000.000.00 (sessenta milhões de reais).


Diálogo em vez de justiça

Viver felizes para sempre parece ser um privilégio exclusivo dos casais formados nos contos de fadas.