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O Poisé

O Poisé

09/12/2008 Divulgação

Meu segundo sonho de consumo: o carro. Houve época que o desejo de possuir um me perseguia. Volta e meia estava eu lá calculando, visitando lojas, tudo, a fim de conseguir. Parece que quando muito se fala, temos a impressão de que basta dar um jeitinho e pronto, alcançamos o objeto de desejo.

Andar de ônibus me aborrecia. Sim, havia lá uns momentos felizes, tipo uma boa prosa, apreciar a paisagem, ou tirar um cochilo de meia hora, o que seria impossível ao volante. Mas em pensar nos dias que, encharcado como um cachorro de rua, eu passava uma eternidade enfiado debaixo do toldo de ponto de ônibus para em seguida entrar no coletivo apinhado de gente igualmente molhada. Que dose!

Não fosse pelo fato do ônibus viver lotado, perdoaria todos os outros inconvenientes. Ter que ir em pé e segurando nas grades com medo de cair devido à arrancada do motorista, é de estressar qualquer um.

Mas à medida que o tempo passa e o sonho teima em não se realizar, bate primeiro uma desolação, e por fim chega a acomodação. E há dias que você chega a agradecer em não ter tido a oportunidade de abraçar um automóvel. Devido aos custos.

Vinte anos depois chegou minha vez de adentrar num. O salário de auxiliar de enfermeiro com sufoco me possibilita a adquirir um poisé, um Monzat 1992. Entendendo tão de carro quanto de bolsa de valores, a aquisição deixou a desejar em certos aspectos. Já gastei em sua manutenção um quarto do valor. E olha que o comprei no início deste ano.

Quanto aos benefícios. Inenarráveis. Agora vou para qualquer lado. Chega dos trinta ou sessenta minutos calejados à espera do ônibus fazer o favor de me conduzir. Os transportes alternativos? Piorou. O amassa-amassa, sempre pondo mais três onde só caberia um.

O medo me faz prevenido. Acredito que mecânico, ou frentista, jamais conheceram uma pessoa tão curiosa. Pergunto de tudo, busco evitar uma constrangedora quebra do veículo no meio da estrada por falta de manutenção. Quantos poisés eu vejo por aí em estado deplorável, tendo que ser empurrados, com uma gritante aparência que o dono pouco zelo tem, pondo em risco sua vida e a dos demais. De minha parte, se tiver que dar problema, tem que ser acidental, e não por falta de cuidado.

Que gostoso pegar o carro e ir de Pinda para São Paulo, Pinda para Pinda, ou para qualquer outro lugar que eu quiser, sem ter que ir à rodoviária. Que gratificante é a independência, qualquer que seja; inclusive no quesito condução. As prestações são altas, a manutenção sufocante e o combustível nem se comenta. Mas que delícia é ser seu próprio condutor.

Um predador deste prazer seria o trânsito. Quem tem não quer perder, e quem não tem quer ganhar um carro. Logo, a quantidade de veículos é enorme. E eu que estava acostumado por vários anos a somente dirigir meu corpo entre as calçadas, me esquivando das pessoas, das bicicletas, das senhoras, senhores, jovens, crianças, gestantes, raramente tendo problemas. Agora a tensão se redobra nos pontos de maior trânsito de veículo, nos horários de picos, nos sinais vermelhos, nas ultrapassagens, nas estradas de mão dupla, nos motoristas apressados 100 km/h quando a placa pede 60.

Todo o prazer tem seu custo. E ao volante o custo é manter uma atenta direção defensiva para poupar meu poisé, minha vida e a de outrem.

*Escritor, autor de romances. Contato com o autor [email protected]



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