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O sacrifício dos jovens

O sacrifício dos jovens

06/07/2020 Daniel Medeiros

Mais de cem dias depois, a pandemia vai produzindo uma cauda longa de desarranjos que se fará sentir por muitos anos e esses efeitos vão atingir, principalmente, os mais jovens.

É fato que o vírus também mata jovens mas, como sabemos, as vítimas preferenciais são os mais velhos que já carregam em si alguns arautos do mundo-além, que os médicos chamam, sem nenhum respeito aos eufemismos, de comorbidades.

Jovens são, também, a grande maioria dos médicos e enfermeiros que estão na linha de frente, os rostos marcados pelo cansaço e pelas tiras das máscaras, dobrando turno, ficando longe das famílias, expondo-se ao risco da contaminação, salvando senhores e senhoras, avôs e avós, homens e mulheres que já vão pelo terceiro cavalo, já meio mancos e com o pelo mortiço.

Esses jovens são nossos heróis contemporâneos. Às vezes, vejo-os de capas voando para ir para o trabalho e lanço acenos emocionados.

Os mais novinhos, quanto a esses, o sacrifício é o do tédio, dos longos dias em casa em frente ao computador, ao celular ou à televisão, entre os jogos eletrônicos, séries em série e as aulas remotas de professores desajeitados tentando fazer cara de normalidade, quando não arriscam um discurso de otimismo mal ensaiado.

Os adolescentes, então, bem na fase da explosão dos hormônios, são os mais inquietos. Deles que saem, algumas vezes, a frase escondida embaixo de sete pedras: “por que eu tenho que ficar aqui se eu não sou grupo de risco?”

E os mais velhos olham pra eles e respondem: “é por vocês - que também correm riscos - mas é principalmente pelos outros, por aqueles que não têm resistência para esse tipo de doença”.

Os dias passam, os efeitos desastrosos vão se acumulando - como as ruínas aos pés do anjo de Benjamin - e os jovens vão ficando cada vez mais cansados e irritadiços.

“Agora é o vestibular que ninguém mais sabe a data ou se vai acontecer”. “A formatura que já foi paga e agora nem meu diploma posso pegar”.

“A minha viagem de intercâmbio, tudo pronto e só falta não me deixarem ir porque aqui tá cheio de gente doente”. “O meu emprego, já estava tudo acertado”.

“O meu negócio, investi tudo o que eu tinha”… o presente, tão rico de acontecimentos, suspenso por uma doença que atinge principalmente gente que já está doente que, afinal de contas, veja só… “já eu, jovem, estou perdendo tanta coisa”.

Esses pensamentos terríveis vão ganhando densidade e se espalham como nuvens de gafanhotos, dos grandes centros às pequenas cidades do país.

Numa quinta feira, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, um primeiro sinal explícito de revolta.

Na verdade, muitas outras já vinham se multiplicando pelas cidades, nas festas clandestinas, encontros em praças e parques, pressão pela abertura de academias, encontros dos amigos em casa - “pouca gente, só umas oito, dez pessoas, todo mundo estava se cuidando”…

Mas no Leblon, aquelas imagens, o burburinho, as cantorias e quando os fiscais chegaram, os protestos ritmados do “ninguém vai embora”.

Era um basta na paciência daquela gente bronzeada querendo mostrar o seu valor. Vida é pra quem pode, pareciam querer dizer.

A pandemia continua e não dá sinais claros de arrefecimento. A cada dia, mais empregos somem, empresas somem, prazos estouram e dívidas se acumulam.

Tudo isso vai se contrapondo às vidas que somem e então muitos, nem todos exatamente jovens, mas principalmente jovens -  evoé Carlas, Bias e Saras - amedrontam, com seu vigor e disposição em forçar o normal, e nós, na zona vermelha do risco, apavorados com as imagens de tubos e macas e valas, dizemos a essas pessoas, com calma e cuidado, como quem fala a um cão que mostra os dentes para nós diante do portão:

“escuta, logo vai passar, nem é tão ruim assim, vocês levarão muito tempo para se tornarem velhos e verão que, apesar das rugas, nosso tempo ainda é hoje e um dia tem 24 horas para todo mundo; essa loucura democrática, essa distribuição perfeita, todos temos direito, entende? Não há hora preferencial para a vida de quem não viveu tanto e quem já viveu mais horas não ganha bônus nem desconto, não há o que negociar. É só um respiro após o outro. Acalmem-se. Leiam um bom livro ou melhor, escrevam um, contando dos dias que vocês ajudaram muitas pessoas a ficarem vivas. Um dia, na velhice de vocês, seus filhos e netos ficarão orgulhosos desse ato de gentileza e humanidade. Afinal, os empregos voltarão, as dívidas serão negociadas, os dias de tédio logo serão esquecidos nas areias quentes de uma praia em uma tarde de verão. Mas essas histórias de paciência e sacrifício, de espera e cuidado pelos outros, isso ficará para sempre”.

Somos feitos dessa carne e desses ossos de solidariedade e compaixão. Precisamos apenas nos lembrar disso.

Como já disse o poeta que era um rapaz, sem dinheiro no bolso: “amar e mudar as coisas me interessa mais”.

* Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.

Fonte: Central Press



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