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Orgulho americano

Orgulho americano

14/11/2008 Divulgação

No avião, cochilava num momento; noutro, folheava o jornal. As vésperas da eleição, toneladas de notícia, comentários, especulações, anedotas, atordoavam até mesmo um leitor voraz de assuntos relacionados à política. O vôo o trazia do Iraque, onde passou dois meses.  Do alto de 10 anos de relações internacionais, pouco surpreende a este estrategista em termos de política. Sem uma gota de cinismo à Maquiavel. Contudo, tornara-se pouco idealista, muito mais pragmático. O partido republicano passou a contar com sua ajuda desde o tempo de Columbia, quando cursava Direito.

Mente brilhante, não se limitara à seara do direito internacional. A economia, história, geografia, a sociologia e a psicologia eram-lhe matérias queridas. A psicologia era a mais querida, por descobrir as razões do gosto pelo poder, das vicissitudes tirânicas, do hedonismo pelo qual uma pessoa deixa-se fisgar pelas relações de dominação. Colegas em Harvard, durante o mestrado, davam a entender que seu espírito fosse afeminado por viver com livros de psicologia debaixo do braço. Ele ria como sorri o sábio diante da grosseira ignorância. Afinal, em Harvard há pessoas de cérebro diminuto, cuja existência serve meramente para dar suporte financeiro à instituição, sem jamais alcançar o grau de desenvolvimento intelectual esperado.

Esse homem de aço passou a viajar pelo mundo. Igual aos Templários, ele tendia a ver o branco rico americano como o gerente do mundo. Embora coração de pedra no terreno da política, ainda era humano. Nele pulsa a solidariedade. Dos meses que vivera no Iraque, no Afeganistão, viu a alma balançar. A atrocidade da guerra, o cheiro do sangue de americanos e não-americanos incomodaram. Massacres, fome, crianças mutiladas, a sede do petróleo, perturbavam, sim, o ideal doutrinariamente sorvido nos anos de estudante.

A aspereza e o desprezo que a figura americana passou a sofrer a partir da truculência dos Bush era o que mais lhe desconcertava. Em aeroporto, como eram mal-vistos? Claro, havia pessoas que puxariam o saco em função dos dólares, da oportunidade de ir aos Estados Unidos. Todavia, a admiração diante do povo americano estava em franco declínio.  Quantos americanos se passando por Canadense para viajar pelo mundo? Muitos.

Voltava à sua pátria, balançado pela imagem negativa de um povo que outrora fora símbolo da liberdade. Na eleição, claro que votaria no McCann, este republicano que pediu que esquecessem que Bush faz parte do partido. Esperava que ele pudesse pelo menos amenizar os estragos que Bush conseguiu fazer em oito anos. Do avião, fixou no telão o governador californiano que fazia escancaradamente menção da fraqueza do candidato democrata, como se músculos fossem sinônimo de destreza política.

Descia no JK. Uma atmosfera impregnou a alma. O povo pró-Obama. Crianças, velhos, brancos, negros, ricos, pobres. Um arrepio perpassou todo seu corpo. A massa ao gritar o sim, nós podemos, fazia seu sangue ferver de orgulho. O republicano sacudiu a cabeça. O que estava acontecendo? Não podia entender. Não era a figura do moreno Obama, corpo franzino, que o impressionava, mas o quanto ele era querido pelo povo americano. E o quanto esse povo precisava de alguém a quem admirar. O quanto ele contribuía para levantar o moral de um povo visto como tirânico, interesseiro, sem alma, truculento. Truculência que invadia países, que derrubava governos, que recusava o protocolo de Kyoto, que forçava a globalização nos outros países e impedia a mesma no seu território. Que ridicularizava o imigrante, o índio, o latino, o negro.

A vibração do povo nas ruas de Nova Yorque tudo vez lembrar a queda da Bastilha. Os nobres seriam a intolerância. O republicano vacilou na cabine de votação, mas levado pelo antigo ideal americano dos tempos de estudante, votou em Barack Obama. E disse a si, “Você, Barack, não será nenhum salvador da pátria, mas merece meu voto por ter neste momento recuperado meu orgulho americano.

*Ronaldo Duran, escritor. Colabora neste jornal semanalmente.



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