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Pais que tudo permitem e o futuro dos filhos

Pais que tudo permitem e o futuro dos filhos

21/03/2009 Divulgação

O personagem de Antônio Calloni na novela "Caminho das Índias", apresentada em horário nobre da Rede Globo, é um exemplo vivo criado pela dramaturgia daquilo que vem acontecendo no país há pelo menos 20 anos, com sensível piora ao longo da última década.

Não há mais limites para os filhos de inúmeras famílias de classe média (principalmente) no Brasil. E os responsáveis por este fato lamentável são os pais. Sei que isso irá gerar muitas reclamações condenando a veemência com que trago à tona esta afirmação. Porém, são mais que urgentes não somente uma reflexão séria sobre o fenômeno como também ações que permitam levar a respostas práticas para enfrentar o problema.

Antônio Calloni, mais uma vez desempenhando com maestria o seu papel, interpreta um advogado casado pela segunda vez, pai de três jovens que, a despeito das inúmeras ocorrências praticadas pelo filho e denunciadas por diferentes pessoas e instituições, teima em lhe passar a mão na cabeça e defendê-lo, ainda que o ocorrido realmente se revele uma falta de média ou séria implicação.

Utiliza da prerrogativa de bacharel em direito, num país em que os advogados ainda se julgam doutores mesmo que não tenham complementado os estudos em tal nível, para adentrar delegacias e escolas e intimidar, sob a ameaça de processar qualquer pessoa que em algum momento ponha em risco as liberdades por ele concedidas ao filho. Para o personagem, a lei existe para garantir-lhe direitos individuais, mesmo que em detrimento de outras pessoas, agredidas ou vilipendiadas por seu filho e também por seu comportamento arrogante, impulsivo e agressivo. É claro que, por se tratar de uma peça de ficção televisiva, o que se espera é que com o decorrer da trama de Glória Perez a justiça seja feita e que tanto o jovem infrator quanto seu pai venham a pagar por seus erros tão evidentes.

E na vida real? Basta olhar para casos e mais casos que se avolumam nos arquivos das escolas, demonstrando o descaso, o desrespeito, o desacato e a violência perpetrada por um crescente número de estudantes contra colegas, professores, funcionários e até mesmo contra o patrimônio público ou privado. O que fazer? Que caminhos tomar se os principais parceiros no combate a fenômenos como o bullying ou a depredação de bens, no caso os próprios pais, se tornam coniventes e, em defesa dos filhos, resolvem virar as costas para a justiça? A escola por si só é capaz de solucionar tais problemas? Que encargos devem ser assumidos pelos educadores e até que ponto podem agir se os pais se mostram ausentes ou coniventes com tudo isso?

Certa vez ouvi o depoimento de um delegado de polícia para um grupo de pais em que o representante da lei, ao abordar o assunto, afirmava: "Se seus filhos cometem erros e vocês não os repreendem e os orientam quando ainda são crianças, a tendência é que eles se sintam cada vez mais livres para novas tentativas e ações, em idades mais avançadas - como na adolescência -, só que com implicações mais graves. Se também nesta fase os pais fecham os olhos a tudo ou mostram-se coniventes, a perspectiva futura é ainda pior. Caso nada tenha sido feito nessas faixas etárias, quando jovens e maiores de idade os corretivos tendem a ser aplicados pela lei, com implicações graves tanto para os filhos quanto para os pais."

A resposta da Justiça seria o encarceramento, a abertura de processos judiciais, a inserção de dados no histórico que poderiam afetar o futuro pessoal e profissional do implicado ou ainda outras medidas severas. O recente caso envolvendo o megacampeão olímpico da natação Michael Phelps, flagrado em uma festa universitária consumindo maconha, com a divulgação de foto em jornais e na Internet, levou a uma retração pública do atleta e ilustra a questão dos limites que temos que estabelecer para que possamos ter o devido reconhecimento e respeito. Ninguém está acima da lei ou do direito individual alheio. Portanto, ao não traçar claras fronteiras entre o que é possível ou não fazer, os pais criam e estimulam a prevalência da ideia de que tudo no mundo é possível, até atos ilícitos que prejudicam outras pessoas.

A situação de Phelps, por exemplo, a despeito de sua retratação, ficou ainda pior com a divulgação da informação de que alguns de seus "representantes" tentaram impedir a publicação da foto dando dinheiro ao jornal que trouxe a notícia a público. Tal ação reforça a ideia de que os erros, quando não conhecidos, não inferem à pessoa que os cometeu nenhum prejuízo. Enfatiza ainda que o dinheiro pode apagar tais rastros e, literalmente, purificar a pessoa implicada em tais "pecadilhos". Para atenuar a responsabilidade dos pais, há artigos que retratam comportamentos semelhantes ao do pai personificado por Antônio Calloni em "Caminho das Índias", como resultado de uma liberalização excessiva vivida por estes progenitores que teriam, em suas infâncias ou adolescências, vivido sob a égide de famílias patriarcais tradicionais, daquelas em que tudo o que o pai diz é lei.

Outros argumentam que tais ações são respostas à opressão vivida no Brasil durante a ditadura militar. As pessoas tenderiam então a radicalizar suas próprias vidas rumo a uma liberdade irresponsável e sem fronteiras. Pessoalmente acredito que essas afirmações podem até ter, no fundo - bem lá no fundo-, algum fundamento, mas não creio que possamos continuar nos apoiando nessas desculpas esfarrapadas por mais tempo enquanto vemos membros da atual geração de adolescentes e jovens destruir suas vidas futuras por conta de ações desmedidas e sem limites.

Alguns estudiosos afirmam que o fato de os pais (tanto o pai quanto a mãe) estarem envolvidos com suas carreiras e, portanto, ausentes na formação dos filhos, os levam a compensar seus rebentos com benefícios materiais e liberdade extremada. Tendo a pensar que tal afirmação tem mais lógica. Entretanto, ainda assim creio que não podemos mais procurar subterfúgios, mas desenvolver ações conjuntas.

Neste sentido as escolas podem ajudar e muito. Devem desde o princípio, por exemplo, definir suas regras de funcionamento interno em comum acordo com a comunidade e deixar todos cientes delas. Outra medida é esclarecer que o papel que compete à escola inclui noções de cidadania, ética e civilidade - mas que esses saberes são complementares ao processo de escolarização e dependem, essencialmente, de um trabalho em conjunto com as famílias. A própria participação dos pais na escola e no acompanhamento dos filhos - não só no que se refere ao rendimento escolar -, acompanhando o seu processo de inserção social e participação em ações culturais, é de grande importância.

Outra questão primordial para as escolas é a revisão de seus métodos, para que as aulas se tornem mais motivadoras para os estudantes. Dessa forma, podem também ser atenuadas situações de conflito ou depredação no ambiente escolar. Tais ações são prementes. Penso que o debate deve ser ampliado para que todos possam participar com opiniões e ações que efetivamente permitam aos jovens uma inserção respeitosa, útil e solidária na sociedade.

*João Luís de Almeida Machado é editor do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br); doutor em Educação pela PUC-SP; mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte - Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).



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