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Pela legalização das piadas nas eleições

Pela legalização das piadas nas eleições

25/10/2014 Flavio Morgenstern

Eleições americanas de 2000. O candidato democrata Al Gore, vice do então presidente Bill Clinton, patina nas pesquisas.

O lema usado por Clinton, “it’s the economy, stupid” parece se refletir no vice Gore mais na passagem “stupid” do que no que tange à economia, com sua campanha “verde” que errou todas as previsões climáticas feitas em mais de uma década. O Saturday Night Live, programa humorístico mais sardônico do mundo, e cuja trupe fixa de humoristas em sua maioria é caudatária do Partido Democrata de Gore, nem por isso deixa de satirizar Gore. Em um comício, um sósia de Gore tenta discursar para sua plateia, recebendo bocejos e vaias.

Quando Gore anuncia que está sendo apoiado por Clinton, e um sósia de Clinton aparece na coxia apenas para dar um tchauzinho, é ovacionado alto pelo público. Aplausos, beijinhos, flores, alvíssaras, desmaios. Quando Clinton termina seu dever – anunciar novamente Al Gore – silêncio e tédio na plateia. Após variações da piada, um sorridente Clinton e um sorumbático Gore conversam nos bastidores. Clinton tenta animar sua tentativa de sucessor. Gore até volta ao palco, e é confundido com o anunciante do verdadeiro candidato.

Clinton demonstra como conquistar a benevolência do público: apenas põe a mão para fora da cortina em sinal de “positivo”, e a plateia vem abaixo em aplausos e gritos histéricos novamente. Era a economia, estúpido. E os americanos sabiam que ninguém melhor para lidar com a economia do que um Republicano. Gore perdeu feio. Eleições americanas de 2004. O Secretário de Estado, John Kerry, concorre com George W. Bush, tendo de passar a campanha se esquivando das declarações contraditórias que deu sobre a segunda Guerra do Iraque. Apoiou, criticou, deu a entender que não apoiou, fingiu que não era com ele. Seu carisma conseguiu ser pior do que o de Al Gore.

A eleição é decidida conforme os ânimos com a guerra. Em um episódio do desenho animado South Park, a cidade é dividida entre caipiras rednecks conservadores irados e patriotas favoráveis à guerra e hippies esquerdistas “lutando pela paz” e pelo direito de protestar contra a guerra. O irracionalismo do comportamento de massa, que ignora o seu próprio desejo, como “a paz mundial”, em troca de brigas locais, é escrachado por todos os lados por um desenho escatológico, porém antenadíssimo com a política. Al Gore se torna ainda mais falado nessas eleições do que o próprio candidato Kerry. Foi finalmente alçado ao estrelato por sua campanha verdade, uma Marina Silva yankee alertando o mundo contra a maior ameaça à humanidade desde a peste negra e o programa do Thunderbird: o aquecimento global.

Em dois anos, novo episódio de South Park: o diretor da escola anuncia que ouvirão a palestra de alguém muito importante: o ex-vice-presidente. Alguma criança sabe o seu nome? “Dick Cheney?” Não, EX-vice-presidente. “Bill Clinton?” Não, vice de Clinton! Ok, ninguém lembra, recebam bem... Al Gore! Crianças: “Quem?” Al Gore explica que o mundo enfrenta um risco terrível que pode acabar com a humanidade como nós a conhecemos. Ele fala, naturalmente, do homem-urso-porco. É uma criatura que espreita lá fora, e é metade homem, metade urso e metade porco.

Alguns não acreditam que o homem-urso-porco exista, mas ele está falando super, super sério, e provará que o homem-urso-porco certamente existe. Quando o mundo inteiro acreditar que o homem-urso-porco existe e erradicar sua existência, todos dirão: “Muito obrigado, sr. Al Gore, você é muito legal”. Fim. Na vida real, Gore colheria seu futuro: tendo perdido a presidência, talvez exatamente por isso foi o único ser humano a amealhar o Nobel da Paz e um Oscar no ano seguinte.

Al Gore finalmente pareceu um cara muito legal, e muitos acreditaram em sua verbosidade sobre o homem-urso-porco. Parecia ser verdade. Eleições americanas de 2008. O fenômeno Sarah Palin contagia o mundo. Cansados das guerras iniciadas por Bush, as mais longas guerras nas quais a América se envolveu, Obama e Hillary têm favoritismo. Atacar a fama de caipira da “deslocada” da ex-governadora do Alasca fazia mais sentido do que atacar o real candidato, John McCain. Um jornalista insinua que Sarah Palin tinha pouco conhecimento de política externa.

Palin responde que o Alasca fica bem próximo da Rússia, e que, caso Obama vencesse, podia ver de seu lar Putin tomando coragem para invadir a Ucrânia. Tomando a linguagem figurada como concreta, novamente o Saturday Night Live refaz a entrevista, dando a entender que Palin dissera que a Rússia ficava tão perto do Alasca que podia ver o país asiático de sua casa. Até hoje, setores de esquerda – e não apenas de esquerda – no mundo inteiro, que adoram caçoar das “crenças” da bela candidata conservadora, creem religiosamente que Palin afirmou mesmo e realmente acredita que a Rússia pode ser vista a olho nu do Alasca, e não que foi uma sketch de humor.

Pior: Putin de fato invadiu a Ucrânia em 2014. Exatamente como Sarah Palin havia previsto, mostrando que realmente seu conhecimento de política externa era maior do que a de seus interlocutores – e de seus críticos espertalhões. Tão logo a invasão foi consolidada, Palin postou em seu perfil no Facebook que sim, ela podia ver isso do Alasca. Até antes de acontecer. Touché. Uma piada, ainda com atraso, combatida com outra piada. Quem ri por último? A quantas andam as intenções de voto democrata numa época de crise global, com Obama ainda no poder? Como vai a sua popularidade para fazer Hillary sua sucessora? No mesmo ano, o episódio especial da Casa Mal Assombrada d’Os Simpsons, o mais esperado de toda a temporada, se inicia com Homer Simpson indo votar em Barack Obama.

A urna semi-eletrônica computa um voto para McCain. Homer pensa: “Não, eu quero votar em Obama”, e aperta novamente. A urna computa novo voto para McCain. A cada novo aperto, outro voto para o adversário. Vendo a fraude, Homer “briga” com a urna, é tragado para dentro dela num vórtice, sangue escorre por baixo e Homer é cuspido com o corpo todo quebrado. A sátira aos conservadores é feita no desenho-símbolo da Fox, basicamente o único canal de televisão direitista da TV americana.

Eleições americanas de 2012. Novamente Os Simpsons na Fox, novamente Homer vai votar. Dessa vez, seu voto vai para o republicano Mitt Romney. A urna mostra a declaração de imposto de renda de Romney, que fora acusado na campanha de ser favorecido pela Receita. Homer corre para contar para a imprensa. Novamente é sugado pela urna. “Eu odeio ser sugado pelos tubos!” Homer vai parar numa linha de montagem chinesa e se joga pela janela, sendo retido por uma “rede anti-suicídio”. As fábricas chinesas da Apple àquela altura eram acusadas de ter condições tão horrendas que muitos trabalhadores tentavam o suicídio, e a notícia de instalação de redes de proteção correu o mundo. Realidade e ficção se inspiram e se imiscuem.

E no Brasil...

A sátira, a visão cínica da existência, a piada que vai da refinada ironia machadiana até o ataque sardônico, foi uma das maiores conquistas da humanidade. A grande vantagem do Ocidente civilizado em relação ao restante do mundo é que é uma sociedade que nasceu da auto-crítica. A auto-crítica visceral, não apenas a versão fofinha e diluída, a sátira Merthiolate-que-não-arde. Os países com debates públicos mais civilizados do mundo, os anglo-saxões e os judeus, aprenderam a arte da piada visceral no âmago de suas vidas públicas.

A política é o fenômeno do público, das decisões que um indivíduo não pode tomar sozinho – como o que é permitido, impróprio ou proibido de fazer em vias públicas, ou com incapazes. Todavia, traz em seu bojo o poder de força física, a potentia, para assegurar o poder legal, potestas, criado pelo poder político, autoritas. Assim, temos sempre uma força física – de lei, de impostos, de obrigações públicas – que pode muitas vezes ser usada para funções ridículas criadas por leis ridículas.

A única forma de a lei e a existência pública serem purificadas desde a raiz e mostradas em sua realidade nua e crua, in true colours, é através da visão dos sátiros. O humor, a derrisão, a visualização do ridículo no que as pessoas levam como normalidade, é a coisa mais séria do mundo junto com a própria filosofia. A filosofia se divide sobretudo em três áreas: a epistemologia busca o que é verdadeiro; a ética, o que é bom; e a estética, o que é belo. Todavia, é uma busca única, e por muitas vezes, o que é mau também pode ser cafona. É este o material do humorista. Muitos bons piadistas apenas atuam de uma maneira de um filósofo notando erros em seus compatriotas – ou em outros filósofos.

Não sem razão, políticos odeiam o humor. Porque uma piada bem feita não é como o belo e incisivo discurso de um adversário – mesmo se for dos melhores da humanidade, como as Catilinárias de Cícero, contra os planos de Catilina de tomar o Senado – espécie de mensalão da Antiguidade. A piada, por óbvio, não é apenas uma denúncia argumentativa e racional ou moral, mas é feita para rir. Atinge até a fisiologia do ouvinte. Não há escape para a contemplação do excêntrico. É uma das forças mais poderosas do mundo. Um político com poder não apenas passa vergonha: perde o poder quando é alvo de piada. Era para os homens públicos terem cuidado com a coisa pública (res publica) que os festivais de comédia eram sagrados em Atenas.

Para fazer os políticos tomarem cuidado, e não agirem na vida pública como atuam na privada. As comédias gregas, ao contrário das tragédias, não costumam lidar com os heróis dos mitos, mas com os próprios cidadãos atenienses. Exatamente os que estavam na plateia: Sócrates, tendo seu método ridicularizado na comédia As Nuvens, de Aristófanes, provavelmente estava na plateia na única vez em que a peça foi encenada. Algo como se Hamlet, Fausto ou Um Bonde Chamado Desejo fossem escritas para serem encenadas uma única vez.

Com a ascensão do Estado moderno, a mentalidade rebanhista dos revolucionários, o novo messianismo e o Estado gigante atuando e politizando todos os aspectos da vida, cada vez mais voltamos ao tempo dos faraós e reis legisladores, quanto mais acreditamos estarmos nos afastando do obscurantismo. O governante cada vez mais se confunde com o próprio Estado. Fazer uma piada com um político, sobretudo em período eleitoral, para nossos moderninhos de plantão, não é apenas fazer um político passar vergonha: seria uma afronta ao próprio regime. A crença alquimista moderna é transformar latão em ouro através da política. Como dizia Frédéric Bastiat sobre o socialismo, seu maior crime é que um sistema que exige cumplicidade forçada de toda a sociedade tomará qualquer crítica a si como uma crítica ao próprio povo.

Assim, qualquer visão negativa sobre sua ditadura totalitária é encarada como uma traição a toda uma população, merecendo sempre a pena de morte – e legando as pilhas de cadáveres anônimos que chegaram aos 150 milhões após sua morte. Quando o Tribunal Superior Eleitoral no Brasil proíbe piadas com candidatos e até mesmo menção a seus nomes na mídia no período eleitoral, logo após a curiosa indicação do ministro Dias Toffoli para sua presidência – e ninguém no país encarna melhor a mimetização entre partido e governo do que o ministro do STF indicado por ser advogado do PT – o que o Tribunal faz não é senão proibir o que a civilização ocidental tem de maior vantagem e maior originalidade.

O motivo é claro e duplo: além de um político preferir um adversário demonstrando suas mentiras do que uma piada realmente engraçada tendo-o como alvo, o partido em comando no país quer se transformar no próprio Estado – a “hegemonia partidária” de que falava Dirceu, dizendo que a Venezuela e o Uruguai “já conseguiram”. É uma política que se leva a sério. Exige que a sociedade inteira acredite em seu projeto coletivamente para funcionar. Haver uma narrativa com ironia, com algum desgosto, vendo a coisa cinicamente como ela é, ensina o povo a ver que o que é considerado positivo diante de seu nariz na verdade é grotesco, feio, atroz, ridículo. O rei está nu. Nenhum partido buscando a hegemonia totalitária pode sequer conviver com esta hipótese.

A pretensão de uma “igualdade” entre candidatos, proíbem que se diga dos candidatos verdades e incisões que só são desconfortáveis aos próprios candidatos. Justamente coisas que são positivas a quem precisa escolher candidatos – políticos que terão poder sobre as próprias carteiras e liberdades do eleitor. É sempre com uma bela desculpa que se instaura a pior das tiranias. Graças a uma lei de inspiração fascistóide, não temos piadas como nos países de debate público mais civilizado.

Não temos, na verdade, sequer menções a quem disputa nosso voto, cada vez mais tratado como formalidade para que políticos obtenham poder sobre nós, e poder cada vez mais total. Por acaso estamos numa melhor situação para eleger candidatos do que sem Simpsons, South Park e Saturday Night Live por perto? É criando novas leis para proteger não o povo, mas os fazedores de leis, que nossa liberdade virá? A lei aparece numa hora “perfeita”, aquilo que os gregos chamam de kairós, o tempo exato para se realizar algo: a conjuntura política nacional dá mostras altas de esgotamento do discurso oficial governista, seus números, apesar de não entendidos, não convencem a população que conhece a realidade e cada vez mais parecem eles próprios uma caricatura.

Alguém tem alguma dúvida de qual seria o principal alvo de piadas de qualquer piadista no país, senão uma candidata específica? Talvez seja um dos principais fatores para sua sobrevivência na corrida presidencial: não poder haver comentários sobre sua política, sua desconexão entre discurso e realidade, ninguém estar permitido a fazer uma piadinha sua em público. Resta apenas a própria política como piada. E inverte-se o papel purificador: é agora o legislador que ri de nossa posição ridícula, por estarmos amordaçados. Se um político não aguenta nem conviver com o peso de uma piada, preferindo a força da lei para coibi-la, como podemos supor que ele poderá algum dia conviver com a verdade?

* Flavio Morgenstern é Analista político, palestrante e tradutor. Escreve para jornais como Gazeta do Povo, além de sites como Implicante e Instituto Millenium. Em breve lançará seu primeiro livro pela editora Record. Especialista do Instituto Liberal.



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