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Recém-nascido

Recém-nascido

13/10/2008 Divulgação

Quanto tempo? Nove meses. Eu ansioso para te ver. Um tempão ouvindo seus movimentos, suas brincadeiras, tudo para chamar minha atenção. Logo que pude te perceber, logo pressenti que seria um ser muito especial. O carinho que me transferia. Murmúrios afetuosos, os carinhos na barriga. Eu te juro, quis nascer para ver a linda mulher-mãe que você é.

Tudo bem, nascer seria o problema. Sair da minha confortável e acolhedora placenta. Ter que presenciar o líquido amniótico descendo ralo abaixo. Bastava imaginar abandonar o espaço que me alimentou por meses para eu ficar em pânico. Assim que nascemos notamos o sacrifício que foi ter que sair do útero. É apenas um indicativo que a vida será uma luta constante.

Claro que o espaço nos últimos tempos já estava deixando a desejar. Apertado, sufocante. Era difícil até esticar as canelas. Eu tinha que sair de qualquer jeito. Sentia a cada dia que a ética, a civilização estava se perdendo entre mim e mamãe. Eu a chutava por mais espaço, e ela reclamava pela dor. Eu ficava sentido por promover tamanho incômodo. Afinal sou humano.

De repente, mãos me arrancam de lá de dentro. Uma luz forte perturba meus olhos. Um barulho ensurdecer. Fora do líquido tive dificuldade para respirar a princípio. Quando me vi estava berrando. Chorei tanto que senti os pulmões doerem. Passaram-me de mãos e mãos. Pesaram-me. Chacoalharam-me de modo indescritível. Bem vindo à vida, pensei.

Todo sofrimento uma hora cessa. Quando percebi, eu estava alojado próximo à minha mãe, em seu leito. Ela com olheiras, quase estropiada depois da cesariana. Bem, se para mim o parto fora violento, para ela não foi mais brando. Talvez por isso quando nos vivos, ambos sofredores, achamos justo um acolher o outro. Eu parei de chorar e me enrosquei nela. Ela sorriu de satisfação pelo filho recém-nascido. Abraçava-me, beijava-me, sempre deitada.

Passado algum tempo descobri que o amor, ainda que de mãe, não enche barriga. O estômago começou a roncar. Abri o berreiro. Uma esfera rósea, quente e fofa se enfiou na minha boca. Quando vi, eu a estava sugando. Era minha mãe que através de seu seio me amamentava.

Das vezes que eu acordava, sempre tinha um motivo. A fome era o principal. Os piores eram as cólicas, que tive que aturar durante três meses. O leite materno ia se adaptando ao meu delicado organismo. Em seguida, vinham torturas que chamavam de exames de rotina. As visitas dos irmãos e do pai eram agradáveis. Isto quando não acompanhada da caravana de parentes. Que tagarelas. Eu não conseguia descansar, tirar meu cochilo. Era um tal de anjinho aqui, nenenzinho fofinho ali, e eu nada de pregar o olho.

O que vale é que adoro estar perto da mãe e pronto. O banho que me dá. Quando me troca a frauda. O afago que me oferece.

* Escritor, docente, autor do romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO! Acessível pela livraria www.corifeu.com.br 



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