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Vigilante noturno

Vigilante noturno

05/11/2008 Divulgação

Falar que meu serviço é pesado, é ser injusto com minha mulher. Empregada doméstica ou secretária do lar, ela sim trabalha duro, sem deixar de dar atenção às duas meninas do casal enquanto faz as faxinas.

Mas se meu patrão, que vive montado na grana, reclama pra caramba, por que eu não posso? Ele é um daqueles que para arrancar um sorriso só se a venda de um imóvel der um bom lucro. Certa vez um novato lhe disse: “boa noite!”, no que ele respondeu: “só se for boa para você, pois para mim está péssima”.

Sou de carne e osso. Gosto de chorar minhas pitangas. Na verdade, o que eu quero é valorizar o aqui e agora. Já perambulei por várias profissões, e nenhuma me atraiu tanto quanto vigilante. Todas tinham metas, tinham tarefas, tinham desempenho, tinham bajuladores, tinham uma infinidade de coisas que me aborreciam.

Sendo vigia já corri muito perigo, principalmente das vezes que fiquei em banco, lojas... Mas há macetes para driblar os riscos.

E a noite é tão calma. Diferente da tensão diária, do corre-corre de pedestre, de trânsito barulhento. À noite a calma impera. Tudo muda. Os mendigos sonolentos, no máximo que fazem é pedir lugar para dormir debaixo do toldo. As crianças de rua, que me corta o coração, pedem igualmente um espaço, quando muito papel ou qualquer material que sirva de travesseiro e coberta.

A Avenida Nelson D’Ávila às duas, três, quatro horas da manhã tem seu público diferenciado. São profissionais do sexo, travestis. Os clientes são bem democráticos, indo desde os operários da construção civil até gente da grana que estacionam seus carros importados e carregam o que pode. Isso é que me intriga: eu pensei que tendo dinheiro poderia ter a mulher que se quisesse, casar bem e ser feliz. Bem provável que estes ricos que vem aqui sejam frustrados. Deixam em casa a esposa, e vêm à caça de pobres mulheres vendendo sexo. Vá entender o ser humano.

Nas noites bem frias, quando posso, dou uma esticada na padaria 24 horas, para pegar um café com leite, pingado e pães ou bolo. Corro de volta para meu posto. Lá devoro o lanche, olhando os gatos e cachorros vira-latas perambularem, luzes dos hotéis piscarem, os letreiros luminosos dos estabelecimentos comercias, os vigilantes e recepcionistas, carros que passam muito raramente. Bandidos cheios de si com assaltos que acabaram de fazer e que agora estão fugindo ou correndo para gastar a grana.

O olhar das pessoas me chama a atenção. Bem diferente do que acontece durante o dia: nuns, um medo permanente de assalto ou de qualquer outra violência; noutros, uma irresistível necessidade de liberdade, de se arriscar, de sair da monotonia.

O lado ruim do trabalho à noite é que você perde o dia. Quando a cidade desperta, você vai dormir. E nem vê a família, os filhos. A minha sorte é que trabalho dois por dois. Hoje e amanhã estarei aqui, em compensação, folgarei dois dias. Dessa maneira sobra mais tempo para a família, e posso cuidar da casa, quando não fazer uns bicos de eletricista, atividade que adoro.

* Escritor, autor de romances. Colabora neste jornal semanalmente.



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