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Teatro-música estréia em Munique

Teatro-música estréia em Munique

12/05/2010 Divulgação

Estréia de "Amazonas – Teatro música em três partes" entusiasma público da Bienal de Munique. Índios yanomami participaram da concepção do projeto. Ponto alto é "Queda do Céu" do brasileiro Tato Taborda.

A cada um, o Amazonas que merece. Após quatro anos de preparação, o Teatro música em três partes estreado neste sábado (08/05) apresentou visões extremamente contrastantes da história e atualidade da região. A récita na sala Reithalle fez parte da Bienal de Munique (cujo slogan em 2010 é "O olhar do outro"), em coprodução com o Instituto Goethe e o Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa, entre outros. O interesse pelo projeto tem sido intenso, com a lotação esgotada há semanas e presença marcante na mídia alemã.

Meios brutais para conteúdo brutal

A primeira parte deste Amazonas se intitula Tilt, mensagem de fim de jogo do velho fliperama. O diretor de cena Michael Scheidl e sua esposa Nora, cenógrafa e figurinista, optaram por uma concepção despojada: no palco frontal dividido em três, estão Mafalda de Lemos, Moritz Eggert e Christian Kesten, vestidos de terno escuro. A tela que os separa do público alterna dois estados: transparente – deixando ver os intérpretes em pessoa – ou opaca – mostrando seus rostos projetados como talking heads gigantescas. Isolados em seus compartimentos, eles recitam e cantam o texto de Roland Quitt, baseado em narrativa do inglês Walter Raleigh, que explorou a Guiana no final do século 16. Nessa denúncia dos primórdios da colonização, da futura manipulação pela mídia, o compositor Klaus Schedl – que revela selecionar seu material a partir dos grandes montes de "lixo sonoro" que cria – optou por uma linguagem monotonamente brutal. No estilo: "A colonização foi má, o homem ocidental é mau. Por isso, minha música é má!".

Apesar de ele empregar um grupo bastante heterogêneo, incluindo tanto flauta, trompete e violoncelo como guitarras elétricas e sintetizador, a sonoridade resultante é pouco diferenciada. Sutileza é um conceito praticamente ausente à obra, em diversos níveis: a dinâmica predominante é a do crescendo, por acréscimo de material musical e de volume sonoro, até atingir a explosão, seguida de silêncio súbito. Um jogo que logo se torna cansativo. Dentro de sua estética semi pop-rock, Schedl também beira a banalidade nos momentos melódicos – como no terceto em que mãos anônimas começam acariciando Mafalda de Lemos, para depois quase esmagá-la (mais um crescendo!). A erupção vocal que se segue, acompanhada por som de guitarras distorcidas, tampouco impressiona: se é para berrar, Janis Joplin e companhia já o fizeram com muito mais convicção. Os três intérpretes se esforçam visivelmente, porém suas limitações como cantores e atores só agravam as falhas de concepção. E depois de tantos paroxismos pour épater la bourgeoisie, Tilt termina com o mesmo ponto de interrogação sonoro com que começou (a queda de uma bola de fliperama?), num efeito cômico. Ainda que – mais uma vez – previsível.

High tech e Power Point

Apesar de reunir todos os 11 intérpretes vocais das duas partes anteriores, a terceira e última peça da noite, Amazonas-Konferenz. In Erwartung der Tauglichkeit einer rationalen Methode zur Lösung des Klimaproblems (Na expectativa da efetividade de um método racional para resolver o problema climático) tem, decididamente, a tecnologia como figura de proa. Seus criadores são Peter Weibl, concepção e direção; Ludger Brümmer, música; e Bernd Lintermann, imagem – todos do Centro de Arte e Tecnologia de Mídia (ZKM) de Karlsruhe. Projeções computadorizadas – texturas, objetos, animais, letras, e números – metamorfoseiam o cenário de escadas brancas assimétricas. Só que, passada a novidade, o interesse dos efeitos se esgota. E assim, de forma mais didática do que artística, vão sendo comunicadas informações e mensagens sobre química, sobre a Floresta Amazônica e seu papel no aquecimento global, etc.

Impossível evitar o embaraço diante de certos sons canhestros, de sintetizador barato, ou ao ouvir frases do gênero "É preciso agir logo para salvar nosso planeta...", cantadas em coro, em harmonias suavemente dissonantes. E na "conferência" propriamente dita, nem mesmo a novidade técnica da mesa, misto de instrumento musical e unidade de vídeo-mix, consegue fazer esquecer a ingenuidade do conteúdo. Ao fim, depois de os intérpretes se aproximarem pomposamente da plateia, portando vídeo-máscaras, os espectadores se veem projetados, ao vivo, sobre a escadaria. Espera-se que estejam suficientemente esclarecidos: agora cabe a eles agir. Em seus melhores momentos, a Conferência do Amazonas de Weibl e Brümmer entretém pelos efeitos – nem tão novos ou criativos assim – de video mapping. Nos piores, faz pensar numa apresentação de Power Point, desproporcionalmente cara e trabalhosa.

Queda gloriosa

Há mais de quatro séculos, a ópera promete reunir todas as artes (e ofícios) num único espetáculo, comover e divertir, maravilhar e fazer refletir. Promessas que, na grande maioria dos casos – incluído o moderno teatro-música –, permanecem vazias. O que se ouve e vê nos palcos são, com mais frequência, cenários impressionantes que não contribuem para transportar a trama, música fantástica sobre libretos medíocres, virtuoses vocais que são atores deploráveis. Ou vice-versa. Situada entre Tilt e Konferenz, a parte dois de Amazonas, A Queda do Céu, é um desses raros momentos em que a promessa do gesamtkunstwerk – a obra de arte total – se cumpre de fato. A conjunção de talentos é de rara felicidade, a começar por Phil Minton e Christian Zehnder, ambos virtuoses de técnicas vocais não-convencionais; os três cantores líricos Kátia Guedes, João Cipriano Martins e Nuno Dias; e os músicos do Ensemble Moderno de Lisboa, regidos por Heinz Friedl. Também de alta qualidade é a vídeo-arte de Leandro Lima e Gisela Motta.

Como na parte um, Roland Quitt e Michael Scheidl são responsáveis, respectivamente, pelo texto e direção, e Nora Scheidl por cenário e figurinos. E, last but not least, o compositor curitibano Tato Taborda – que acumula a direção de som, apoiado por Alexandre Fenerich e Andreas Simon. Para conceber A Queda do Céu, ele fez duas visitas a Watoriki, uma aldeia yanomami, ouviu e gravou a floresta, dialogou com o xamã Davi Kopenawa, o antropólogo Bruce Albert, o sociólogo Laymert Garcia dos Santos. Esse processo confirmou a Taborda a complexidade do tema, a dificuldade de traduzir em meios cênico-musicais a luta de vida ou morte que natureza e índios enfrentam no Amazonas. Longe do usual inferno de boas intenções que é a arte politizada, o compositor encarou o desafio com o respeito e sensibilidade devidos. E é essa integridade artística que se ouve e se vê na segunda parte de Amazonas. Pois cada aspecto foi meticulosamente orquestrado e colocado a serviço de uma – nobre – ideia: tudo "bate".

Luta do Bem contra o Mal

Poder-se-ia definir A Queda como uma narrativa cênico-musical com caráter de instalação. Assim, primeiro vem um prólogo gravado, narrando a três vozes o mito yanomami. Súbito, um relâmpago sonoro rasga a sala, forma-se um labirinto de tecido negro translúcido, permeado por luzes verdes, "vegetais". E a partir esse momento rompe-se a linha palco-plateia, o público está convidado a se movimentar entre cantores e músicos, a perder-se e a achar o próprio caminho no cérebro do Xamã. Isso significa que, apesar de se encontrarem no mesmo espaço, é impossível dois espectadores terem a mesma percepção da obra. A cada um, a sua Queda do Céu. De postos elevados nas extremidades da sala, o protagonista e Xawara (símbolo da destruição pelo homem branco, na mitologia yanomami) travam um duelo com meios vocais, empregando uma indescritível palheta de recursos, que passa por sons animais, estalos, murmúrios, gritos, gemidos, canto multifônico e gutural. Xawara envia seus três "vetores brancos" – Cientista, Missionário e Político – selva adentro, cada um arrastando um baú/caixa acústica com seu próprio universo de associações sonoras – sejam fórmulas científicas, coros sacros ou hinos patrióticos –, atraindo e desnorteando os espectadores com seu canto. A orquestra de percussão e sopros (sobretudo metais) adensa a atmosfera, envolve, dá sinais, pontua e assusta, incita e rechaça. Os esbarros com os demais espectadores, seu comentário imediato, expressões e reações, em si, já formam quase um espetáculo à parte.

Aval dos yanomami

Num plano mais abstrato, as projeções de vídeo de Lima e Motta – praticamente única fonte de luz na floresta cênica – traçam uma dramaturgia paralela de degradação e aniquilamento. A idílica sugestão inicial de "sol através da folhagem" vai sendo substituída por coriscos sismográficos, processos celulares, brilhos radioativos, jorros líquidos, movimentos corrosivos, manchas meteóricas (Foi sangue? Hematoma? Ferrugem?). Belas imagens de contágio e veneno: o verde desaparece no preto, cinza, vermelho. A peça se encerra com a derrota do Xamã. Os três "vetores" se reúnem no centro do espaço, empilham seus baús, de onde emanam fumaça – símbolo de Xawara – e uma algaravia de sons radiofônicos, poluição midiática, névoa desconexa de informação sem significado. Visibilidade zero. Silêncio. O céu caiu. A obra de Tato Taborda e colaboradores recebeu aplauso longo e emocionado na Bienal de Munique. Presentes à estreia de Amazonas – Teatro-música em três partes, estiveram o yanomami Davi Kopenawa e seus filhos Dário e Ênio. Eles se disseram satisfeitos com a obra: ela retrata bem o escuro da floresta – "que vocês não conhecem" – e a violência dos brancos.

Para mais informações acesse o site DW-World.



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