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A mente de uma abelha

A mente de uma abelha

10/08/2022 Décio Luiz Gazzoni

As abelhas demonstraram habilidade para entender conceitos abstratos como “igual” ou “diferente”.

A mente de uma abelha

O título da coluna remete ao nome do livro lançado em julho de 2022 pelo prof. Lars Chittka, da disciplina de ecologia sensorial e comportamental da prestigiadíssima Universidade Queen Mary de Londres (http://bitly.ws/sVtN). Um livro fartamente ilustrado, mas que chama a atenção para algo provocante: segundo o prof. Chittka, as abelhas apresentam senciência.

Senciência? Que diabos é isso? Trata-se da capacidade de um indivíduo de sentir sensações e sentimentos de forma consciente, ou seja, de perceber conscientemente o que lhe acontece e o que ocorre ao seu redor.

A afirmativa do prof Chittka é respeitável, porque ele trabalha com abelhas há mais de três décadas, tendo publicado dezenas de artigos sobre o tema, e granjeado o respeito de seus pares. A surpresa está no fato de que senciência parecia ser um atributo encontrado exclusivamente na espécie humana e em outros animais superiores. Os estudos do prof. Chittka, que apresentamos resumidamente, a seguir, comprovam esse fenômeno em abelhas.

Por ocasião do lançamento do livro, o prof. Chittka lembrou que, além de proteger as abelhas porque são importantes para o ambiente, para a biodiversidade e por aumentar a produtividade e qualidade dos cultivos, há também uma obrigação ética, por conta de sua senciência.

Percepção sensorial

As abelhas demonstraram habilidade para entender conceitos abstratos como “igual” ou “diferente”. Os estudos mostraram que uma abelha é capaz de inferir um objeto por sua forma, sem o haver visto. Por exemplo, abelhas foram capazes de identificar, visualmente, uma esfera com a qual só haviam tido contato no escuro – e vice-versa, ou seja, também identificar no escuro uma esfera, entre outras formas, tendo a visto apenas na claridade.

O prof. Chittka percebeu que algumas abelhas eram mais curiosas e confiantes do que outras, algo tipo a ‘abelha genial’, aquela que faz algo melhor do que todos os outros indivíduos de uma colônia, ou mesmo que todas as outras abelhas, de colônias diferentes. Suas observações foram além, descobrindo também o aprendizado imitativo. Quando uma abelha era treinada para executar alguma tarefa específica, incomum para aquela colônia, as outras abelhas que a observavam na execução aprendiam como fazê-lo e, rapidamente, todas as abelhas da colônia eram capazes de executar a mesma tarefa.

Surpreso? Então veja essa: quando, deliberadamente, a “abelha demonstradora” foi treinada para realizar uma tarefa de forma sub-ótima, a “abelha observadora” não se acomodou em, simplesmente, repetir o processo ipsis leteris, mas melhorou espontaneamente a técnica para resolver a tarefa de forma mais eficiente, sem recorrer ao processo de tentativa-e-erro. Algo como perceber e capturar uma oportunidade da melhor forma possível, com a melhoria do processo.

Inteligência

Em artigo recente, relatamos que as abelhas possuem habilidades matemáticas (http://bitly.ws/qDhw). Porém, além de afirmar que as abelhas são seres altamente inteligentes (http://bitly.ws/sVuj), o prof. Chittka assevera que elas são capazes de planejar ações, que se reconhecem como entes únicos, mesmo dentro de uma sociedade altamente organizada, como é o caso das colônias de Apis mellifera, a abelha do mel. E vai além, ao dizer que as abelhas são capazes de sentir emoções.

Em um dos experimentos realizados em seu laboratório, foi testada a capacidade de uma abelha reconhecer um rosto entre inúmeros apresentados a ela. O experimento consistia em mostrar à abelha uma imagem de um rosto, associada a uma recompensa (açúcar), repetido algumas vezes. Posteriormente, foram apresentadas inúmeras fotos similares, porém a abelha receberia açúcar apenas se escolhesse o rosto correto, mostrado anteriormente. E o índice de acerto da abelha foi muito alto.

Em outro experimento, foi testada a capacidade de abelhas identificarem uma fonte de alimento, utilizando pontos de referências. Para receber o alimento, elas foram treinadas para voar passando por três pontos de referência, exatamente iguais. Assim que as abelhas aprenderam o trajeto até o alimento, foram adicionados novos pontos de referência (iguais aos anteriores) ou retirado algum dos que existiam durante o treinamento, portanto, aumentando ou diminuindo a distância até o alimento. Quando os pontos de referência foram colocados mais próximos entre si, a abelha pousou mais cedo do que antes. O contrário aconteceu quando os pontos de referência foram colocados mais afastados um do outro. A abelha sempre pousava depois do terceiro ponto de referência, ou seja, ela contava o número de pontos.

Essa foi a conclusão do experimento, porque, como os pontos de referência eram idênticos, a abelha não estava identificando um ponto em particular para decidir até onde voar. A decisão foi voar passando pelo mesmo número de pontos de referência.

Consciência

Os estudos do prof. Chittka, relatados no livro, revelam que uma abelha tem a intenção clara de fazer algo, uma consciência de qual é o resultado desejável de suas ações. Dito de outra forma, existe um processo de pensamento lógico e de planejamento utilizado pelas abelhas. Traça uma estratégia para atingir um objetivo, mais do que simplesmente testar diversas vias até encontrar uma solução.

Como resultado dessas observações, o prof. Chittka aventou a hipótese de as abelhas serem entes sencientes, além de inteligentes. Para testar a hipótese, ele simulou o ataque de uma aranha em abelhas que pousavam em uma determinada flor. Após o ataque, foi observada forte mudança comportamental. As abelhas que haviam sofrido o ataque, mas sobreviveram, hesitavam em pousar em flores, inspecionando extensivamente cada uma delas, à cata de aranhas.

Esse comportamento continuou presente mesmo dias após o ataque da aranha. Foi observado que, na dúvida, as abelhas não pousavam nas flores, mesmo que fossem atrativas. Entre os humanos, essa atitude é conhecida como “princípio da precaução”. Ou, eventualmente, um psicólogo classificaria o comportamento como “transtorno de estresse pós-traumático”. As abelhas que haviam sofrido o ataque de aranha mostravam-se agitadas, nervosas, rejeitando flores perfeitamente boas, sem ameaça visível de um predador.

Para comprovar que esse comportamento era consciente, o prof Chittka ofereceu às abelhas que haviam sofrido o ataque de aranhas uma recompensa, caso elas pousassem em uma flor que haviam, inicialmente, rejeitado por estarem em dúvida se havia perigo ou não. Bingo! Oferecida a recompensa, o humor das abelhas inverteu-se, e elas aceitaram pousar nas flores onde havia recompensa. Um comportamento similar ao apresentado por humanos e outros animais com sistema nervoso complexo.

Sencientes?

Analisando os resultados dos estudos e as conclusões do prof. Chittka, referendados por outros cientistas, somos levados a crer que, dado o nível de cognição sofisticada que as abelhas exibem, é improvável que elas não sintam nenhuma emoção. A senciência aponta para a capacidade de ter sentimentos. Em seu livro, o prof. Chittka registra estar suficientemente convencido de que as abelhas são seres sencientes, devido ao fato que, em seus estudos, expôs as abelhas a desafios que nenhuma abelha jamais encontrou em sua história evolutiva. E elas estão resolvendo, demonstrando elevado grau de consciência de suas ações.

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Fonte: Alfapress Comunicações



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