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A escolha de Marina

A escolha de Marina

30/09/2014 Humberto Cimino

O cenário eleitoral brasileiro se embaralhou com a morte de Eduardo Campos, candidato à Presidência de República pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro).

Campos era um político jovem, ativo e que tinha índices de aprovação que ultrapassavam os 80% em seus mandatos como governador em Pernambuco, Estado que comandou até se lançar como presidenciável. Passado o luto pela morte do jovem e talentoso Eduardo Campos em uma terrível tragédia, o Brasil se pergunta: Quem ocupara sua posição para o pleito de outubro? A escolha mais óbvia é Marina Silva, vice de Campos. Marina, que recebeu mais de 20 milhões de votos em 2010, era um dos trunfos de Eduardo Campos para conseguir chegar ao segundo turno.

A improvável aliança entre o pragmático Campos e a ideológica Marina Silva se deu em torno da polêmica que se desenhou durante a tentativa de homologação de seu partido, a Rede Sustentabilidade, no início de 2014. Engana-se quem pensa que Marina Silva buscava menos do que a Presidência da República em 2014. Desenhou o projeto da Rede pensando justamente nestas eleições. E não é por acaso. As eleições de 2014 serão as mais concorridas da história democrática do Brasil.

Não apenas porque temos candidatos com projetos opostos, como Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), mas também porque Marina, antes do descalabro de sua Rede, se mostrava como uma forte terceira via, até mesmo estando a frente de Aécio nas pesquisas do início deste ano. A Rede não conseguiu se institucionalizar em meio a burocracia eleitoral brasileira e este fato mudou radicalmente o cenário para as eleições. Afinal, Marina Silva não conseguiria concorrer se não estivesse filiada a um partido político registrado e com uma boa estrutura organizacional. Não entrarei a fundo nesta questão, mas vale dizer que sua Rede Sustentabilidade tinha muito menos participação popular e penetração nas redes sociais do que, por exemplo, o Partido NOVO, que acabou de se registrar no TSE.

Eduardo Campos fez o impensável. Deixou de lado o ego, elemento presente em todo político, convidando Marina Silva para se filiar ao PSB e ser sua vice na corrida presidencial. Marina teria a chance de institucionalizar a Rede com seu nome mais forte após as eleições e ainda por cima criava reais chances de competição para Eduardo Campos, já que parte de seus 20 milhões de votos poderiam ser mais do que úteis para levar Campos ao segundo turno. Campos ofereceu a estrutura que Marina precisava para transformar a Rede em um partido político. E Marina ofereceu a Campos seu capital político, mesmo que não completamente conversível – nem todo eleitor de Marina Silva vota em Eduardo Campos.

É importante lembrar que tanto Campos quanto Marina se apresentavam como símbolos de uma nova política, diferente da anterior. Não trabalhariam mais em troca de favores do congresso e de outras partes do gigantesco Estado brasileiro. Ao mesmo tempo, Campos foi sempre tido como pragmático. Se aliou com Marina Silva em troca de seu capital político. Marina aceitou, resolvendo diminuir o tom contra alguns setores econômicos e políticos em nome de sua candidatura.

O discurso de “novidade política” e a apresentação de uma terceira via, oposta a dicotomia entre PT e PSDB na esfera federal, era compartilhado pelos dois candidatos. Marina Silva, ex-Ministra do Meio Ambiente durante o governo Lula, sempre se mostrou mais agressiva contra alguns setores que eram essenciais para a eleição de Campos, como o do Agronegócio. Campos, hábil político, soube contornar as dissidências com Marina e conseguiu costurar uma aliança focada na agenda positiva que os dois tinham em comum. Também abria considerável mão do comando de sua campanha presidencial, já que tinha que agradar a toda-poderosa vice. Mas Eduardo Campos morreu.

E com ele também morre o acordo entre o PSB e a Rede Sustentabilidade, que dependia excessivamente de seu talento como conciliador pragmático para funcionar. O PSB nunca enfrentou uma ameaça existencial de tal magnitude. O partido não tem nenhum líder. Só Marina Silva, que não é do PSB propriamente dito. Apesar de ser filiada, Marina Silva sempre deixou claro que seu projeto é a Rede Aliás, esta foi uma das poucas ideias que Marina Silva deixou claro em sua vida. Se colocarmos de fora seu único grande diferencial – a questão ambiental – Marina é mais do mesmo.

Não deu nenhuma declaração contundente de como pretende mudar os rumos do país. Aliás, Marina foge de declarações contundentes que possam desagradar alguém que não esteja envolvido contra sua ideia de sustentabilidade. Desafio os leitores a provarem o contrário e ficaria muito feliz de estar errado. Marina Silva pode salvar o PSB hoje. Mas também se tornará, se ganhar as eleições, sua líder. E enquanto a Rede Sustentabilidade não se organizar, Marina será a chefe dos socialistas antes liderados por Campos. Sem Cid e Ciro Gomes, antigos caciques do PSB, expurgados do partido por Eduardo Campos em nome de sua candidatura independente e do não-alinhamento com a Presidente Dilma Rousseff. Sem os irmãos Gomes, o PSB não tem nenhuma de suas lideranças fortes e históricas para manter o rumo do Partido.

O medo da velha-guarda é que Marina, ao invés de institucionalizar a Rede, resolva aparelhar o PSB e o transformar em seu Partido, muito mais poderoso e sem o enorme esforço necessário para criar um partido institucionalmente sólido no Brasil. Para Marina Silva este é o melhor dos cenários possíveis. Para aqueles que acreditavam em Eduardo Campos, este é o fim de seu legado e o fim do PSB como o conhecemos hoje. Marina Silva é um elemento desagregador e que causa grande instabilidade, independentemente do partido em que ela esteja.

Observemos o PV, um partido que inicialmente tinha grande convergência com as ideias de Marina mas que quase foi desintegrado devido aos episódios desencadeados pela “sonhática” em seu objetivo de se tornar Presidente da República. Após perder as eleições de 2010 e ter construído grande capital político, parecia óbvio que Marina Silva poderia mudar o PV por dentro e o transformar em seu partido. Ela não contava com a resistência de setores mais liberais e progressistas do Partido Verde, amplamente contrários a sua visão de mundo e principalmente a um tipo de conservadorismo latente que se mostrava cada vez mais forte nas reuniões do partido.

Evangélica, contrária ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e contrária ao aborto, Marina Silva não casava com a espécie de liberalismo que era cada vez mais forte dentro do PV. Quando resolve sair do Partido, após muitas brigas e rusgas, leva muita gente junto e desestrutura completamente o partido, quase que o desintegrando por completo. Nos documentos da própria Rede Sustentabilidade está claro: O PSB é apenas um trampolim para o novo projeto pessoal de Marina Silva. Peço para que o leitor se atente principalmente aos pontos de número 4 e número 5:

4. A filiação transitória democrática permite que, tão logo a Rede obtenha seu registro na Justiça Eleitoral, o que deve ocorrer nos próximos meses, seus militantes formalmente vinculados ao PSB poderão se transferir para a legenda de origem sem o risco de qualquer tipo de sanção partidária.

5. Portanto, os militantes da Rede têm data para deixar o PSB, conforme o compromisso firmado entre os partidos no final do ano passado.

O maior erro de Eduardo Campos foi, talvez, escolher Marina Silva como vice. Campos apostava que parte do capital político de Marina poderia ser transferido para sua candidatura, mas não foi o que ocorreu até as últimas pesquisas de intenção de voto. Eduardo Campos estava consideravelmente atrás de Aécio Neves e não parecia ter consolidado sua candidatura. Talvez contava com o início das propagandas eleitorais na televisão e no rádio para tentar aumentar a conversibilidade dos eleitores de Marina Silva para o seu nome.

O que se provou foi o contrário: Nem Marina é tão forte como no passado e seus 20 milhões de votos estão longe de serem garantidos. Não existe capital político fixo, especialmente no momento único que o Brasil vive em sua história política. O Brasil foi às ruas e está com a economia estagnada. As demandas de hoje são muito diferentes das de 2010, ano-luz do governo Lula, onde o Brasil ostentou um crescimento de 7.5% em apenas um ano. Marina pode até não aceitar ser candidata após a morte de Campos.

Este seria o fim de qualquer pretensão presidencial que possa ter. É agora ou nunca. E para quem queria construir um partido, parece-me que apenas aceitar a indicação de outro é muito mais cômodo. Mas se as expectativas se confirmarem e o PSB realmente aceitar Marina Silva como sua candidata, Aécio Neves é o maior prejudicado. Dilma Rousseff também perde votos, mas é o candidato tucano que mais sofre. Os eleitores de Marina Silva em 2010 eram, em sua maioria, moradores de cidades médias e grandes, escolarizados e mais jovens.

Tanto que não é coincidência o fato de Marina ter ganho no maior PIB per capita do Brasil em 2010, o Distrito Federal. Essa dinâmica atinge de maneira quase igual os candidatos do PT e do PSDB, sendo que o PT é mais urbano que o PSDB. Entretanto, devemos também observar o que muda com a saída de Campos. Eduardo Campos servia para anular o efeito-Lula em Pernambuco e podia drenar votos do PT no nordeste, diminuindo a influência do partido justamente em um dos seus maiores redutos eleitorais.

Se por um lado não ajudava o candidato do PSDB, prejudicava muito Dilma e o PT. Eduardo Campos era exatamente o que Aécio precisava para dividir os eleitores do PT. Marina Silva, por outro lado, suga votos de todos. Mas dá a Dilma a oportunidade de reconquistar o Nordeste, especialmente com a ajuda de Lula e de seu imenso carisma. O político Eduardo Campos fará falta. Especialmente para o PSDB, que agora deve se arrepender de não ter escolhido um vice que pudesse ajudar o Partido a conquistar votos no Nordeste.

Esta situação abre espaço para uma possível vitória de Marina Silva. Também não podemos cair no erro de enxergar o Nordeste como um bloco unitário. Eduardo Campos era forte em Pernambuco e em mais alguns Estados vizinhos, mas encontrou grande resistência no Ceará e na Bahia, por articulações, respectivamente, dos irmãos Cid e Ciro Gomes e do governador Jacques Wagner e da Presidente Dilma Rousseff. Uma vitória de Marina Silva pode ser um desastre para o Brasil.

Marina Silva não sabe costurar acordos políticos e tem o péssimo hábito de descartar pessoas que vão de encontro as suas ideias. O mesmo também pode ocorrer com os excelentes economistas que estão em sua equipe – Pérsio Arida, Eduardo Gianetti, André Lara Resende – o que nos deixaria com uma candidata que não tem nenhuma grande proposta, não tem nenhum grande projeto para o Brasil e que sempre evitou fazer comentários sobre temas polêmicos, mesmo quando concorreu à presidência em 2010. Como Marina governaria sem todos os partidos de oposição e sem uma parcela expressiva do PMDB, todos com fortes laços com a FIESP, CNI e CNA? Não se sabe.

Por fim, também existe a improvável chance de Aécio Neves e Marina Silva formarem um front único contra Dilma Rousseff no segundo turno. Seria outra reviravolta eleitoral, provavelmente desaprovada por Eduardo Campos, um dos maiores aliados históricos de Lula. Este seria um cenário ideal para derrotar o PT nas eleições. Mas e a governabilidade, como fica? Como atender aos desejos de uma coalização que une representantes de todo o espectro político? Como lidar com PT e PMDB, que na também improvável chance de permanecerem unidos controlariam o congresso?

E como respeitar a memória de Eduardo Campos que lutava por uma 3a via legítima e viável? Deixo aqui essas perguntas e afirmo: O Brasil está apreensivo. O que antes era um debate sobre um futuro mais próspero se transformou em um debate sobre a própria estabilidade e resiliência da nossa democracia em momentos de elevada tensão política.

*Humberto Cimino é Empreendedor, Cientista Político e Especialista do Instituto Liberal.



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