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A lição de Hiroshima

A lição de Hiroshima

15/09/2014 João César de Melo

Nos últimos meses da 2° Guerra Mundial, as forças japonesas estavam em frangalhos, sofrendo sucessivas derrotas e perdendo todos os territórios conquistados nos últimos anos, mas o imperador Hirohito sequer considerava se render.

Quando não havia mais soldados suficientes, mandou civis para as trincheiras. Quando não havia homens suficientes, mandou crianças. Quando as armas diminuíram muito, enviou suicidas. Com os soviéticos chegando pelo norte e os americanos chegando pelo sul, as mortes eram contadas em dezenas de milhares em cada incursão. Cidades inteiras eram destruídas, mas nada abalava Hirohito.

Por meio do seu serviço de inteligência, Hirohito soube que os Estados Unidos desenvolvera a bomba atômica e que cogitavam lançá-la sobre o Japão. Hirohito continuava indiferente, principalmente porque os “Aliados” exigiam sua rendição incondicional, ou seja: que ele abdicasse do poder, dos luxos e da imunidade que desfrutava. No dia 6 de agosto de 1945 foi lançada a primeira bomba atômica e em seguida uma nova exigência de rendição. Hirohito não se abalou.

Três dias depois foi lançada a segunda bomba e mais uma carta de rendição, desta vez, preservando alguns poderes do imperador e de parte de seu governo. Hirohito, enfim, assinou. O ano de 1945 deve ser lembrado não apenas pelo final da 2° Guerra Mundial ou pelas duas bombas atômicas, mas sim por ter mostrado ao mundo as graves consequências quando o Estado tem pleno poder sobre a sociedade.

Até seu suicídio, Hitler assistiu indiferente a ruína de seu país e de sua sociedade, alimentando até o último dia de vida a obsessão em transformar o Estado numa imagem de si mesmo, tanto através de projetos de edifícios e cidades que levariam seu nome, quanto através da forma de lidar com tudo e todos ao redor, sem qualquer pudor, sem qualquer responsabilidade – não por acaso, mesmo comportamento de Lenin, Stalin, Pol Pot, Papa Doc, Mao Tsé-Tung, Kim Il-Sung, Gaddafi, Fidel Castro, Pinochet, Bashir, Mugabe, entre outros.

O que me assusta é ver, em pleno século XXI, tantas pessoas, incluindo a maioria dos agentes culturais em todas as partes do mundo, cobrando que Estados tenham cada vez mais poder sobre as sociedades e sobre suas respectivas economias, ignorando completamente que Estados são liderados por pessoas que, assim como quaisquer outras, são propensas a todos os tipos de desvio de comportamento. A célebre frase do historiador britânico Lord Acton - "O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente" -, é tão precisa quanto constrangedora.

Mais de cem anos depois de sua frase, depois de um século XX recheado de trágicas experiências, depois de centenas de milhões de pessoas submetidas à guerra e a perseguições políticas, ideológicas e religiosas, ainda temos boa parte da sociedade avalizando as tentativas de uma dúzia de pessoas de tomarem o poder ou mesmo manterem o poder como um patrimônio inquestionável. Há mais de cinquenta anos os cubanos são reféns dos caprichos de um único homem.

Enquanto a população comum se arrasta sob a cotidiana privação de alimentos, confortos e liberdade, a família Castro vive entre dezenas de palacetes, indo e vindo de Cayo Piedra (a Ilha particular de Fidel) e cultivando excentricidades raras até entre os mais bem sucedidos agentes capitalistas. Quem, numa cidade, só bebe leite recém-ordenhado de sua vaca particular? Toda a família Castro - enquanto o mesmo produto só chega às famílias comuns cubanas que têm filhos menores de sete anos, em cotas limitadas e em pó.

Os maiores investimentos financeiros e políticos de Fidel Castro, nestas décadas todas de reinado, foram no financiamento de revoluções noutros países. Três semanas após chegar ao poder, em 1959, Fidel já embarcava para a Venezuela, para plantar a semente da revolução por lá também. Todos os absurdos de todas as ditaduras, declaradas ou não, são de conhecimento público, mesmo assim, quem se dá a criticar? As únicas críticas feitas se restringem às intervenções de libertação, como mais recentemente no Afeganistão, no Iraque e na Líbia.

É comum pessoas defenderem o fim do embargo americano a Cuba, mas quem se lembra de que as condições de Washington se resumem ao governo cubano reestabelecer uma democracia? Ninguém. Nesta semana em que se completa mais um ano das explosões das bombas atômicas sobre o Japão, todas as matérias serão no sentido da crueldade dos americanos, sem uma linha sequer sobre a total indiferença de Hirohito com seu povo, cujo sofrimento foi usado como uma mera barganha política – da mesma forma que o Hamas faz agora.

A lição que a humanidade deve tirar da bomba em Hiroshima é que quanto mais o Estado estiver sob o poder de uma única pessoa, menos a sociedade será considerada como um conjunto de indivíduos com vidas, famílias e negócios próprios. A democracia existe para que a sociedade possa tirar do poder com facilidade qualquer agente público que não esteja trabalhando em seu benefício. Para cada guerra que o governo americano se lançou, houve uma sociedade forte o suficiente para pressionar o governo a se retirar.

Sociedade forte significa imprensa e cultura que se dedicam a denunciar, não a fazer publicidade estatal. É importante prestarmos muita atenção à política de intimidação que o atual governo brasileiro vem empenhando. Lula não irá à televisão dizer as reais intenções dele, de Dilma e de seu partido? Ele apenas as realizará na medida em que for encontrando espaço e inocência social para tomar o poder e fazer dele a ferramenta para todos os seus caprichos, os quais se entrelaçam justamente aos caprichos de outras ditaduras do mundo.

*João César de Melo é arquiteto, artista plástico, autor do livro Natureza Capital e colunista do Instituto Liberal.



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