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Fluxo de capital estrangeiro

Fluxo de capital estrangeiro

14/06/2021 Samuel Sampaio Chagas

A entrada de capital estrangeiro, como o próprio nome sugere, é a denominação usualmente dada à quantia ingressada no país pertencente a pessoas físicas ou jurídicas residentes, domiciliadas ou com sede no exterior.

Esse movimento ocorre de quatro maneiras: investimento em moeda, conversão de créditos externos, importação de bens e via mercado de capitais.

Seus efeitos influenciam diretamente a demanda por moeda local e, por consequência, nossa taxa de câmbio, deteriorada no ano de 2020.

Cabe enfatizar que como bom emergente, o Brasil é dependente dessa forma de financiamento devido ao elevado custo de capital interno quando comparado aos nossos parceiros mais desenvolvidos.

Nesse complexo tema da economia, que encontra partidários e contendores, o recorte será feito no mercado de capitais, mais especificamente ao fluxo de divisas destinadas à Bolsa de valores.

Historicamente, tem-se uma máxima de que o estrangeiro dita o ritmo dos negócios e que sua entrada é sinônimo de alta expressiva.

Entretanto, esse postulado deve ser digerido com cautela, afinal não se pode considerar apenas os mercados secundário e primário, os mais evidentes, mas temos também os futuros.

Além disso, é possível com que um não brasileiro faça o movimento via banco local e essa entrada se misture com os nativos, ou seja, a base de dados não é limpa o suficiente para cravarmos uma relação direta.

O time do fundo Versa, por exemplo, fez a experiência da correlação entre movimentos de alta do índice com fluxo positivo de moeda forasteira e o valor encontrado foi de 43%, sendo que é considerada forte correlação valores acima de 50%.

Outros estudos publicados pela Revista Brasileira de Finanças, como Fluxo de Capital Estrangeiro e Desempenho do Ibovespa de Roberto Meurer, por exemplo, reforçam que essa relação de alta não é trivial e se confunde, muitas vezes, com o investidor internacional interpretando melhora da saúde macroeconômica local, de forma mais direta que o sentido do mercado de capitais em si.

Essa ressalva não desmerece a análise de fluxo, que continua sendo ferramenta importante e muito utilizada pelos agentes de mercado, mas nada que envolve relações humanas é tão simples assim.

Esclarecido esse ponto de atenção para os últimos anos, dos quais 2018, 2019 e 2020 foram deficitários de não residentes por aqui, com ênfase no primeiro semestre do ano passado, que foi um Deus nos acuda, com saques superando os 60 bilhões de reais até junho.

A pandemia e as medidas restritivas colocaram uma incerteza sem precedentes nas relações econômicas. O medo tomou conta das relações sociais e os resgates foram percebidos em todo globo.

Posteriormente, os mercados emergentes não tiveram o mesmo ímpeto de recuperação que os desenvolvidos, afinal as discrepâncias nos prêmios de risco não justificavam esse movimento.

Ainda entre as nações em ascensão, ficamos negativamente destacados, fruto de uma fragilidade fiscal agravada e uma política bastante controversa aos olhos do exterior até então.

A situação só não foi pior, pois nós, residentes, seguramos na unha o índice, reflexo de uma difusão maior de informações sobre mercado financeiro e crescentes pressões no CDI, que forçaram de certa forma o deslocamento do capital local para a renda variável.

Deixando o apocalipse financeiro no segundo semestre, mais precisamente nos derradeiros três meses do ano, percebemos uma inversão da corrente com novembro coroando quase 34 bilhões de reais entrantes, isso considerando somente os mercados primário e secundário, que são os mais populares entre o investidor médio que provavelmente está lendo esse artigo.

Tendência essa evidenciada por um desfecho menos pior que o engenhando em meados de março, claro se tratando do campo financeiro, a tragédia humana é imensurável.

Essa tendência foi evidenciada por um desfecho menos pior que o imaginado em meados de março. Claro que falamos aqui apenas do campo financeiro, pois todos sabemos que a tragédia humana é imensurável.

Para incrementar o sentimento positivo, as primeiras campanhas de vacinação se instalaram em países como Estados Unidos e Inglaterra, gerando aquela típica sensação de luz no fim do túnel.

Nas terras do Tio Sam, tivemos um desfecho eleitoral ameno sem a chamada onda azul, que seria a dominância total democrata, garantindo um equilíbrio que o mercado exigia.

Por último e talvez mais importante para as bolsas globais, as políticas monetárias afrouxaram de forma exponencial e os mercados foram inundados de capital.

De fato, as autoridades monetárias mundo afora não mediram esforços para estancar as sangrias e manter as expectativas em campo positivo.

Adicionando a realidade local a esses fatores universais fica evidente o motivo da tendência se intensificar de forma ainda mais explosiva no ano de 2021.

O real brasileiro foi depreciado demasiadamente, até se comparado a seus pares, barateando o capital externo. Soma-se a isso um positivo ciclo de commodities, conduzido pelo  excesso de capital gerado e pela retomada inerente que organicamente vai demandar insumos básicos.

Além disso, temos a política keynesiana colocando dominância fiscal em países como a China que pretendem financiar projetos internos de infraestrutura e logística no intuito de assumir a liderança econômica global.

Nessa breve descrição, o assunto abordado indiretamente é minério, petróleo e também alimentos. Alguém consegue imaginar um cenário mais Brasil que esse?

O resultado vem sendo evidenciado pelo saldo do ano, com ponta comprada estrangeira acumulando mais de 44 bilhões de reais.

Esclarecido o caminho para um 2021 positivo, é necessário fortificar os pilares de que o momento carece. Primeiro, a vacinação em massa para acabar com as restrições de mobilidade e, obviamente, por um fim a essa tragédia.

Segundo, o governo não pode se envenenar com o populismo e descuidar das contas públicas, pois mesmo com revisões de PIB positivas, a situação da dívida não permite desleixo.

Por último, vale lembrar que o cenário é válido para tudo mais constante, pois eventos inesperados e imprevisíveis, como os citados em Os Cisnes Negros, de Nassim Taleb, que o mercado financeiro tanto gosta de referendar, podem acontecer a qualquer momento e apenas uma estratégia diligente é capaz de enfrentar períodos turbulentos.

* Samuel Sampaio Chagas é assessor da 3A Investimentos.

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Fonte: Naves Coelho Comunicação



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