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Mão Invisível, dogmatismo e outros babados

Mão Invisível, dogmatismo e outros babados

10/10/2014 João Luiz Mauad

O estimado leitor certamente já leu ou ouviu que o liberalismo é uma filosofia “dogmática”, por incitar uma suposta fé irracional num certo “deus mercado”.

A acusação traz ainda, como corolário indispensável, uma carga indisfarçável de sarcasmo acerca da famosa metáfora da “mão invisível”. Gente que diz essas bobagens normalmente não tem a menor ideia do que está falando e, na maior parte das vezes, apenas repete chavões que aprendeu com algum bobalhão antiliberal. Até mesmo pessoas aparentemente bem intencionadas se perdem quando o assunto é a tal “mão invisível”, justamente porque falam da coisa sem sequer se dar ao trabalho de fazer uma pesquisa mínima que seja sobre o assunto.

Qualquer indivíduo com um mínimo de dois neurônios, que já tenha lido alguma das poucas passagens em que Adam Smith menciona esta metáfora, sabe perfeitamente que a imagem da “mão invisível” não tem nada de dogmático ou metafísico, nem tampouco é uma tentativa de demonstrar que o funcionamento do mercado é perfeito. O que Smith diz é que, na esfera comercial, os indivíduos estão permanentemente empenhados em empregar da melhor maneira os seus recursos, visando o maior lucro possível.

O que o agente econômico tem em mente, portanto, é o próprio interesse, e não o interesse social. Porém, ao examinar o que melhor lhe convém, ele naturalmente acaba escolhendo o que é melhor também para a sociedade em geral, afinal, num sistema de livre mercado, livre de interferências espúrias do governo, a única forma de obter lucros é oferecendo bens e serviços de qualidade, a preços razoáveis, aos consumidores. Em outras palavras, lucrará mais aquele que satisfizer, com mais eficiência, os desejos e necessidades dos demais. [Será que alguém, em sã consciência e honestamente, enxergaria dogmatismo nesse raciocínio?]

Mas deixemos que o próprio Adam Smith, explique a sua famosa metáfora: “Orientando sua atividade de tal maneira que sua produção seja de maior valor, [o empreendedor] visa apenas seu próprio ganho e, neste, como em muitos outros casos, é levado como que por uma mão invisível a promover um objetivo que não fazia parte de suas intenções… Ao perseguir seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse da sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente promovê-lo”.

É claro – e essa observação é de suma importância – que Smith está falando sobre um sistema econômico onde o Estado de Direito é resguardado e a ingerência governamental é mínima, onde políticos e burocratas não podem escolher campeões nacionais, enfim, onde o rent-seeking, a fraude e a concorrência desleal são inexistentes ou mínimos. Feita essa ressalva, tentemos exemplificar o insight de Adam Smith de forma que até uma criança possa entendê-la. Imaginemos um grande supermercado de uma metrópole como o Rio de Janeiro.

A qualquer hora do dia, haverá ali centenas – muitas vezes milhares – de pessoas, das mais diversas origens e classes sociais, enchendo carrinhos e esvaziando prateleiras permanentemente sortidas de mercadorias, desde alimentos frescos até equipamentos eletrônicos sofisticados, passando por roupas, utensílios do lar, cosméticos e uma infinidade de outros produtos. Nenhum daqueles consumidores, obviamente, fez qualquer pedido prévio ao gerente do supermercado, nem tampouco deu qualquer indicação sobre os produtos de que precisaria.

Eles simplesmente apareceram lá, no dia e hora de sua conveniência, certos de que encontrariam os itens de sua preferência, nas quantidades desejadas. Para que isso fosse possível, convergiram (ao longo de meses) os esforços de inumeráveis agentes, de diferentes empresas, responsáveis pela produção, transporte, distribuição, armazenamento, etc. O mais impressionante, especialmente para um administrador acostumado a conceitos como planejamento, organização, direção e controle, é o fato de que ninguém coordenou todas aquelas atividades.

Parafraseando Leonard Read em seu excepcional ensaio “Eu, O Lápis”, nenhum superburocrata, montado num plano mirabolante e minucioso, foi chamado para articular tudo aquilo. Baseadas somente nos sinais de preço e lucro emanados pelo mercado, empresas e respectivos profissionais esmeraram-se para satisfazer as necessidades de milhares de pessoas que dali sairão com suas sacolas cheias. Embora testemunhemos milagres semelhantes todo santo dia, muita gente ainda considera que o sistema de livre mercado é ineficiente, entre outras coisas porque nele imperaria uma suposta “anarquia”.

Nada poderia ser mais equivocado. Como bem notou Hayek, de um aparente caos envolvendo milhões de transações privadas, descentralizadas e descoordenadas, emerge uma inesperada “ordem espontânea”, capaz de produzir uma quantidade de mercadorias e serviços tão imensa e extraordinária que a própria mente humana é, muitas vezes, incapaz de divisar. A metáfora da mão invisível, portanto, não pretende explicar que o mercado seja um sistema intrinsecamente perfeito, um deus imune a falhas, ineficiências ou má gestão, que funciona independentemente do bom planejamento, gerenciamento, controle, etc. Ao contrário, o mercado é um sistema extensivamente planejado. Só que tal planejamento ocorre de forma pulverizada, através da atuação auto-interessada de cada agente.

Quem quer que pense numa determinada ação econômica que lhe possa ser benéfica, assim como nos aspectos operacionais da sua consecução, estará realizando uma pequena parcela da “planificação” de uma economia de mercado. As pessoas planejam comprar imóveis, automóveis, eletrodomésticos, alimentos, roupas e tudo mais. Planejam que tipo de profissão abraçar e, consequentemente, que trabalhos pretendem realizar, de acordo com habilidades específicas que possuem.

As empresas, por sua vez, planejam produzir novos produtos ou descontinuar os atuais; planejam reduzir custos investindo em novas tecnologias; planejam abrir filiais ou fechar as existentes; planejam contratar trabalhadores ou demiti-los; aumentar seus estoques ou liquidá-los; fazer novos investimentos ou distribuir os lucros… Não há nada dogmático ou misterioso nesse processo. As únicas forças por trás do seu contínuo movimento são os julgamentos de valor dos vários indivíduos e as ações deles derivadas.

Como no livre mercado todas as ações são voluntárias, a única alternativa de que dispõe cada um dos agentes para maximizar os próprios ganhos (por mais paradoxal que isto possa parecer a alguns) acaba sendo o empenho para satisfazer as necessidades e desejos do próximo. A mágica, o segredo da eficiência do mercado está, portanto, na supremacia do consumidor. Através da sua decisão de comprar (ou não comprar), os consumidores determinam não somente a estrutura de preços, mas também o que deve ser produzido, em que quantidade, qualidade e por quem. Que me perdoem os intervencionistas, mas dogmático é achar que algum dia existirá um governo capaz de planejar e dirigir um sistema tão complexo como esse.

*João Luiz Mauad é Administrador de Empresas e Diretor do Instituto Liberal.



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