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O gato que caiu dentro das latas de tinta

O gato que caiu dentro das latas de tinta

13/02/2024 Eduardo Carvalhaes Nobre

Todas as histórias começam com Era uma Vez… A minha não vai ser diferente.

Era uma vez um gato cinza muito feio que se chamava Furun Fun Fun.

Depois de rodar pela cidade, resolveu morar em uma fábrica abandonada de tinta, porque não tinha família e qualquer lugar era bom para ele.

Todas os dias saia pelo portão da fábrica para procurar comida na latas de lixo dos restaurantes próximos. Sempre achava algo para comer. As vezes um pedaço de pizza de atum (sua preferida), outras vezes restos de hambúrguer com picles. Mas, na maioria das vezes voltava de barriga vazia e dormia sonhando com uma bela refeição.

Um dia de muita chuva, o gato saiu a noite e escolheu outro caminho, agora pelo telhado. Como estava escuro, começou a andar vagarosamente para não quebrar as telhas velhas. Mas, apesar de todo cuidado não percebeu que tinha um buraco e subitamente caiu dentro da fábrica.

Vocês não vão acreditar! Caiu dentro de uma lata de tinta branca!

Depis de grande susto, Furun Fun Fun olhou para uma poça d’água e viu, na sua imagem refletida, que estava todo branco igual a um boneco de neve.

E vocês acham que ele voltou para sua casa para tomar banho? Não...

E sabem porquê?

Porque gato não gosta de banho!

Furun Fun Fun estava com fome e saiu assim mesmo para procurar comida.

Achou um punhado de pedaços de hambúrguer, restos de milk-shake, batatas fritas e uma enorme torta de maçã nas latas de lixo da lanchonete.

Comeu tudo o mais rápido possível para não deixar nada para outros gatos que estavam por perto procurando comida.

De barriga cheia, feliz da vida, voltou para casa cortando caminho pela praça da cidade.

Aproveitando o tempo seco, Furun Fun Fun deitou na grama verde e fofinha para tirar uma soneca e mais tarde voltar para sua casa. Mas, a noite estava muito tranquila e ele adormeceu profundamente.

Quando o dia raiou, tres garotos que estavam indo para a escola cortaram o caminho pela mesma praça e viram de longe algo branco na grama verde e um deles gritou!

- OLHA LÁ, ALGUÉM DEIXOU CAIR UM PACOTE DE ALGODÃO DOCE! VAMOS PEGAR E DIVIDIR?

Ao chegarem perto do que pensavam ser algodão doce, pularam em cima do pacote branco e cada um quis pegar um pedaço.

Neste momento o gato acordou devido aos vários puxões e gritou...

- EU SOU UM GATO! PORQUE VOCÊS ESTÃO ME MACHUCANDO?

Os meninos saíram correndo dando boas gargalhadas deixando o gato furioso.

Imediatamente Furun Fun Fun levantou-se e voltou para casa para tomar banho e tentar tirar a tinta branca.

Cansado de esfregar o corpo, pulou na cama para tirar outra boa soneca.

Que gato preguiçoso!

Chegou outra noite. O gato, agora cinza novamente, acordou e logo pensou em comida.

Porém, lembrou-se que na noite anterior ele não tinha sido cuidadoso, mas, resolveu sair novamente pelo telhado da fábrica. E foi andando por outro caminho vagarosamente…

E caiu dentro de outro buraco diretamente dentro de uma lata de tinta... azul!

- MIAU! QUE AZAR! AGORA FIQUEI TODO AZUL…

Como sempre, não quis voltar para tomar um novo banho e seguiu em frente agora procurando uma pizzaria.

- HUMMM... ADORO PIZZA!

E achou uma lata de lixo que tinha restos de pizza de todos os tipos.

Depois de se empanturrar voltou para casa pelo mesmo gramado verdinho.

E, como na noite anterior, deitou para tirar um cochilo pensando que não teria problemas de ser confundido com algodão doce.

Que engano! Agora parecia com um laguinho de água.

E não deu outra, um gavião que estava voando alto viu aquela mancha azul na grama verde e pensou que era um laguinho de água fresquinha.

Fechou as asas e como uma flecha foi direto no que pensava ser uma poça d’água. E tchum, deu uma bicada no gato que gritou…

- MIAU! ESTÁ PENSADO O QUE?

E o gavião espantado voou rapidamente para o céu, assustado com o que estava ocorrendo.

Furun Fun Fun também saiu correndo de volta para sua casa antes que outro pássaro pensasse que ele fosse uma poça d’água.

Chegando em casa, pulou na banheira e limpou todo o pelo passando um removedor de tinta e voltou a ser cinza novamente.

No terceiro dia, Furun Fun Fun saiu novamente para procurar comida e subiu no telhado para ir mais rápido. Tomando bastante cuidado para não cair, foi andando devagar, pisando pé-ante-pé, olhando para todos os lados.

Mas mesmo assim uma das telhas quebrou e pimba…caiu dentro de uma lata de tinta verde.

- MAS QUE AZAR!

Durante tres noites aconteceu o mesmo acidente. Mas tudo bem!

Seguindo em frente o gato foi procurar comida sem se preocupar com sua cor. Achou agora uma lata de lixo com restos de peixes de todos os tipos. Ele gostava muito de tilápia. Mas com a fome que estava comeu o que encontrou.

De barriga cheia voltou para a praça e pensou..

- VOU DEITAR NA GRAMA VERDE E NINGUÉM VAI ME VER. NEM OS MENINOS, NEM O GAVIÃO.

- VOU DORMIR TRANQUILAMENTE E VOLTAR PARA CASA PARA TIRAR ESTA COR HORROROSA.

Dito e feito. Deitou na grama e roncou igual aos nossos vovós.

Mas ele não contava que quando o sol saiu um cavalo passou perto da praça, viu a grama verdinha e começou a pastar.

- NHAC, NHAC, NHAC. QUE GRAMA GOSTOSA...

E de mordida em mordida o cavalo chegou muito perto do gato dorminhoco e NHAC deu uma bela mordida no rabo do gato que gritou...

- MIAU, DE NOVO NÃO!

E saiu correndo pelo gramado para bem longe das mordidas do cavalo.

Ao voltar para a fábrica, tomou um banho de detergente para tirar a cor verde e olhou no espelho para ver que seu pelo estava cada vez mais ralo.

Tudo bem, o mais importante é que ele estava novamente com sua cor original que é ….cinza!

Para variar deitou na sua caminha para dormir.

Quando acordou ficou pensando no que tinha acontecido nos últimos três dias.

Subiu no telhado três vezes, andou por três caminhos diferentes, caiu três vezes dentro de três latas de tinta, de três cores diferentes. Foi até três restaurantes e comeu três tipos de comida, dormiu na praça três vezes, foi acordado por três garotos e foi puxado, bicado ou mordido por três vezes e tomou três banhos de banheira. E aí falou...

- MUITO ESTRANHO! TUDO TRÊS VEZES! O QUE ISTO REPRESENTA?

Pensou, pensou e pensou. Três vezes novamente!

- NÃO ACHO QUE ISTO SEJA IMPORTANTE. É MUITO ESTRANHO, NÃO É?

Vamos continuar com a nossa história porque ainda temos muito que contar.

Furun Fun Fun pensou em sair a noite e ficou preocupado se iria cair dentro de outra lata de tinta. E tomou outros cuidados.

Ao invés de sair pelo telhado saiu pela janela e não olhou para baixo e caiu dentro de um tanque cheio de tinta … amarela.

- PUXA VIDA! DE NOVO NÃO! AGORA ESTOU PARECENDO UM GATO DE OURO.

Tudo bem, pensou...

- O IMPORTANTE É QUE NÃO VOU DEITAR NA GRAMA E NINGUÉM VAI ME INCOMODAR.

- VOU DIRETO PROCURAR COMIDA E VOLTAR PARA CASA.

- NÃO VOU TER PROBLEMAS A NÃO SER TOMAR OUTRO BANHO. E EU NÃO GOSTO DE BANHO.

E assim Furun Fun Fun fez o que seria melhor para ele. Será?

Tudo estava caminhando como planejado porém, quando estava voltando para casa apareceu um galo preto e branco que viu o gato amarelo e achou que era uma espiga de milho. E com toda força do pulmão gritou...

- COCÓ QUI RO CÓ! chamando as galinhas para pegarem o milho.

E todas vieram correndo, voando baixo para dar uma bicada naquela grande espiga amarelinha.

Bica daqui, bica dali e o gato miando de dor e gritando...

- EU NÃO SOU UMA ESPIGA EU SOU UM GATO CINZA QUE CAIU NO TANQUE DE TINTA AMARELA!

E as galinhas não estavam nem aí. Bicando cada vez mais tiraram quase todo o pelo do gato que ficou com vários buracos na pele.

Por isto é importante ter cuidado ao subir em telhados e janelas. É preciso olhar por onde pisa e ficar bem atento.

E assim termina a nossa história: o gato subiu no telhado, caiu, mudou de cor, foi perseguido e voltou para a segurança da sua casa.

A nossa casa é o melhor lugar do mundo, o mais seguro e melhor ainda quando você tem uma família para cuidar de você e te proteger.

 

PS: Esta história foi contada dezenas de vezes para meus filhos e netos. Algumas vezes eles dormiam antes do final mas na maioria das vezes eles pediam para repetir ou trocar as cores.

O gato já foi vermelho como fogo, preto como sombra ou marrom como terra mas as cores branco, verde, azul e amarelo sempre estavam presentes.

Igual a bandeira do Brasil!

Recentemente comecei a escrever sobre minha infância e de repente resolvi pular 60 anos para registrar esta história.

Tenho outras.

Em breve, quem sabe, vou colocar no papel o que narrava, sempre a noite, na cama, para meus queridos ouvintes.

Ter filhos e netos para contar histórias é um privilégio que todos deveriam ter oportunidade de vivenciar.


* Eduardo Carvalhaes Nobre é diretor de O Debate
 

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