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O pião de corda

O pião de corda

28/12/2019 Humberto Pinho da Silva

Nesta tarde cinzenta e chuvosa de Dezembro, ao reler Azorin (Las Confissiones de um Pequeño Filósofo,) ao chegar ao emocionante trecho, evocador do livrinho, que recebera em criança;

Livrinho, que era seu encanto, e o trazia, em recato, no bolsito, até que, um dia, o professor, descobriu-o… e desapareceu para sempre…

Azorin, já famoso escritor, recorda, com infinita saudade, o livro “encantado”, que sumira…arrebatado, bruscamente, pela mão do mestre.

Este trecho emocionante, evocador dos anos de infância, fez-me recordar a comovente cena, passada há muito e muitos anos:

Eu tinha um chefe, o Sr. Nunes, que era conhecido, pelos neófitos da firma, como a “Fera”. Andava sempre zangado, carrancudo, pronto a ralhar.

Uma manhã, cor de lousa, também de Dezembro. Dezembro sombrio, estava em conversa, com colega, já idosa, D. Laura Cunha, quando esta me confidenciou:

- “Quer amansar a “Fera”. É simples: ofereça-lhe um pião de corda…”

Dito e feito. Era pelo Natal. Comprei um pião de corda. Embrulhei-o em papel de seda e cobriu-o com outro, brilhante, com desenhos natalícios.

Esperei a saída de todos, do local de trabalho, e acompanhado da colega, entreguei-o, receoso da reação. Olhou-me surpreso. Recusou-o; estendendo a mão direita, espalmada, num gesto de total reprovação. Depois…rasgou o papel, lentamente… e começou a dar corda…

O pião girou…girou…girou sobre a velha mesa de madeira, e os olhos da “Fera”, umedeceram-se de saudosa alegria. De voz profunda e embargada, com grossas bagadas deslizando pelas faces morenas, sulcadas de leves rugas, pronunciou com palavras trancadas na garganta:

- “Quando eu era garotinho, desejei ardentemente ter um pião de corda. Pedi…Pedi…Pedi…Fiz beicinho…Bati o pé…mas ninguém mo deu…

- Os meninos ricos, brincavam com um de folha litografada… Olhava-os invejoso, de olhos aguados…

- Ainda agora, quando passo na Rua Sá da Bandeira e os vejo, nos dois bazares, fico a olhar… e lembro-me dos tempos tristes de menino pobre, das Fontainhas…”

A “Fera”, não só ficou mais mansa, como passou a ser meu amigo e protetor. Tudo por causa de um simples pião de corda…

* Humberto Pinho da Silva

Fonte: Humberto Pinho da Silva



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