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O Renascimento

O Renascimento

13/04/2024 Eduardo Carvalhaes Nobre

Hoje completa 2 anos que venci uma cirurgia complexa e perigosa que me devolveu a vida quase plena. Este depoimento são lembranças que gostaria que ficasse registrado em agradecimento a Deus, a minha família e a vários amigos que ficaram ao meu lado.

Meu nome é Eduardo Carvalhaes-Nobre, sou jornalista e fui engenheiro. O tracinho no sobrenome tem uma explicação. É a união de duas famílias e a grafia é proibida no Brasil. Vou usar e daí?

Meu lado Carvalhaes, é descendente de espanhóis e são expansivos, alegres, musicais e beijam e lambem suas crias.

Já os Nobres, descendentes de portugueses são carrancudos, tímidos, não beijam e protegem também suas crias ferozmente com amor escondido.

Eu fiquei sempre no meio dos dois tipos pois sou calado, tímido, na infância gago de vergonha, porém, participando do coral do Instituto Santa Helena, teatro e bandinha musical, dentre outras atividades em público.

De que lado minha mente pendia? Hoje eu já escolhi.

Como jornalista esta é a minha primeira crônica que escrevo na primeira pessoa apesar da minha Luisa sempre ter insistido que eu começasse a escrever sobre vários assuntos que vivenciei no dia-a-dia.

Algumas vezes escrevi sobre outros temas em diversos jornais e revistas, principalmente no O Debate, recriação do meu pai, Oswaldo Nobre, que num lampejo resolveu passar de diretor de uma grande empresa jornalística para proprietário de um pequeno jornal esportivo que circularia no domingo a noite.

Loucura? Esta loucura já tem mais de 70 anos, primeiramente um jornal impresso e depois na internet, alimentando o sonho de torcedores fanáticos e colocando na mesa comida para várias famílias.

Como engenheiro escrevi dezenas de manuais, revistas, artigos técnicos e científicos, além de me tornar um astro da TV, depois de várias entrevistas, quando em 2001 tivemos restrições no fornecimento de energia elétrica. Foi bom, até os garçons me cumprimentavam de forma diferente.

Mas vamos ao que interessa.

Em um determinado domingo de março, depois de muito futebol e pouca vontade de fazer algo de útil estava na TV cochilando e acordei com o ouvido entupido como se tivesse mergulhado em águas profundas.

Logo pensei em labirintite. Resolvi deitar e esperar uma melhora rápida. Lá pelas 4 acordei e como continuava a sensação de ouvido entupido mandei uma mensagem para minha filha Ana Paula que estava de plantão no CTI Neo Natal do Hospital Felício Rocho. Ela prontamente disse que seu marido Andrinho ia trazer um remédio para mim lá pelas 8 depois de deixar meus netos Guilherme e Gabriel na escola.

Ai, tive um estalo. Já tinha tido labirintite e a sensação era de desequilíbrio o que não estava ocorrendo. Como todos nós temos um pouco de médico pensei em AVC. Aí começou a piração: vou ficar entrevado, vai paralisar um dos lados ou vou vegetar em uma cama ouvindo todo mundo falar sem poder me comunicar?

Neste meio tempo tomei banho e esperei o remédio, mas quem chegou foi minha filha Myriam que acabava de deixar a sua casa para o trabalho em Sete Lagoas não antes de despedir-se do seu marido Fábio e dos filhos Bernardo e Rafaela. Com carinho e me acalmando me levou para o hospital.

Chegando lá, Ana Paula já estava com uma enfermeira e uma cadeira de rodas na porta do Pronto Atendimento. Aí tive certeza absoluta que era grave, que ficaria mais tempo do que estava imaginando.

Prontamente me levaram para ser examinado por uma neurologista de plantão que fez diversos testes e constatou que deveria ser internado. Fiquei umas 12 horas fazendo diversos exames e aguardando um apartamento.

Tira sangue aqui, coloca soro ali e meu braço já avisando que seria longo e doloroso esta bateria de exames. Mas tudo bem desde que nada parasse de funcionar.

Nesta espera agonizante Myriam avisou o acontecido a minha esposa Luisa, meu anjo que encontrei há 50 anos em Barbacena e que me acompanha e protege desde então.

Ela estava em Iriri e voltou imediatamente.  Queria a presença dela e não de um padre para me acalmar minha mente.

Exames e mais exames e o resultado foi cavernoma. Mas que nome mais tenebroso! Só o Google e o Dr. Rodrigo Faleiro para explicar. Guardem este nome deste médico no bolso da camisa do lado esquerdo do peito que é o lugar mais próximo do coração.

Depois de várias pirações mais uma que caiu como uma bomba: André estava vindo de Singapura!

Aí tive certeza absoluta que deveria estar mais preparado para o que viria a seguir. Mas tudo bem.

Rodrigo, vou chama-lo assim porque pessoas da família não precisam de títulos, me explicou detalhadamente do que se tratava e da premência de uma cirurgia delicada, demorada e de alto risco e me deu mais uma semana para providenciar o que já deveria ter sido feito há 50 anos.

Fui para casa comecei a escrever umas recomendações que no final geraram 36 folhas.

Nunca pensei que teria tantas senhas bancárias e de internet e mais coisas importantes como telefones uteis de pessoas que prestam diversos tipos de serviços em nossa casa.

Mas o mais importante escrevi que gostaria de ser cremado e parte das cinzas serem jogadas no vale atrás da Igreja do Retiro das Pedras, parte no mar de Iriri e uma pequenina porção no mar de Singapura, para ficar mais perto do André, minha nora Delphina e meu neto Luke,

Alguém me criticou pelo trabalho que isto ia gerar. Entrou no ouvido surdo e saiu no outro ainda bom. Ou vice-versa.

Nesta semana em casa, além dos vômitos diários, emagreci dez quilos, fui a dois oftalmologistas, fiz audiometria e voltei ao hospital para tratar do estomago em mais uma internação.

Agora vou relatar outros dramas vividos e que não podem ser esquecidos.

O primeiro foi a autorização para a cirurgia. Após pedido feito pelo Rodrigo, o meu plano de saúde demorou e colocou uma série de empecilhos que foram resolvidos devido a interseção do meu amigo Luque (sem K). Sim outro Luque em minha vida. Trata-se do Luiz Henrique Carvalho, colega de muitos anos da Cemig que prontamente resolveu as pendências juntamente com a minha família que ficou todo o tempo no pé da Cemig-Saúde.

Enfim, após resolvido, depois de muito “stress” fui fazer o que não sabia o resultado: a cirurgia. Agora estava nas mãos de Deus.

A caminho da cirurgia pedi ao André para me fazer algumas perguntas técnicas ou culturais quando saísse da sala de cirurgia em direção ao CTI. Quando saí, depois de 8 horas, ele me perguntou quem era o CEO da Tesla e eu respondi: Elon Musk. Ou seja, estava bem da cabeça.

Por falar em CTI vale o seguinte registro. Pedi ao meu amigo Sinval Lins, médico do Felício Rocho e diretor do CTI que se fosse possível queria ficar no CTI que ele coordena, uma maneira de ficar perto dos amigos.

Tudo resolvido fiquei somente 1 dia neste local mais 3 dias no apartamento do hospital o que para mim foi um sinal positivo que tudo tinha ido bem.

E agora estou curtindo a minha casa, fazendo fisioterapia com o Wllysses que me colocou andando quase que normalmente, viajando para pescar com meu cunhado Armando e usufruindo de nossa casa em Iriri que foi construída há muitos anos pelos meus pais Oswaldo e Myriam e reformada pela minha Luisa.

Neste pouco período de tempo já passei por diversas fases: euforia, lágrimas, dúvidas, lágrimas, revolta, lágrimas e agora resiliência. Vejo uma luz no fim do túnel e sei que vou chegar lá.

Para finalizar, como disse antes, já escolhi para onde devo pender. Para os Maias, Carvalhaes e Nobres. Estas famílias que também podem ser unidas por tracinhos já estão no meu coração. Não vou registrar este longo sobrenome porque dá trabalho e trabalho somente quando eu quero.

E para quem quer me conhecer melhor, não gosto que me deem ordens, de frases interrogativas, questionamentos, pessoas sem limites e foco, que me critiquem ou desmentem, que me chamem atenção e duvidem do que falo e também cortar minha conversa quando estou falando.

Também não gosto de pequi, assai e jiló, mas em compensação adoro goiabada com queijo, mingau de milho verde e muitos outras delicias desde que feitas com amor. São poucos desgostos, mas muitos gostos.

Esta minha fase da vida eu resumo em “70 anos, uma idade linda para renascer”

Renascer em Cristo, nas famílias Maia-Carvalhaes-Nobre (com tracinho), nos poucos amigos fiéis, no meu piano que nunca toquei, na minha maquete ferroviária que agora saiu do zero e como cantou Elis... “meus discos e livros e nada mais”

PS: Está crônica escrevi há 2 anos e entreguei em papel para minha Luisa em uma viagem que fizemos no Nordeste. Poucas pessoas a leram, mas resolvi dividir com vocês para que acreditem na medicina, nos amigos e nas orações que todos fizeram para me iluminar.

* Eduardo Carvalhaes Nobre é diretor de O Debate



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