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Saúde política

Saúde política

18/10/2015 Amadeu Garrido de Paula

Imaginação. Não. Abstração. O definitivo, o inesquecível. O abstrato reside em nosso palco psicológico, que jamais desmonsta, salvo pelo comprometimento da memória.

Vez ou outra, volta à tona. Logo, existe e, por corresponder a nossos sentimentos íntimos, não admitem contestação.

O concreto é descrito pela linguagem humana. Exata ou inexata. Instrumento da luz ou da escuridão. Por isso, os sentimentos são mais certos que os fatos.

Apenas menos comunicáveis, posto que anjos ou monstros de nossas masmorras mentais, ao passo em que os fatos são transmissíveis, pelos correios domésticos, de amigos, colegas, corporações e pelas mídias de todos os tamanhos.

Os mesmos fatos, amiúde, assumem aspectos multicoloridos e contrastantes. Saúde política são consciente e inconsciente coletivos. Conceitos junguianos que não foram poupados de críticas.

Nossa intuição experimental nos leva a crer que humanos, presentes num mesmo território, com seus costumes imemoriais, sua "personalidade", submetidos às mesmas instituições e a um mesmo governo, às mesmas leis, diferenciados de outros, têm uma forma peculiar de ver a "res publica".

Desse sentimento brota a opinião comum, a esperança comum, o medo comum, a neurose comum, que se volta contra a própria comunidade.

Se vão bem as coisas no plano político e econômico, menos desesperados e tomados pela adrenalina, menos toxicômanos, infiéis à existência pessoal e da coletividade, mais cumprimentos pela manhã, menos rugas e rusgas, mais votos sinceros de um bom trabalho, uma boa noite, um bom descanso.

Se vão mal, tudo se inverte. A sociedade adoece. Esses bons acostumes arrefecem até desaparecer. O egocentrismo ganha corpo no "salve-se quem puder". Até o amor ludibriante passa a ser descarado.

A vida se insere num mato hostil, desconhecido e pantanoso. O brasileiro de hoje tem sólidas razões para estar politicamente doente. Os temores maiores, que sempre acompanham as doenças, da maior parte da população, "populacho", modo pelo qual os nobres do passado faziam questão de tratá-la para realçar sua condição de privilégios, obviamente é o doente mais grave, quase terminal.

As moléstias mais graves não são o bloqueio das veias e o câncer, para ficar-se em duas. São o desemprego e a inflação. A estagnação econômica é a moeda enlouquecida, como já experimentamos em algumas décadas. O problema é que esses monstros estão às nossas portas, uivam todos os dias e não temos grupos preparados para devolvê-los a seu "habitat" natural, a floresta.

Ambos ameaçam enveredar pelos dois dígitos, até a casa insuportável dos 20%, batendo mais um recorde planetário. O desemprego dá fome e desespero. Enfraquece o corpo e o espírito. O indivíduo se sente o responsável, o perdido na batalha, o derrotado.

Posso relatar o episódio de um jovem japonês que, por carta, relatou esse estado a seu pai, que permanecera no Japão. Em resposta, leu essa ignomínia da derrota. Matou-se, o mesmo ocorrendo com seu pai, ao saber do desenlace. É dever da sociedade dar totais oportunidades de trabalho; só depois disso é que podemos atribuir a alguém a vagabundice.

Aliás, é o que diz, indiretamente, nossa lei de contravenções penais, entre tantas leis e constrangimentos, que melhor seria se se transformassem numa liberdade do tipo inglês. A inflação nessas montanhas torna seu equipamento de sobrevivência, a moeda, quase que inútil.

Os mais velhos se lembram da angústia em ir ao supermercado em seguida ao recebimento do salário e, mesmo já em seu interior, correr em suas várias secções. Mocinhas simpáticas se tranformam em soldados romanos empunhando suas espadas enferrujadas - umas gerigoncinhas que pregam os novos preços nos produtos com a pressa de um fugitivo da polícia.

Presidente Dilma. Os brasileiros não têm dormido. Sofrem com pesadelos desse tipo. São, em sua maioria, os que lhe confiaram seus votos. Quem recebe confiança tem o dever de restabelecê-la, por si ou por outrem. Nossa lei dos advogados nos impõe o dever de transferir o patrocínio de uma demanda logo que "sinta" (não é preciso ter certeza), que o cliente entrou em crise de confiança.

Vossa Excelência ainda duvida que esses brasileiros se agitam em seus leitos, todos os dias, sob essas ameaças? Para esses, vem a luz de Victor Hugo: "É erro dizer que a note cai; seria melhor dizer que a noite sobe; pois é da terra que vem a escuridão".

Segundo, Vossa Excelência ainda duvida que seu governo, navegando em mar de tempestade de neve, não tem como evitar o que já é trágico, a caminho da bruma e do turbilhão que não permitem escapar por nenhum dos pontos cardeais?

Há momentos em que presidentes renunciam, metem uma bala no coração ou sofrem o impeachment. É o que nos ensina a história do Brasil. Um deles, o mais corajoso (não a incitamos a seguir o exemplo), deixou a vida e entrou na história.

* Amadeu Garrido de Paula é advogado especialista em Direito Constitucional, Civil, Tributário e Coletivo do Trabalho.



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