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Ser ou não ser, eis o tostão

Ser ou não ser, eis o tostão

21/04/2020 Dr. Reinaldo Arruda Pereira e Wagno Alves Bragança

Nossos governantes são forçados a realizar o que mais caracteriza o ser humano: escolher.

Para lidar com a pandemia do novo coronavírus, os governos do mundo se encontram diante de um dilema ético-moral - visto que precisam considerar a periculosidade do vírus e sua alta capacidade de contaminação - para decidir entre um isolamento social total ou parcial.

Neste momento complexo, turbulento e repleto de incertezas nossos governantes são forçados a realizar o que mais caracteriza o ser humano: escolher.

Toda e qualquer situação que envolve a vida nos coloca diante de aspectos éticos e morais. É preciso refletir sobre o fato (ética) para escolhermos em conformidade com os valores e princípios (moral).

Assim, ética e moral caminham na mesma direção no intuito de guiar os indivíduos nas suas escolhas e decisões, de modo que elas sejam mais justas e solidárias possíveis, resultando no bem coletivo e tornando-se, assim, um ato virtuoso.

Nessa teia de complexidade que envolve a covid-19, existe ainda o fator econômico. Indústrias, empresas, organizações e instituições são afetadas diretamente pelo isolamento social, significando perda de arrecadação para empregadores e também para empregados.

Mas, ao mesmo tempo, esse isolamento significa um ganho enorme daquilo que é mais precioso – a vida humana. Resta então a dúvida acerca do que fazer e do que é mais importante.

Cuidar da vida humana e das pessoas tem a ver com ética. Nesse sentido, o isolamento social é expressão do cuidado em sua forma suave, inteligente, amigável e harmoniosa com a sustentabilidade da vida. Esta decisão indica que precisamos pagar o preço da “inatividade produtiva” e até de uma crise econômica.

Reconhecemos, assim, que, diante do antagonismo entre a economia e a vida humana, devemos decidir por aquilo que realmente conta e vale a pena, que é cuidar do ser humano e da vida. Ademais, na eticidade, a vida humana é o bem mais valioso.

Vivemos em um período denominado “a era do conhecimento”. Não faltam dados apontando soluções e exprimindo opiniões.

Há quem afirme, balizados cientificamente, que a escolha correta é o isolamento social com base em dados positivos dos países que escolheram este procedimento.

Entretanto, há também os que usam dados científicos para asseverar que o isolamento não impedirá a proliferação do vírus, partindo do pressuposto que a população, ao adquirir anticorpos, protegerá os mais vulneráveis, contendo, assim, a pandemia.

Se de um lado existe o olhar da saúde, que é o de prevenção, de outro, existe a necessidade de sobrevivência, uma vez que precisamos produzir para fornecer os insumos necessários à vida.

No entanto, mais do que a produção de itens para a sobrevivência, deparamo-nos com um sistema econômico cuja lógica aponta para a objetificação e subserviência da vida em relação à produção para o consumo e lucro.

Mais uma vez estamos diante da força do mercado, que, como uma entidade invisível, exerce seu poder, forçando decisões e medidas governamentais que afetam a todos.

A força e o poder do mercado esmagam, de forma implacável, a vida e também seres humanos. Assim, neste tempo de pandemia, aumentar os já astronômicos lucros é mais uma oportunidade, o que catalisa ainda mais o dilema.

Uma solução síntese para o dilema, nessa dialética entre a vida humana e a economia, é a flexibilização parcial. Com ela, a parte mais produtiva da sociedade continuaria seu processo de produção material e, ao mesmo tempo, seria possível afirmar que a vida é sagrada, tendo prioridade sobre as demais coisas.

Contudo, até que ponto essa medida não comprometeria a saúde dos mais velhos (considerados do grupo de risco), mesmo que todos os cuidados de higienização nos ambientes de trabalho e produção tenham sido observados?

Mesmo que o trabalhador não esteja classificado como grupo de risco, ele pode transmitir o vírus para seus familiares. 

Mais uma vez, o dilema está posto. O antagonismo entre a priorização da economia, tão necessária para manter a vida humana em funcionamento, frente à fragilidade da vida humana transforma a célebre frase do príncipe Hamlet em “ser ou não ser, eis o tostão”. 

O capital, os empregos e a produtividade, que carecem do ser humano para sua manutenção, agora têm que medir as baixas que serão contabilizadas nessa guerra provocada pela covid-19.

O antagonismo e o dilema que o coronavírus traz a todos nós, em hipótese alguma, pode significar o sacrifício de alguns para a sobrevivência muitos.

Estamos diante de um dilema ético-moral que deverá ser decidido com base nos valores e princípios que temos. O pêndulo da balança irá para o lado que mais estimamos.

Para decidir, devemos lembrar-nos do próprio Cristo quando afirmou “onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração”.

O que é mais importante, a vida humana ou a economia? Vale lembrar que a economia existe por causa do ser humano e da vida, e não o ser humano e a vida existem por causa da economia.

* Dr. Reinaldo Arruda Pereira é doutor em Ciências da Religião pela UMESP e professor da Faculdade Batista de Minas Gerais.

* Wagno Alves Bragança é mestre em Educação pela UEMG, unidade de Divinópolis, psicólogo e professor da Faculdade Batista de Minas Gerais.

Fonte: Naves Coelho Comunicação



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