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A hipótese das três crises

A hipótese das três crises

27/05/2020 José Pio Martins

Ao colocar as pessoas em isolamento social, a pandemia do coronavírus gerou uma crise múltipla.

Parou parte do sistema produtivo, fábricas e lojas fecharam, estabelecimentos de serviços pessoais deixaram de atender, o desemprego aumentou, e milhões de profissionais autônomos perderam sua renda.

O estrago econômico nacional foi grande, a perda financeira das famílias foi expressiva e os efeitos psicológicos do isolamento e do empobrecimento econômico está aí, visível para todos. Esta crise, porque ela ainda não acabou, acendeu um debate novo sobre a previsão de crises futuras.

A pergunta principal é: há alguma crise em formação que não estamos vendo e que pode explodir em algum momento do futuro?

A pergunta pode parecer um pouco ingênua, pois crises fazem parte da vida econômica, social e política, logo, outras crises virão certamente.

Mas, a questão não é essa, e sim tentar ler a realidade mundial e, por meio de informações e estudos, captar sinais que ajudem a prever determinada crise de uma ou outra natureza. Para entrar no debate, penso em três crises possíveis.

O mundo vem criando ondas globais que podem terminar em crises de efeitos devastadores. Essas ondas, por mais que sejam graves, não são facilmente visíveis aos olhos da multidão.

Buckminster Fuller (1895-1983), o gênio inventor, futurista, arquiteto e escritor, estabeleceu certa diferença entre o cérebro e a mente humana.

Segundo ele, o cérebro vê os objetos tangíveis, mas aquilo que não é tangível nem perceptível somente é visto com os olhos da mente. Ele alerta: “você não pode desviar-se de coisas que não vê movendo em sua direção”.

A primeira, por óbvio, é a crise econômica pós-coronavírus. Que o produto mundial vai cair é algo que todos sabemos.

Se o produto cai e a população aumenta, o produto por habitante – que é a versão real da renda per capita – declina, em uns países mais e em outros, menos.

Nem a taxa de redução da renda por habitante será igual em todos os lugares nem o empobrecimento terá o mesmo significado.

Uma coisa é a queda de 20% na renda per capita da Dinamarca, que hoje está em 61 mil dólares/ano, outra coisa é essa mesma queda no Brasil, cuja renda anual por habitante não chegou aos 11 mil dólares.

De qualquer forma, a queda do produto mundial já está levando milhões de empresas à falência e à redução do tamanho, os salários médios irão cair, o desemprego aumentará e o padrão médio de vida será reduzido.

Então, a queda do produto e da renda será uma crise enorme que o mundo sofrerá, iniciando a partir de agora. Se será apenas uma recessão não tão grave ou uma depressão profunda, é o que veremos.

Essa é a primeira crise dos próximos anos, que demandará a atenção e a inteligência da humanidade para superá-la.

A segunda crise, e essa é mais estrutural, é o aumento do número de pessoas desocupadas. É a crise do desemprego, que pode criar aquilo que o escritor Yuval Harari (1976-) chamou de uma “enorme classe sem utilidade”.

Além do desemprego causado pelos efeitos da pandemia do coronavírus, o mundo caminha para outro tipo de desemprego com o qual ainda não sabe como lidar.

Trata-se do seguinte: nas revoluções tecnológicas do passado, as máquinas competiam com o ser humano em habilidades físicas, mas agora, na quarta revolução tecnológica, as máquinas e os robôs vão competir com o ser humano em habilidades cognitivas, e milhões de pessoas perderão seu emprego.

A terceira crise, se houver, fará parte das grandes catástrofes financeiras. Será a crise dos derivativos. Em 2008-2009 o mundo viu explodir uma grave crise financeira, cujos efeitos foram devastadores.

Essa crise não explodiu do nada em 2008. Suas causas foram plantadas e desenvolvidas durante pelo menos os 20 anos anteriores.

Porém, praticamente ninguém não a previu. Uns poucos especialistas tentaram alertar sobre a formação da onda que estava vindo em nossa direção. Mas não foram ouvidos.

Atualmente, há uma onda em formação que pode terminar em uma crise financeira de grandes proporções.

Trata-se das operações de derivativos (contratos futuros mercantis e financeiros, derivativos de commodities, ações, títulos de crédito, juros, câmbio, moedas etc.).

Segundo algumas estimativas, o total de operações com derivativos chega a ser igual ao valor do produto bruto mundial, que é de US$ 135 trilhões, multiplicado por seis.

Derivativos são instrumentos financeiros de proteção e especulação que ajudam a incentivar a economia mundial e dar liquidez a ativos representados por bens, direitos ou obrigações. Não são operações maléficas nem ilegais.

O problema dos derivativos é que são soluções novas, cujas regras ainda não foram testadas suficientemente. Isso pode representar a maior bolha financeira da história.

Se essas crises vão ocorrer ou não, é difícil saber. Mas há sinais que merecem ser observados e estudados, pois eles podem representar elos de uma rede que vai estourar lá frente, com todos seus efeitos danosos.

* José Pio Martins é economista e reitor da Universidade Positivo.

Fonte: Central Press



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