Portal O Debate
Grupo WhatsApp

A nova morfologia do trabalho: Da uberização à ciberescravidão

A nova morfologia do trabalho: Da uberização à ciberescravidão

22/05/2019 Maria Inês Vasconcelos

É claro que o Uber facilita a vida das pessoas. E disso ninguém duvida.

Principalmente em dias chuvosos, no horário de pico, quando nenhum táxi passa por perto. A plataforma de mobilidade realmente funciona e está empregando um grande número de pessoas, até então desempregados.

Contudo, tudo tem dois lados e é necessário um enfoque mais profundo para entender a morfologia do trabalho atual. O ofício está sendo corroído por um tripé destrutivo, em que predomina a precarização, a informalidade e a escravidão tecnológica.

Além disso, é fluido e impalpável. O mundo já reconhece o conceito de intermitência global, e outras novas definições relacionadas aos modos de trabalho que surgem numa velocidade ímpar.

A globalização da tecnologia criou infinitas possibilidades e uma série de benefícios. Nesse cenário, é possível que as pessoas trabalhem apenas com o suporte do celular, mesmo sem um escritório, contrato ou jornadas fixas. É o caso dos escravos digitais chineses e os infoproletários italianos, por exemplo.

Em Tóquio, o capitalismo fordista japonês, que tanto serviu de inspiração para os países ocidentais, produziu uma legião de jovens, que vivem e trabalham nos cybers cafés, denominados cyber-refugiados.

Outro exemplo, é a multinacional norte-americana Apple, que terceiriza seus serviços para a Ásia. A fabricante de componentes eletrônicos Foxconn, na China, tem sua produção baseada em contratos com outras empresas de tecnologia e entre seus produtos mais famosos estão os hardwares da Apple.

No entanto, a empresa adota um padrão chinês de exploração que chega próximo da escravidão, em que não podem parar o serviço nem para ir ao banheiro, fora os castigos surreais, que no Brasil são catalogados como crimes contra a ordem do trabalho.

Neste desenho contemporâneo, temos um mercado completamente informal, precário, volátil, fluido, intermitente e digital, que vem sendo desmaterializado em escala global.

A uberização é uma dessas formas, em que o trabalho é marcado pela informalidade, flexibilidade, intermitência e terceirização, e o que antes havia sido “walmartirizado”, a modo Walmart de ser, agora vem também sendo uberizado.

E mesmo assim, os trabalhadores continuam obrigados a cumprir regras e metas, impostas frequentemente através de dinâmicas alienantes e práticas de assédio.

O sociólogo Ricardo Antunes registrou em seu livro, “O privilégio da servidão”, que em 2017, os assédios que ocorreram na empresa Uber assumiram uma dimensão tão grave, que levaram à demissão de seu CEO, envolvido em práticas escusas que se repetem em muitas empresas globais.

Na ocasião, a justiça britânica reconheceu a “burla” neste tipo de serviços, obrigando as empresas estenderem aos trabalhadores, os direitos trabalhistas vigentes.

Dito isso, é evidente que essas mutações são fortemente destrutivas em relação ao mundo do trabalho, e que o ideário empresarial precisa ser amenizado e humanizado. Ainda bem que me restou uma mesa, uma caneta e um bloquinho de notas.

* Maria Inês Vasconcelos é advogada trabalhista, palestrante, pesquisadora e escritora.

Fonte: Naves Coelho Comunicação



Voo cancelado durante a pandemia?

Especialista mostra quais atitudes devem ser tomadas pelo passageiro que foi surpreendido pelo transtorno.


Sem pressa, mas sem pausa: o primeiro ano de atuação da ANPD

Inicialmente, gostaríamos de esclarecer que o texto a seguir tem o propósito de informar os leitores sobre a recente atuação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), considerando a relevância das ações de tal entidade para que a Lei Geral de Proteção de Dados – Lei Federal n. 13.709/18 (LGPD) tenha a eficácia esperada.


QR Code do Pix vira alvo de novo golpe de boletos falsos

Apesar da facilidade, a chegada de novas ferramentas para realizar compras e pagamentos on-line tem sido motivo de dor de cabeça para alguns consumidores.


ILPIs podem usar a LGPD para proteger seus tutelados

O fator envelhecimento atinge a pessoa em diversos aspectos sociais, emocionais e físicos, tornando-a dependente de cuidados e mais vulnerável a situações de violência, abandono, abusos psicológicos e até financeiros.


Reformar constantemente a legislação trabalhista é a saída?

Há uma década, a Espanha realizou uma profunda reforma trabalhista na sua legislação laboral, que em tese acabou por precarizar na visão de muitos a forma de prestação de serviços ceifando direitos e garantias dos trabalhadores.


Os limites para empresa impor código de vestimenta

O código de vestimenta é prática muito comum adotada pelas empresas para padronizar o visual dos trabalhadores de acordo com a sua cultura organizacional.


A celeuma do Passaporte Sanitário

Há tempos escrevi um artigo defendendo que a União, Estados e Municípios possuem competência para estabelecer a compulsoriedade da vacinação da população, em obediência ao arcabouço legal.


Propaganda eleitoral antecipada: riscos e consequências

A propaganda eleitoral antecipada é sempre motivo de polêmica em anos de eleições e em 2022 não será diferente.


A digitalização no departamento jurídico

Não é novidade que a transformação tecnológica nas empresas, que resulta em processos cada vez mais automatizados e inteligentes, é uma realidade no mundo corporativo, até mesmo entre as companhias que fazem parte de setores mais tradicionais.


Lei do marco do dólar é sancionada

O Projeto de Lei n° 5.387, conhecido como o marco do câmbio, que estabelece novas regras para o mercado de câmbio e para circulação de capital estrangeiro no Brasil foi sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro.


Como faço para provar que sou negro ou pardo nas cotas de concurso?

Em 2014, foi aprovada no Brasil a Lei de Cotas, que determina que 20% das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos sejam destinadas a pretos e pardos.


Quando uma empresa é excluída do Simples Nacional?

Irregularidades fiscais e alto faturamento resultam em penalidades e mudanças no regime de tributação.