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Por que o mundo adora séries de TV israelenses

Por que o mundo adora séries de TV israelenses

02/04/2019 Scott Roxborough (av)

Apesar de ser um país relativamente pequeno, Israel vem se revelando uma potência televisiva internacional.

Por que o mundo adora séries de TV israelenses

Homeland, o thriller político campeão de Golden Globes estrelado por Claire Danes como a obsessiva agente da CIA Carrie Mathison, é inspirado na série de TV israelense Hatufim (Prisoners of war). E Em terapia, da HBO, com Gabriel Byrne como um psicoterapeuta que questiona as próprias habilidades, foi quase uma transposição literal do original de Israel, BeTipul.

Cada vez mais, plataformas de streaming como Netflix e Amazon vão direto à fonte, disponibilizando, para um público global sedento de narrativas israelenses, produções em hebraico como o thriller Kfulim (False flag), o drama de terrorismo Fauda ou Shtisel, uma história de amor situada na comunidade ortodoxa de Jerusalém.

O que distingue as séries do país não são seus orçamentos de produção: Gideon Raff, o criador de Prisoners of war, menciona que toda a primeira temporada de seu show custou menos do que um único episódio de Homeland. A diferença está no tipo de histórias que contam e na forma de contá-las.

Tome-se Fauda, por exemplo: a trama sobre uma equipe de agentes israelenses que caça terroristas palestinos através da Cisjordânia é o contrário de escapismo televisivo. O título, que significa "caos" em árabe, aponta para o mundo imprevisível, perverso e moralmente complicado do conflito israelo-palestino. Seus "heróis" israelenses são capazes de tortura e coisas piores; seus "vilões" palestinos são também apresentados como seres carinhosos e bondosos.

O fato de a série, transmitida para todo o mundo pela Netflix, ter sido condenada como tendenciosa por ambos os lados é um testemunho positivo. Militantes de extrema direita de Israel a atacaram por "humanizar" os terroristas, enquanto o movimento pró-palestino Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) exigiu que fosse retirada do ar, acusando-a de "propaganda racista".

"Ninguém acreditava no seriado, nem em Israel, e todo mundo tinha medo dele. As pessoas achavam que era parecido demais com o noticiário", conta Leora Kamenetzky, coautora da primeira temporada. "E que o público de Israel não iria querer ouvir tanto árabe."

Em vez disso, Fauda se provou um sucesso imediato, o maior êxito na história da rede de satélite israelense Yes, abocanhando vários prêmios televisivos nacionais. Uma terceira temporada, a primeira visando especificamente um público internacional, está atualmente em produção.

"Acho que viver em Israel é viver todos os dias em conflito", diz Kamenetzky, ao ser questionada por que um país tão mínimo tem produzido tantos filmes televisivos excelentes. "Não é só o conflito israelo-palestino, é o conflito entre as pessoas, entre os diferentes membros da sociedade. Acho que vivenciamos o conflito desde o dia em que nascemos, e ele é o material básico do drama. Quero dizer: você já viu dois israelenses discutindo por uma vaga de estacionamento? A coisa pode acabar em homicídio."

Os autores israelenses também têm se mostrado destemidos em abordar temas que são tabu. Como ponto de partida para Prisoners of war, Gideon Raff usou notícias sobre soldados israelenses libertados após anos como cativos dos terroristas. "Nós todos sabíamos sobre esses prisioneiros de guerra, mas ninguém falava deles."

Lior Raz, que criou Fauda juntamente com Avi Issacharoff, e encarna a personagem principal, Doron Kavilli, foi membro de uma unidade de comando secreta especializada em se fazer passar por terroristas árabes, e sua namorada foi morta num atentado terrorista em Jerusalém.

Camuflagens políticas e conspirações reais inspiraram a trama fictícia por trás de False flag, que Kamenetzky criou juntamente com os autores Maria Feldman e Amit Cohen. Na série, cinco israelenses aparentemente comuns, todos com dupla cidadania, veem-se subitamente acusados de terrorismo, com seus rostos estampados por todos os monitores de televisão e websites de notícias. Atualmente em sua segunda temporada, a série é irradiada em nível global pela Fox International Channels.

"Em Israel a realidade é tão forte que é quase como se fosse fantasia", resume Kamenetzky. "Às vezes parece que você precisa dilui-la um pouquinho para transformá-la em TV verossímil."

A política não é a única fonte de material para a nova ficção televisiva de Israel. A roteirista e diretora Keren Margalit recorreu à própria experiência como mãe de um garoto autista para uma série sobre o que é criar uma criança numa sociedade onde deficiências mentais recebem pouco apoio, ou sequer menção.

Yellow Peppers é a primeira série de idioma estrangeiro adaptada pela BBC britânica, sob o título The A word: A vida com Joe. Estão sendo também produzidas versões para a TV americana, grega e holandesa. Margalit acredita que os criadores de seu país transformaram numa vantagem a necessidade de fazer televisão com um orçamento mínimo.

"Não temos dinheiro para nada. Então a concepção é: se você não pode ampliar, não pode explodir nada nem investir pesado em efeitos especiais, é preciso se voltar para dentro, ir muito a fundo e encontrar personagens reais. Acho que muito da TV israelense se desenvolve a partir dessa concepção."

Além disso, como o espaço de estúdio é muito caro, a maior parte das séries é filmada em locações externas, conferindo-lhes um caráter cru, autêntico. Yellow Peppers, situada numa localidade rural sem acesso a recursos terapêuticos para crianças autistas, foi rodada quase inteiramente no campo.

Suas cenas mais impactantes envolvem a personagem central, representada por Michael Zapesotsky, atravessando a paisagem poeirenta, de mochila amarela e grandes fones de ouvido.

Margalit conta que série foi ao ar logo antes da celebração mascarada do Purim, e quando ela saiu à rua "encontrei umas 12 fantasias do menino de mochila amarela e fones de ouvido". "E quase chorei, pensando que toda criança de Israel acha que é realmente legal ser esse garoto autista. E aí é que se vê o poder da televisão."

Yellow Peppers abriu uma discussão sobre deficiência mental em Israel, inspirando diversos outros dramas em torno do assunto. On the spectrum, sobre três adultos autistas que tentam viver por conta própria, foi o grande vencedor do prêmio da TV israelense de 2019, destacando-se em dez categorias, inclusive melhor série.

Segundo Danna Stern, uma das produtoras, depois que a série foi ao ar decuplicaram as solicitações de empresas israelenses a uma fundação que intermedeia empregos para pessoas autistas. "Ela realmente evocou mudança social. Não só diversão por diversão, mas com um sentido. É isso que tentamos, sempre: realizar shows que façam uma diferença, que ressoem e instiguem uma conversa."

O que nem Stern nem outros produtores televisivos de Israel estão tentando fazer é copiar o resto do mundo. "Fazemos menos séries policiais e nenhuma de hospital. Os americanos são melhores nisso do que nós. Mas realmente podemos fazer shows que ressoem a partir daqui. O que funciona para nós é quando um show é hiper, hiperlocal."

A mais recente tendência hiperlocal vinda de Israel é o drama ortodoxo. Shtisel, transmitida pela Netflix, é uma divertida história de amor entre um jovem judeu ultraortodoxo e uma mulher divorciada, do tipo que é considerada "mercadoria estragada" na comunidade dele.

Kipat Barzel, ou Iron Yarmulke  (Quipá de ferro) acompanha três jovens ultraortodoxos que desafiam as tradições, optando por prestar serviço militar na Força de Defesa israelense. Srugim, retransmitido pela Amazon Prime, é uma versão ortodoxa de Friends, sobre seis judeus ortodoxos entre a vida contemporânea e a observância religiosa tradicional. O título, "tricotado" se refere ao estilo dos quipás usados por muitos jovens praticantes.

"Para os não ortodoxos, ela abre uma cortina para darem uma olhada dentro das vidas dos que são nossos vizinhos, mas que na verdade não conhecemos", explica Karni Ziv, diretor de drama e comédia da Keshet Broadcasting, a principal rede comercial de TV do país.

"Porque os ortodoxos são uma parte da sociedade israelense. Por muito tempo não tive nenhuma série sobre essa comunidade por não termos autores que viessem dela. Mas nos últimos anos temos, e agora as histórias estão vindo. É como se tivéssemos aberto uma porta, e estamos falando sobre eles. Dá para ver o grande efeito que a TV pode ter em nossa sociedade."

Como conhecedora da televisão, e como israelense liberal, Kamenetzky se mostra cética. Para ela é "duvidoso" se mesmo a melhor televisão é realmente capaz de curar as profundas divisões da sociedade nacional. Por outro lado, ela ainda não abandonou totalmente a esperança e tem um caso para contar.

"Hisham Suliman, o ator que representa um terrorista palestino em Fauda, está participando de uma outra gravação perto de um dos assentamentos barra-pesada. E um dos colonos, um daqueles de quipá e metralhadora, o vê e chama: 'Abu Ahmad, Abu Ahmad' – o nome dele no show. 'Por que você deixou eles matarem seu personagem? Eu o adorava!'"

"Então, será que Fauda mudou a opinião dessa pessoa sobre a questão dos assentamentos?", indaga Kamenetzky. "Provavelmente não. Mas talvez tenha sido uma gota no oceano, que pode ajudá-la a ver que a pessoa do outro lado também é humana."

Fonte: Deutsche Welle



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