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Violência “no touch”

Violência “no touch”

16/02/2020 Maria Inês Vasconcelos

O assédio moral pode trazer sequelas emocionais e físicas.

Desde que o mundo é mundo, a coação pela imposição de medo é uma forma de agressão utilizada para movimentar o sujeito e conseguir resultados.

Numa relação desigual de poder, como a do trabalho, o terror psicológico, também chamado de psicoterror ou assédio moral, é uma ferramenta potencial para minar a capacidade psíquica do trabalhador e forçá-lo a produzir ou atuar no jogo da forma desejada pelo patrão.

Sim, mesmo, na atual conjuntura, ao lado dos avanços tecnológicos e dos novos modelos de gestão modernos, aparentemente mais participativos e inclusivos, o mundo do trabalho tem um lixo sombrio em seus porões.

Tudo é muito simples e calculado: o empregador mina a psiquê do empregado, independentemente de seu nível de adesão, por meio de um desgaste contínuo.

São utilizadas diversas estratégias, desde humilhação, diminuição perante os colegas, imposição de metas inatingíveis, ordens mal dadas e impossíveis de cumprir, agressividade para o batimento de metas, divulgação de boatos ou informações pessoais e, sobretudo, ameaça de dispensa. Ele, o trabalhador, não tem capacidade para escapar, caso queira manter o emprego.

Todas as figuras de assédio moral são reunidas na categoria chamada de violência “no touch” ou tortura psicológica. Ela se caracteriza pela agressão constante e ininterrupta, mas sem o uso da força física e sem provocar sinais externos visíveis – daí o nome “no touch” (sem toque). O intuito é exercer uma relação de poder e autoridade sobre a vítima.

Infelizmente, a violência “no touch” está tomando conta do mercado de trabalho brasileiro em vários níveis. E já podemos ver os efeitos de suas desordens, como o aumento da incidência de suicídios – dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que as mortes autoprovocadas no país aumentaram 7% entre 2010 e 2016, especialmente entre os homens –, de casos graves de depressão, síndrome de Burnout (esgotamento físico e mental relacionado à vida profissional) e outras doenças psiquiátricas incapacitantes.

Em decorrência disso, há uma onda gigante de afastamentos e aposentadorias precoces em mão de obra jovem, entre 30 e 35 anos, no auge do vigor.

Só a síndrome de Burnout afeta quase 30% da população no Brasil, o segundo país em nível de estresse, atrás apenas do Japão, segundo pesquisa do Internacional Stress Management Association (Isma).

A doença, que, em 2019, entrou para a lista de síndromes crônicas da OMS, se caracteriza por meio de “apagamentos” no ambiente de trabalho, nervosismo, negatividade, cansaço físico e mental excessivo, insônia e dificuldade de concentração.

As sequelas são cada vez mais complicadas, desde a perda da memória a crises agudas de ansiedade, problemas urinários, cardiopatias, problemas musculares e gastrointestinais e cegueiras temporárias. Tudo junto e misturado. O tratamento é complicado e oneroso, pois uma doença engatilha a outra, gerando comorbidade patogênica.

Embora sejam invisíveis, as doenças mentais não são menos graves ou menos sofridas do que as que deixam sequelas físicas. Além disso, são altamente incapacitantes.

Tudo isso ocorre a partir do enfraquecimento psicológico do empregado e de sua exposição sensorial à violência “no touch” ou ao psicoterror.

O objetivo é sempre destruir a capacidade de resistência psíquica e colocar a vítima cooptada em situação de enorme vulnerabilidade.

Atingido este estágio, aliena-se a vítima, para que ela não tenha mais nenhuma capacidade de decisão, a não ser ocupar o lugar que lhe foi traçado.

Freud, Lacan e Melanie Klein, cada qual a sua maneira, já identificavam o fenômeno da alienação, não ao modo da descrita por Marx, referente à linha de montagem, mas uma alienação decorrente da perda ou do corte do afeto, do interesse ou da motivação.

E é justamente nesse lugar que está situada a violência “no touch”, caracterizada pela imposição de medo. Em vez de prazer, o trabalho deixa de ter significado e afeto para se tornar algoz.

Deixa de ser ferramenta de construção, para ser meio de desconstrução. Aliena ao invés de significar. Castra ao invés de agregar.

Muito pior do que a dor que realmente acontece e que realmente se experimenta é a dor que se imagina.

* Maria Inês Vasconcelos é advogada trabalhista, palestrante, pesquisadora e escritora.

Fonte: Naves Coelho Comunicação



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