Portal O Debate
Grupo WhatsApp


Ler muito ou pouco?

Ler muito ou pouco?

22/07/2019 Humberto Pinho da Silva

O que nos dizem conhecidos intelectuais.

Acabara de chegar a Florianópolis, vindo de São Paulo, quando liguei o aparelho de televisão. No ecrã, surgiu a imagem de conhecido político, que estava a ser entrevistado, em sua casa.

A determinado momento, a cordial conversa, resvalou para a necessidade das figuras públicas, conhecerem tudo, que se edita, de interesse, no país.

Animado pela amena conversa, o político, convidou o entrevistador, a visitar a sua biblioteca.

Era uma vasta sala, com duas janelas de guilhotina, pintadas a branco. As paredes estavam forradas a estantes de cor negra, repletas de livros, quase todos encadernados.

Ao centro da quadra, encontrava-se, antiga e pesada mesa, de pé-de-galo, envernizada. Pendente do teto de estuque, havia vistoso lustre de vidrinhos de várias cores.

Dispersos, pela sala fauteuis, estufados a azul, e espreguiçadeira de palhinha. Assim se resumia o sóbrio mobiliário daquela livraria, de milhares de volumes.

De ar doutoral, o entrevistado, passava orgulhosamente as pontas dos dedos, pelas lombadas, à laia de tocador de reque-reque, informando:

- “Aqui, tenho tudo sobre economia!; ali, os livros de Direito!; acolá, encontram-se as obras completas dos nossos principais escritores!…”: e por ai adiante…

De boca escancarada de espanto, o atónito jornalista, olhava assombrado, as filas intermináveis de livros, todos perfilhados, todos alinhados, como soldados em parada.

Possuir grande biblioteca; comprar livros a metro, é sinal que se é culto?! Claro que não. Que impressiona as turbas, e faz bem ao ego do vaidoso, não duvido…Jacinto, do Eça, possuía trinta mil volumes… que nunca os lera…

Deve-se ler muito ou pouco?

Sertillanges, recomenda moderação na leitura, porque: “A leitura desordenada, não alimenta, entorpece o espírito.” (A Vida Intelectual)

E o célebre Jean Guiton, é do mesmo parecer: “Levado ao extremo, não se havia de ler senão um único livro, na vida.”

E acrescenta: “Convêm ter sempre à cabeceira, aqueles que a qualquer momento, nos podem proporcionar um conselho.”

Assim fazia Camilo – Mestre dos Mestres, segundo Vasco Botelho do Amaral, – que, nas suas andanças, acompanhava-o, sempre, a “biblioteca de campanha”.

André Mourois, em: “Carta Aberta a um Jovem”, após recomendar os clássicos, declara: “Sugiro-lhe uma biblioteca de campanha, reduzida a sete escritores: Homero, Montaigne, Shakespeare, Balzac, Tolstíi, Proust, Alain. No dia em que os conhecer perfeitamente, quero dizer, até ao pormenor, você será um homem culto.”

Todavia, Inace Leep, na: “A Arte de Viver do Intelectual”, diverge, em parte, desse parecer. Referindo-se aos jovens, escreve: “Não vejo qualquer inconveniente em que um jovem amador de literatura, leia, desordenadamente, quase tudo: romance de todos os géneros, biografias, história e geografia, divulgação científica e mais tarde, obras de filosofia e teologia. Um certo ecletismo não só é lícito como também muito desejável num primeiro estádio do desabrochamento intelectual.

“Quase todos os intelectuais com quem tive ocasião de falar a este respeito dizem ter seguido este processo e ter lucrado muito com ele. O único critério de seleção, sobretudo no que respeita às obras literárias, deve ser o valor artístico.”

Mas… na mesma obra, diz: “Não é por ter lido muito e saber muitas coisas, que se é um intelectual autêntico. Importa ainda saber julgar o que se leu e aprendeu, viu ou ouviu.”

Azorin, considera, também, que a leitura é inútil, se não houver meditação, sobre o que o livro nos diz:

“No se medita en el mundo moderno. Hay muy pocos hombres que se plazean en la meditación; sin la meditación (…) faltará la perspectiva espiritual, esa segunda realidade que, a su vez, hace meditar al lector de un libro.” – “El Escritor”

Mais adiante, Inace Leep, em: “A Arte de Viver do Intelectual”, recomenda a escolha de um mestre, advertindo: 

“O homem de um só livro é facilmente sectário (…) também é muito perigoso ser-se discípulo de um só e único mestre.”

“Dedica-te ao mestre que escolheres, com afeto, sim, mas sem fanatismo ou exclusividade.”

E noutro passo, recorda o prazer de reler: “Chegará o dia, Daniel, em que também experimentarás a sensação de aprender mais, relendo os mesmos livros, ainda que poucos numerosos, de grandes mestres, do que lendo as últimas novidades de livraria.”

Se os livros, em regra, se repetem, para quê ler muito? Não será melhor, buscar na densa floresta dos livros, os que nos agradam: pelo estilo e pelo tema?

Montaigne, passava dias, até meses, sem abrir um volume…folheava-os; lendo trechos ao acaso. (Ensaios)

Para pensar e raciocinar bem, é imprescindível, ler grandes pensadores. Porque baseamos os nossos pareceres, no que disseram os outros: no presente, e no passado.

Ler obras fundamentais, que são as que alimentam o espírito, e as que nos fazem pensar, deve ser o nosso guia.

Karl Jaspers, aconselha: “Não convém ler muito e variar constantemente de leitura; deve-se sobretudo, aprofundar fielmente as obras capitais”.

Livros há, que despertam interesse na adolescência, e são indiferentes na idade adulta. Cada idade tem sua leitura. Há ensaios magníficos, que merecem ser lidos; mas, não são facilmente digeridos, por falta de preparação. Melhor é ler autores mais acessíveis, do que tentar assimilar os herméticos.

Os clássicos, são sempre recomendáveis. Eça, lamentava-se, de só muito tarde os ter descoberto. As obras indicadas pelos críticos e editores, podem não ser – a meu ver, – as melhores. Por vezes são até contraproducentes, culturalmente e moralmente. O que é bom, para eles, pode não ser para nós…

Ser leitor de um só autor, ou de um só livro, também, não me parece recomendável, para não se cair nos “vícios” do escritor; a não ser que seja a Bíblia: que não é um Livro… mas muitos…

Em suma: punhado de livros, bem escolhidos, é melhor que vasta biblioteca, que raramente é lida… e, quase sempre, serve apenas, para engalanar estantes.

Os pareceres exprimidos nesta crônica, foram baseados em reconhecidos pensadores, do século XX. Servem apenas de orientação. Cada um deve escolher o método, que for melhor para si.

Meu, só há o mérito – se é mérito, – de ter feito de abelhinha, colhendo as opiniões, de reconhecidos intelectuais. Nada mais.

* Humberto Pinho da Silva

Fonte: Humberto Pinho da Silva



Os desafios de tornar a tecnologia acessível à população

Vivemos uma realidade em que os avanços tecnológicos passaram a pautar nosso comportamento e nossa sociedade.


O uso do celular, até para telefonar

Setenta e sete por cento dos brasileiros utilizam o smartphone para pagar contas, transferir dinheiro e outros serviços bancários.


Canto para uma cidade surda

O Minas Tênis Clube deu ao Pacífico Mascarenhas o que a cidade de Belo Horizonte deve ao Clube da Esquina; um cantinho construído pelo respeito, gratidão, admiração, reconhecimento, apreço e amor.


Como acaso tornou famoso notável compositor

Antes de alcançar a celebridade, e a enorme fortuna, Verdi, passou muitas dificuldades financeiras.


Gugu e a fragilidade da vida

A sabedoria aconselha foco no equilíbrio emocional e espiritual diante da fragilidade e fugacidade da vida.


Quando o muro caiu

O Brasil se preparava para o segundo turno das eleições presidenciais, entre o metalúrgico socialista Luís Inácio Lula da Silva e a incógnita liberal salvacionista Fernando Collor de Melo, quando a televisão anunciou a queda do muro de Berlim.


Identidade pessoal e identidade familiar

Cada família gesta a sua identidade, ainda que algumas vezes, de forma inconsciente.


Desprezo e ingratidão

Não sei o que dói mais: se a ingratidão se o desprezo.


A classe esquecida pelo governo

O fato é que a classe média acaba por ser a classe esquecida pelo governo.


O STF em defesa de quem?

A UIF, antigo COAF, foi criada como uma unidade do Ministério da Justiça (hoje, no BACEN) para fazer uma coisa muito simples: receber dos bancos notificações de que alguém teria realizado uma transação suspeita, anormal.


O prazer da leitura

Ao contrário do que se possa pensar, não tenho muitos amigos. Também não são muitos os conhecidos.


Desmoralização do SFT

A moralidade e a segurança jurídica justificam a continuidade da prisão em segunda instância. A mudança desta postura favorece a impunidade dos poderosos e endinheirados.