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O Brasil do descaso e das tragédias anunciadas

O Brasil do descaso e das tragédias anunciadas

04/04/2019 André Moraes Velleda

Iniciamos o ano de 2019 com o sentimento de que algo vai muito mal em nosso país.

Não bastassem as mortes com a violência ou a precariedade na saúde pública, vimos tantas vidas ceifadas pela imprudência e falta de cuidado com infraestrutura.

O Brasil é o país que não tem desastres naturais, como terremotos e furacões, mas cujos habitantes conseguem provocar suas catástrofes ao mexer de forma inconsequente com a natureza.

Na tragédia de Brumadinho (MG), nitidamente faltou cuidado com a infraestrutura da maior empresa do setor e do governo. A mineradora Vale foi 41,73% privatizada em 2017, mas a maior parte do seu poder ainda é público. E isso pode ser mais problemático.

Assim como vemos a falta do governo com a saúde ou as estradas brasileiras, para nós que atuamos no segmento de transportes, há um descaso com a segurança das barragens no Brasil.

O país não aprendeu nada com a tragédia ocorrida em Mariana (MG), em 2015, e isso levou ao novo desastre, em Brumadinho, dia 25 de janeiro, quando uma barragem da Vale se rompeu, soterrando centenas de pessoas e destruindo com rejeitos tóxicos o Rio Paraopebas.

Como é possível uma gigante como a Vale não investir no cuidado com as vidas? Imagine as empresas de menores estruturas então. Coisas simples, como o toque de sirene, simplesmente não funcionam.

A empresa recebeu alertas de dados por e-mails de que algo estava errado e ninguém fez nada. Dói perceber que Brumadinho, como Mariana, não foi um caso fortuito, uma fatalidade. Ambas eram tragédias anunciadas, resultado da negligência.

Nossa infraestrutura está sucateada. Existem demonstrações de pouco cuidado com essa área em todo o país. Veja, por exemplo, o estado das pontes na cidade de São Paulo, a prefeitura mais rica do Brasil. A queda de viaduto na Marginal, no fim de novembro, expõe o péssimo estado dos elevados da cidade.

Na última década, o orçamento para a manutenção de viadutos minguou: o então prefeito Gilberto Kassab gastou, em valores atuais, R$ 31 milhões entre 2009 e 2012, dos quais R$ 22 milhões no seu último ano de mandato. Fernando Haddad despendeu R$ 15 milhões em 2013 e nenhum centavo nos três anos seguintes.

João Doria desembolsou mísero R$ 1,5 milhão no ano passado, e a gestão Bruno Covas, R$ 2,4 milhões neste ano. Nesse ritmo, a cada mandato, tal verba cai à metade.

Com a falta de investimentos em conservação, muitos viadutos correm o sério risco de cair, levando mais vidas inocentes e prejudicando toda a população.

Estamos perdidos. Os problemas estão por toda a parte: barragens, pontes, aeroportos. O que mudou desde o último desastre em Congonhas, segundo maior aeroporto em movimento do País (perde apenas para o de Cumbica), mais de 10 anos após o voo 3054? Alguns ajustes na pista, uma nova torre de controle e exigência de mais treinamento pelos pilotos. Mas, sem dúvidas, falta melhorar muito ainda a cultura da prevenção de perdas.

Logo depois do caso de Brumadinho tivemos o incêndio no alojamento dos meninos do Flamengo. Os absurdos são inúmeros e também evidenciam descaso, desta vez com a vida dos garotos do clube mais popular do país. A cidade do Rio de Janeiro foi omissa diante de uma situação detectada, comprovadamente irregular.

No dia 20 de outubro de 2017 foi emitido um edital de interdição do Ninho do Urubu, exatamente onde estavam os containers adaptados em dormitórios, que não foi cumprido. Para o local só estava liberado o funcionamento de um estacionamento.

Dez vidas foram perdidas no incêndio, meninos entre 12 e 15 anos que morreram carbonizados ou intoxicados, e outros que seguiram hospitalizados.

O Brasil que merecemos tem investimentos em infraestrutura e em programa de prevenção de perdas. Todas essas tragédias foram anunciadas. E agora quem fica responsável por este luto profundo de todos nós brasileiros, neste triste início de ano?

* André Moraes Velleda é fundador e presidente da Moraes Velleda, consultoria de prevenção de perdas e gestão de riscos.

Fonte: Ruco Comunicação



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