Portal O Debate
Grupo WhatsApp

Transplante de coração, uma perspectiva atual e real

Transplante de coração, uma perspectiva atual e real

21/04/2017 Américo Tângari Junior

Atualmente no Brasil são realizados aproximadamente cem transplantes de coração.

Que o diga um homem calmo e bem-humorado de 47 anos, que leva uma vida normal como todo bom cidadão brasileiro e cumpre com seus deveres. Casado, pai de dois filhos, trabalha de manhã à noite como auxiliar administrativo numa clínica cardiológica no centro da capital paulista.

Aprendeu a saborear a vida, principalmente por saber que é um dos melhores exemplos da capacidade da medicina de prolongar a existência ao máximo: ele completou 30 anos com um coração transplantado – talvez um dos mais longevos de que se tem conhecimento. E exibe uma saúde exemplar.

Na verdade, este senhor precisou de dois transplantes: o primeiro em l986, quando tinha apenas 17 anos. Treze anos depois, por problemas de rejeição, teve de colocar outro coração no peito, no mesmo hospital da capital paulista.

Entre um e outro transplante, ele se casou e teve dois filhos, hoje com 26 anos e 22 anos. É uma história comovente a deste homem de hábitos simples, morador da Zona Leste, de frente para o Parque do Carmo. É uma história de fé na vida. E, como ele, todos os pacientes que vierem a precisar de um transplante devem contar com esse componente da maior importância - a crença na vida.

A história dos transplantes de coração começou difícil: o primeiro ocorreu na África do Sul em 1967, mas o paciente do Dr. Christian Barnard sobreviveu por apenas 18 dias. Daí em diante a prática evoluiu rapidamente no mundo; atualmente, a sobrevida é de 85% após um ano e de 78% ao final de três anos.

Mas pode ser muito mais prolongada, com as pesquisas sobre imunologia avançando no combate à rejeição e o apoio da tecnologia nos exames mais minuciosos e precisos. Esta é a razão de ser cada vez maior o número de transplantados sobrevivendo com mais de 20 e até com 30 anos, como é o caso de nosso personagem.

A qualidade de vida também melhora sensivelmente com o passar do tempo, pois eles recuperam a capacidade física, voltam a trabalhar e até a praticar esportes. O que leva o paciente ao transplante é a insuficiência cardíaca, na qual o coração não consegue bombear sangue o bastante para suprir as necessidades de oxigênio e nutrientes do organismo.

Os indivíduos sentem falta de ar e os tornozelos incham, além de apresentar constantes arritmias. Essa é uma das principais causas de mortes por doenças cardíacas no mundo. E são várias as determinantes de uma insuficiência, como doenças das válvulas cardíacas, coronárias, defeitos congênitos – e todas podem ser tratadas de modo convencional.

Porém, quando o músculo reduz seu poder de contração, a insuficiência se torna mais grave e as arritmias se acentuam; aí então os médicos começam a estudar a hipótese de substituir um coração por outro sadio. Em muitos casos, a expectativa de vida não ultrapassa de seis meses a dois anos.

Podem ocorrer anormalidades adquiridas ou congênitas das válvulas ou de outras estruturas do coração, e até mesmo condições raras, como tumores. A rejeição era o obstáculo maior à sobrevida dos transplantados. Ela ocorre quando, por exemplo, uma pessoa sofre um ferimento no dedo e os glóbulos brancos entram em combate para destruir as bactérias, iniciando um processo infeccioso.

A mesma resposta se dá no transplante: o novo coração será atacado, pois se trata de elemento estranho ao corpo e deve ser eliminado. Mas os medicamentos imunossupressores evitarão esse ataque, permitindo que o novo órgão funcione. Até recentemente, os efeitos colaterais da medicação contra rejeição afastavam crianças e pessoas mais idosas dessa possibilidade.

Agora, crianças e idosos com mais de 70 anos são aceitos naturalmente como receptores. As chances de sobrevida longa dependem em parte do estado dos outros órgãos, principalmente cérebro, pulmões, fígado e rins. Os pacientes que apresentam esses problemas podem não se beneficiar do transplante.

Mas todos concordam: é decisivo para o sucesso do tratamento o estado psicológico do paciente, que deve cooperar com a orientação médica e, ao mesmo tempo, ter amparo familiar consistente. Porém, para que tudo funcione, é preciso haver um doador; ou uma família disposta a doar o coração e outros órgãos de seu ente querido recém falecido para que outro ser humano sobreviva.

As informações nesse sentido avançam pouco no Brasil, mas avançam, e a esperança é a de que as filas se reduzam ao mínimo. Atualmente no Brasil são realizados aproximadamente cem transplantes de coração; nos Estados Unidos, cerca de 1.400 ao ano.

No Estado de São Paulo, uma Central de Órgãos da Secretaria de Saúde centraliza a lista única dos receptores cadastrados pelas diferentes equipes transplantadoras. Quando surge notificação de um paciente em coma irreversível, o computador da Central analisa a compatibilidade de peso corporal e tipo sanguíneo, seleciona o receptor mais antigo previamente inscrito e avisa à equipe respectiva para realizar a operação.

Receptores com quadros clínicos mais graves, internados em UTI, fazendo uso de medicação endovenosa ou aguardando com o coração mecânico - também uma realidade tecnológica muito atual -, recebem prioridade. E assim começará uma nova etapa da existência do paciente receptor – ou mais uma conquista da medicina para o ato de viver.

* Américo Tângari Junior é médico cardiologista do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo.



As restrições eleitorais contra uso da máquina pública

Estamos em contagem regressiva. As eleições municipais de 2024 ocorrerão no dia 6 de outubro, em todas as cidades do país.

Autor: Wilson Pedroso


Filosofia na calçada

As cidades do interior de Minas, e penso que de outros estados também, nos proporcionam oportunidades de conviver com as pessoas em muitas situações comuns que, no entanto, revelam suas características e personalidades.

Autor: Antônio Marcos Ferreira


Onde começam os juros abusivos?

A imagem do brasileiro se sustenta em valores positivos, mas, infelizmente, também negativos.

Autor: Matheus Bessa


O futuro da indústria 5.0 na sociedade

O conceito de Indústria 5.0 é definido como uma visão humanizada das transformações tecnológicas no setor, equilibrando as necessidades atuais e futuras dos trabalhadores e da sociedade com a otimização sustentável do consumo de energia, processamento de materiais e ciclos de vida dos produtos.

Autor: Pedro Okuhara


Em defesa do SUS: um chamado à ação coletiva

A escassez de recursos na saúde pública brasileira é um problema crônico.

Autor: Juliano Gasparetto


Impactos da proibição do fenol pela Anvisa no mercado de cosméticos e manipulação

Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tomou a decisão de proibir a venda e o uso de produtos à base de fenol em procedimentos de saúde e estéticos.

Autor: Claudia de Lucca Mano


A fantasia em torno da descriminalização da maconha

"As drogas pisoteiam a dignidade humana. A redução da dependência de drogas não é alcançada pela legalização do uso de drogas, como algumas pessoas têm proposto ou alguns países já implementaram. Isso é uma fantasia".

Autor: Wilson Pedroso


Ativismo judicial: o risco de um estado judicialesco

Um Estado policialesco pode ser definido como sendo um estado que utiliza da força, da vigilância e da coerção exacerbada contra a população, principalmente com seus opositores.

Autor: Bady Curi Neto


Abortada a importação do arroz

O governo desistiu de importar arroz para fazer frente à suposta escassez do produto e alta de preços decorrentes das cheias do Rio Grande do Sul, responsável por 70% do cereal consumido pelos brasileiros.

Autor: Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves


2024, um ano de frustração anunciada

O povo brasileiro é otimista por natureza.

Autor: Samuel Hanan


Há algo de muito errado nas finanças do Governo Federal

O Brasil atingiu, segundo os jornais da semana passada, cifra superior a um trilhão de reais da dívida pública (R$ 1.000.000.000.000,00).

Autor: Ives Gandra da Silva Martins


O mal-estar da favelização

Ao olharmos a linha histórica das favelas no Brasil, uma série de fatores raciais, econômicos e sociais deve ser analisada.

Autor: Marcelo Barbosa