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Pé na praia: Pressa ao estilo brasileiro

Pé na praia: Pressa ao estilo brasileiro

13/07/2016 Thomas Fischermann

"Toda vez que tentei resolver alguma coisa rápido no Brasil, não deu certo."

Eu não quero um táxi, disse ao homem na recepção do hotel, quero um helicóptero. O embarque para meu voo de São Paulo começa em uma hora. Pela minha experiência, ninguém consegue atravessar a cidade tão rápido de carro. A metrópole de 21 milhões de habitantes é mundialmente conhecida por ser a capital financeira da América do Sul e pelos seus congestionamentos. O que diz o aplicativo do Uber sobre isso? Me oferece três alternativas: "Carro pequeno, carro grande preto ou helicóptero?"

A opção é óbvia: o avião de rosca. Não é piada. A controversa empresa de transporte privado, que em muitas cidades da Alemanha sequer obteve ainda autorização para funcionar, oferece em São Paulo até transporte aéreo – pelo menos até o fim desta semana, depois o serviço fará uma pausa. É claro, com todos esses paulistas procurando cada vez mais eficiência e com o poder aquisitivo lá no espaço!

"Disponível em 12 minutos", diz o App do Uber. Definir o local de busca: meu hotel de preço médio. Tarifa de transporte prevista: 245 Reais. "Favor clicar aqui para confirmar a reserva". São 9h10. O tempo passa.
E o tempo passa. Toda vez que tentei resolver alguma coisa com rapidez no Brasil, sempre tive um problema: nunca dá certo. Isso não é uma reclamação, é a constatação da vida como ela é, os próprios brasileiros já estão sempre reclamando. Quem demonstra ter pressa já irrita de cara metade do país. Sinais de pressa são sancionados sem piedade. Por que seria de outra forma com o Uber? Mesmo assim: do lado de fora, em frente à porta, estaciona um Kia Sportage preto. Não tem hélice, mas deve me levar ao heliporto mais próximo. O homem na recepção move-se agitado em torno do carro e diz: "helicóptero!". Então ficamos presos no engarrafamento.

9h20. Grande parte do centro da cidade está interditada para uma prova de ciclismo. Isso deixa o engarrafamento gigantesco, e o heliporto também fica na área interditada. Meu motorista do Uber chama-se Cleriston. Está usando uma camisa branca e um terno preto. "Bem, posso tentar levá-lo de carro diretamente para o aeroporto", diz Cleriston, "com muita sorte, o senhor consegue!"

Às 9h28 saio correndo pelas ruas de São Paulo, está calor, estou suando. Vou puxando a mala atrás de mim. Faltam 400 metros até o heliporto. Recebo uma mensagem: meu helicóptero decola às 9h50, o tempo de voo é de 5 minutos. O endereço indicado. Um hotel. O 26° andar. O telhado. Uma piscina. Homens de negócio seminus em espreguiçadeiras. Abaixo vão se delineando os contornos dos prédios de São Paulo, aqui em cima, por enquanto, só apareceu o vento. Às 9h51, um funcionário do hotel me cutuca: "está atrasado, obviamente." Às 9h56 ele vem de novo: "chegou!"

10h04. Meu helicóptero aterrissa no aeroporto de São Paulo. "Não é tão caro assim, concorda?" pergunta o piloto careca. Eu estava sentado ao lado dele, com um fone de ouvido e cinto de segurança. Sobrevoamos a cidade.

10h06. A minivan para meu terminal de decolagem está à espera. Só está faltando um formulário que precisa ser preenchido por todos os passageiros. "A menina esqueceu", diz, alegremente, o homem ao volante, desce do carro novamente, desaparece no prédio de administração do heliporto e libera a papelada com a "menina". Quando ele volta, aconselha-me atenciosamente sobre como preencher o formulário: aqui é para por o nome, aqui, a data. Ali, a assinatura. Andamos na pista que passa pelos aviões maiores. Vejo que o Boeing 737 do meu voo está numa proximidade alcançável, mas primeiro preciso fazer o check-in e despachar a bagagem. Ou melhor: tenho que ir fazer o check-in AGORA. Urgentemente.

10h13. Ainda estamos andando na van. Essa corrida de van está demorando mais do que meu voo de helicóptero. Às 10h22 chego ao balcão de check-in. Deixem-me passar na frente, senão vou perder o voo! No Brasil existe uma tolerância incrível com pessoas que chegam atrasadas. É só ficar relaxado. Tudo bem, tudo tranquilo. O portão de embarque demora mais um pouco para fechar. Visto desta forma, será que um táxi normal também teria conseguido?

Logo os últimos passageiros vão embarcar. Sigam para o portão de número 17! Estou subindo a escada rolante. Celular e caneta para fora do bolso, moedas num cesto de plástico. Passando pelo detector de metal. Sinceramente: não estou mais nervoso. Sei que vou conseguir. Sou um correspondente da América do Sul! Todos nós, jornalistas, já estamos acostumados a fazer esse percurso até os portões de embarque de Congonhas batendo recordes de velocidade.

* Thomas Fischermann é correspondente do jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Na coluna Pé na praia, publicada às quartas-feira na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens pelo Brasil. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter. Traduzido por Fernanda S. Canelas.
 



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