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A arte do relacionamento após o Coronavírus

A arte do relacionamento após o Coronavírus

15/05/2020 Reinaldo Arruda e Ierson da Silva Batista

O mundo humano é frágil. Para constatar tal fato, basta uma pequena olhada para o passado.

Com o sentimento de medo, pesar e tristeza, o que também é sentido com o coronavírus, a humanidade já viveu e conviveu com as agruras das pandemias anteriores: a peste negra, a gripe espanhola, a gripe suína, etc.

A princípio, numa pandemia, o que se pode perceber é ainda a grande limitação humana, sua finitude e impossibilidade perante situações não planejadas da vida.

Mesmo com o avanço tecnológico, científico e cultural não temos como controlar o inesperado, principalmente o que é virótico, pandêmico.

O mundo humano é frágil mesmo. Somos suscetíveis às surpresas e dificuldades da vida. Contudo, precisamos entender que a nossa vulnerabilidade não pode significar impotência.

Mas, nenhum de nós imaginava que estaríamos enfrentando o que vivemos atualmente, e isso em proporção global.

Ficamos em casa, trabalhamos em casa, e estamos a maior parte do tempo com os nossos familiares e, ao mesmo tempo, distanciados de outros.

Durante a pandemia da COVID-19, algumas pessoas, de modo encantador, estão redescobrindo o seu ambiente familiar e os relacionamentos, o estar em casa, a vivência e a convivência mais ampla e intensa com os seus familiares.

Alguns estão reinventando seu jeito de ser, de viver e de relacionar, a partir do encontro e da relação com o outro, “dons doravante descobertos”, o que é magnífico em meio a este novo cenário e contexto de distanciamento social.

Há outros que, apesar de estarem em casa, ficam uma pequena parte do tempo com os familiares, pois estão trancados em seus quartos, em frente à televisão e conectados nas redes sociais. O estar junto é pequeno e acontece esporadicamente.

Outras pessoas estão em casa, mas continuam trabalhando em home office, e trabalham, trabalham muito. Por um lado, estas pessoas, devido ao estilo de vida da sociedade contemporânea, “desaprenderam” a conversar com o outro “olho no olho”, e também a conviver.

Por outro, passaram a se relacionar mediado por tecnologias, cuja característica é a virtualização, até mesmo com as pessoas mais queridas, os familiares. Haja vista, os grupos familiares de WhatsApp.

Nesta pandemia da COVID-19, continuamos a nos revelar como seres humanos, que perante o inesperado, nos reconstruímos ou nos reinventamos.

Mas, quando se trata de relacionamento humano, deixamos às claras o que e quem verdadeiramente é importante para nós, bem como a vida que queremos viver daqui para frente.

Com o coronavírus, algumas “deficiências” já instauradas na vivência familiar, nas relações de trabalho, no trato da comunidade próxima, vizinhos, amigos estão afloradas. Neste sentido, a pandemia, por vezes, não é a causa, mas apenas um instrumento purificador ou depurador.

Assim, uma pergunta se faz pertinente: no passar da pandemia da COVID-19 como serão as relações humanas?

O sociólogo e filósofo francês contemporâneo Edgar Morin lembra que o futuro nasce do presente e “isto significa dizer que a primeira dificuldade de pensar o futuro é a dificuldade de pensar o presente. A cegueira sobre o presente nos torna, ipso facto, cegos em relação ao futuro”.

Para Morin, há de forma generalizada uma dificuldade de configurar o rosto do presente. Na realidade há um ledo engano de que nos conhecemos o suficiente para garantirmos um futuro próspero.

É inegável, a quarentena provocada pela pandemia da COVID-19, é pedagógica e educativa: ensina-nos a encontrarmos o nosso melhor lugar no mundo e com as pessoas que amamos: nossa casa, nosso lar e nossa família.

Durante a pandemia, e mais importante ainda, depois que ela passar, precisamos de uma vida em plenitude, marcada por relacionamentos saudáveis.

Nesse sentido, tal como afirmou Agostinho de Hipona, para vivermos a vida plenamente, temos que aprender a amar as pessoas e usar as coisas, e não usar as pessoas e amar as coisas.

Em outras palavras, o que queremos enfatizar é que mudamos e continuaremos a mudar o que “somos por dentro”, coração e alma, mas também por fora nos encontros e desencontros da vida.

Assim, quando a pandemia acabar, no que tange ao relacionamento humano, a nossa esperança é que:

1. A distância geográfica, física, psicológica e afetiva seja diminuída entre as pessoas que partilham um mesmo espaço, seja o da casa, seja o do trabalho;

2. Os relacionamentos e a convivência sejam contagiantes, repletos de abraços, apertos de mão e profunda amizade;

3. O medo da proximidade com o outro se transforme na ousadia do encontro e da pertença;

4. A nossa vulnerabilidade seja compreendida por nós e pelos outros, a ponto de nos ligarmos e nos unirmos no enfrentamento das impensadas coisas da vida;

5. O toque físico, o diálogo e a convivência sejam terapêuticos e muito mais eficientes que os remédios que tomamos.

Finalmente, quando a pandemia da COVID-19 passar, que sejamos mais humanos, e que a “vontade” mais pujante em cada um de nós, seja, tão somente, a vontade de abraçar, sorrir com o outro e de comemorar um fim de um pesadelo.

* Reinaldo Arruda é doutor em ciências da religião e professor da Faculdade Batista de Minas Gerais nos cursos de teologia e direito.

* Ierson da Silva Batista é mestre em ciências da religião e professor da Faculdade Batista de Minas Gerais no curso de teologia.

Fonte: Naves Coelho Comunicação



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