Portal O Debate
Grupo WhatsApp


Aniversário

Aniversário

27/01/2018 Adilson Roberto Gonçalves

Nasci há 50 anos e somente hoje entendo melhor o que aconteceu àquela época.

Minha formação na área técnica não abria muitas possibilidades para a crítica social ou despertava curiosidade sobre o mundo em formação, tanto alimentado pelos novos ares europeus, como pelos ares plúmbeos nacionais.

A criação em família sem posses, mas também sem miséria, limitava-me à massa inconsciente e passiva. Adentrei a educação formal junto com a posse de Ernesto Geisel, vi a crise econômica dos anos 80 como adolescente, que levou o desemprego para dentro de casa, forçando-me ao início da vida conjunta de trabalho e escola.

Nesse período também convivi com um primo que foi estudar na escola preparatória de cadetes do exército para, um dia quem sabe, ser presidente da república, pois isso fazia parte da carreira militar. Sua mãe – minha tia – discorria sobre a possibilidade com orgulho.

Estudar Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB) era apenas um verniz para dizer que algo de Humanidades era passado aos alunos. Hoje entendo porque pouco conheço da formação histórica do povo brasileiro.

O diferencial passou a acontecer somente no Ensino Médio, naquela época chamado de Segundo Grau, ainda no final do governo militar, com um professor ex-militante do MR-8 que conseguiu subverter o sistema e introduzir verdadeira aula de formação política na disciplina OSPB. Fui apresentado à série “Primeiros Passos”, da Editora Brasiliense, e a textos que explicavam o que era o marxismo, a luta de classes, o capitalismo e outros tabus.

Fato marcante da época foi o lançamento de O Capital pela editora Abril, vendido em bancas de jornal e revistas. O símbolo do comunismo sendo acessível pela prática de sucesso do capitalismo. Lembremos que a censura já ia ao fim e o general Figueiredo começava a pedir que o esquecessem. O conhecimento mais profundo e arrebatador da época veio apenas com a leitura de 1968 – O Ano Que Não Terminou, de Zuenir Ventura.

Parece uma ficção de tão bem escrito e de pensar que o relatado ali naquelas saborosas páginas era tão diferente do que me foi contado e do que a vida me permitiu vivenciar. Jornalistas e analistas fizeram levantamento das mazelas de 2017 e impingiram a ele a pecha de um ano a ser esquecido. No entanto, defendo que o ano não é para se esquecer e, sim, para ser muito bem lembrado.

Temos que digerir os fatos para entendê-los, pois o ano que se inicia tende a ser de ressaca e de congestão. No mínimo alguma nutrição deve restar para nossa sobrevivência social. A legislação atual permitiu a introdução das disciplinas História, Geografia, Sociologia e Filosofia nos currículos escolares com ampla carga horária e até de forma exagerada, comparativamente com as de ciências da natureza (Química, Física e Biologia), mas é um resgate, ainda que tardio, da formação mais íntegra e integral do educando.

Porém, face ao discurso de ódio que triunfa hoje, especialmente nas redes sociais frequentadas pelos que nasceram depois da redemocratização, fica a pergunta se essa empreitada sócio-educacional foi efetiva. O acesso à formação social, política e econômica do país parece não servir de alerta – especialmente aos jovens – de que a história pode se repetir: vivemos um 2018 semelhante àquele então longínquo 1968, com certa euforia, ainda que tímida, mas com um governo ilegítimo que ascendeu ao poder com um discurso fantasioso.

Lá, a fala era que estávamos à beira de uma invasão comunista e que os militares não poderiam entregar o poder aos civis, pois a ameaça continuava e precisavam recrudescer as ações policialescas de combate aos revolucionários, e, cá, de que as pedaladas fiscais eram o de mais cruel na gestão de contas públicas e que o governo estava corrompido e precisava ser retirado para dar fluxo ao pleito das pessoas de bem – que, na verdade, são as pessoas de bens.

Em uma e em outra época, um governo legitimamente eleito foi destituído e o que restou foi apenas o reflexo da força conservadora (re)assumindo o poder. Das sombras de 1968 levamos vinte anos para sair. Das de hoje, há a chance de nelas não entrar, o que, porém, é cada vez menos provável.

Se entrarmos no eclipse, a pergunta é se sairemos ainda nesta geração e completando qual aniversário: bodas de prata ou de ouro.

* Adilson Roberto Gonçalves é doutor em química pela Unicamp, livre-docente pela USP e pesquisador no IPBEN – Unesp em Rio Claro.



Uso consciente do crédito pode ajudar a girar o motor da economia

Muita gente torce o nariz quando o assunto é tomar empréstimo, pois quem precisa de crédito pode acabar não conseguindo honrar essa dívida, tornando esse saldo devedor uma bola de neve.


Voltar primeiro com os mais velhos: mais autonomia e continência

Nunca pensei que chegaria esse dia, mas chegou! Um consenso global sobre o valor da escola para as sociedades, independentemente do seu PIB.


Adolescentes, autoestima, família: como agir, o que pensar?

A adolescência é um tempo intenso, tanto pelo desenvolvimento físico, quanto neurológico, hormonal, social, afetivo e profissional.


Digital: um tema para o amanhã que se tornou uma demanda para ontem

Durante muito tempo, a Transformação Digital foi considerada uma prioridade para o futuro dos negócios.


Compliance como aliado na estratégia ESG das organizações

A temática que atende aos princípios ambientais, sociais e de governança, ou seja, o ESG (Environmental, Social and Governance), está em forte evidência.


A humanização da tecnologia no secretariado remoto

A tecnologia deu vida a inúmeras oportunidades de negócios, como o trabalho à distância.


Bolsa vs Startups. Porque não os dois?

Vivemos um momento de grandes inovações e com os investimentos não é diferente.


Os pecados capitais da liderança

“Manda quem pode, obedece quem tem juízo.”


“Pensar Global, Agir local”: O poder do consumo consciente

A expressão “Pensar Global e Agir local” já é lema em muitas esferas de discussões políticas, econômicas, sobre sustentabilidade e solidariedade.


Vencido o primeiro desafio da LGPD

A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) regulamenta o tratamento de dados de pessoas físicas nas suas mais variadas aplicações e ambientes.


Telemedicina, fortalecimento do SUS e um primeiro balanço da pandemia

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, alertou Camões. Todo o mundo é feito de mudanças.


Médico: uma profissão de risco

Estudar medicina é o sonho de muito estudantes, desde o cursinho o futuro médico se dedica a estudar para conseguir entrar no super concorrido curso de medicina.