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Desculpas, relação professor-aluno e futebol

Desculpas, relação professor-aluno e futebol

09/06/2017 Nelson Pedro-Silva

Um pedido de desculpas perde a sua importância, se não for acompanhado pela mudança.

Em outros tempos, não tão distantes assim, era prática habitual pedir desculpas quando se cometia algum ato que provocava descontentamento. Contudo, cada vez menos, tenho notado o emprego desse termo ou ele não tem tido o poder de desfazer equívocos e/ou de reconhecer que determinada ação foi desastrosa.

A esse respeito, apliquei um teste a 15 estudantes do curso de Psicologia de uma universidade pública. O objetivo dessa verificação era que, ao final de sua aplicação, eu pedisse desculpas a eles. O resultado foi que, em algumas situações, os alunos não conseguiram responder a determinadas indagações e, em outras, nenhum deles disse que eu estava desculpado.

No limite, alguns se pronunciaram com um “tudo bem”. Não sei se essa expressão tem ocupado o lugar de “está desculpado” ou “desculpas aceitas”. Imaginei os dois cenários. No primeiro, admiti que a citada expressão estivesse ocupando o mesmo lugar e tendo o mesmo peso de um “estar desculpado”. Nesse caso, fiquei me indagando: qual a finalidade de se mudar a referida expressão por “tudo bem”?

O segundo – a meu ver mais preocupante –, diz respeito à perda do poder dessa expressão para colocar nos trilhos determinada tentativa de estabelecimento de diálogo ou de reatar uma relação que fora abalada.

Lembro-lhes: o termo “desculpa” decorre de perdão e significa livrar de uma culpa, uma ofensa, uma dívida [...] é um processo mental que visa à eliminação de qualquer ressentimento, raiva, rancor ou outro sentimento negativo sobre determinada pessoa ou sobre si próprio. Nesse sentido, o pedido de desculpas é empregado quando reconhecemos ter cometido um erro, não poder dar-lhe o que estão a lhe pedir ou ser injusto.

Religiosamente, essa expressão é invocada como forma de eliminar sentimentos perniciosos ao homem (raiva, mágoa e desejo de vingança). Posto isso, questiono: por que o pedido de desculpas perdeu sua força como instrumento de recomposição da harmonia social e pessoal, prática tão comum em países como o Japão e a Coréia do Sul, só para ficar em dois exemplos?

Desgraçadamente, acredito que a dificuldade das pessoas de pedir desculpas está relacionada à perda ou à incapacidade de aceitar tal pedido. Igualmente, sem desconsiderar a anterior, julgo que essa dificuldade é decorrente do fato de um grupo de pessoas não acreditar mais (ou nunca ter considerado) que um pedido dessa natureza é suficiente. A ideia de vingança e de judicialização parecem prevalecer nesses casos.

Assim, mesmo com reiterados pedidos de desculpa, uma tolice cometida transforma-se automaticamente em justificativa para se odiar e/ou aniquilar determina pessoa, sobretudo nesses tempos em que a sociedade está voltando a funcionar como um conjunto de guetos, regido por regras próprias e pautado por discursos politicamente corretos (nem sempre acompanhados de ações igualmente conforme essa máxima do agir de maneira reta).

Para aplacar os ânimos, por conseguinte, a única saída é a de submeter o pedinte de desculpas a processos judiciais, com a finalidade última de assim ter a sua vingança concretizada. Caros leitores e leitoras, como dormir com uma lógica de funcionamento dessas? A esse propósito, recentemente, um juíz de futebol reconheceu o seu erro, ao expulsar um jogador, e, por conta disso, pediu desculpas publicamente.

Algumas pessoas ficaram sensibilizadas com a sua atitude. Outras deram a impressão que o seu pedido foi de pouca serventia, a ponto de ele só não ter sido linchado porque o time de futebol prejudicado acabou por sair vitorioso do derby, mesmo com um jogador a menos na maior parte da partida. Agora, o mais curioso é que o referido juiz recebeu uma penalidade extremamente pesada pelos órgãos de administração do futebol.

Será que os dirigentes levaram em consideração o seu pedido de desculpas, por ocasião da aplicação da penalidade? Por fim, não estou a defender ou a julgar suficiente um pedido de desculpa por uma autoridade pública ou uma personalidade do show business. Penso que é necessário.

Porém, eles devem sofrer as punições previstas na Constituição e nos costumes. Afinal, um pedido de desculpas praticamente perde a sua importância, se não for acompanhado pela mudança do comportamento, como o de apropriar-se do dinheiro público, ser conivente com a corrupção e com a concentração de renda ou se apresentar visivelmente alcoolizado e drogado num show musical, a ponto de não conseguir realizá-lo. Antecipadamente, peço desculpas àqueles que não concordarem com a minha opinião.

* Nelson Pedro-Silva é Professor-doutor de Psicologia da UNESP. 



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