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Doenças mentais: por que o Coringa mexeu tanto comigo?

Doenças mentais: por que o Coringa mexeu tanto comigo?

13/11/2019 Tatiana Pimenta

Doenças mentais impactam 1/6 da população mundial!

No entanto, apesar desse número chocante, percebo que a maioria das pessoas tem dificuldade em compreender o que elas realmente significam.

No último final de semana assisti ao filme Coringa e me peguei questionando a forma como lidamos com as pessoas com doenças mentais! Há muito tempo não saía do cinema tão impactada. O longa metragem traz consigo uma série de provocações e reflexões.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse.”

Essa frase, rabiscada no seu caderno de anotações, levanta uma série de oportunidades de debate. Ainda vivemos em uma sociedade rodeada de preconceitos, estigma e desinformação.

Quem já sofreu com algum transtorno mental e assistiu ao filme, com certeza se identificou com a mensagem. Em mim ela bateu forte! Foi como se aquela cena tivesse me levado de volta ao passado.

Não consegui evitar as lembranças da depressão que experimentei em 2012 e ao revisitar minhas memórias, pude sentir a angústia real daquele personagem.

Doenças mentais: um mundo de faz de contas

Sempre fui uma pessoa alegre, extrovertida e de bem com a vida. No entanto, por circunstâncias da vida, acabei vivendo algumas situações doloridas. Estas, por sua vez, ao serem mal digeridas, culminaram em um quadro depressivo.

Aos poucos fui me isolando, evitando os amigos, perdendo a vontade de fazer coisas que eu gostava. Eu não queria sequer sair da cama.

Era uma sensação de completa impotência e, até mesmo, desesperança. Quando estamos deprimidos, não vemos luz no fim do túnel.

O meu lado racional me forçava a sair da cama todos os dias. Às vezes, do nada, vinha uma crise de choro no meio da tarde. Pessoas próximas faziam cara de interrogação.

Claramente, não entendiam o que estava acontecendo e, provavelmente por desconhecimento e desinformação, acabavam até piorando a situação.

Quantas vezes não ouvi questionamentos e comentários que remetiam exatamente à frase do Coringa.

“Tati, você tem tudo, um bom emprego, uma família legal, por que você fica triste? Você é linda, é jovem, tem uma vida inteira pela frente, não faz sentido ficar chorando o tempo todo” e por aí vai! A cada frase, um passo para trás. Ninguém compreendia o que se passava.

Para quem olha de fora, a doença mental não tem explicação. Não se entende como ela surge ou porque pessoas são acometidas por ela.

Por conta de uma sociedade não acostumada a lidar com os ditos transtornos mentais, somos sempre cobrados por agir como se não estivéssemos mal.

A ironia? Mesmo estando doentes, precisamos fingir que estamos bem ou as coisas podem piorar. Mais irônico ainda é que, ao fingir, as coisas de fato pioram.

Trauma e doenças mentais

Sim, eu era uma mulher bonita, tinha um excelente emprego, uma família linda e estava infeliz! Essa era a realidade. Eu tinha minhas razões para estar daquele jeito.

Ao olhar de fora, a grande maioria das pessoas só conhece aquilo que é dito e exposto pelo interlocutor. No entanto, quando se trata de emoções, de dor, de vulnerabilidade, nós disfarçamos. Mascaramos o feio por bonito! Em partes, para não deixar o outro desconfortável.

Muitos não compreendiam as razões pelas quais eu estava em sofrimento. Tinham apenas a informação padrão: emprego, família, círculo social e aparência.

O que ninguém sabia é que eu havia experimentado um episódio de trauma. Ao tentar terminar um relacionamento abusivo , tinha sentido o pavor de ficar 16 horas em cárcere privado, sob as mais diversas ameaças. Vi a morte bem de pertinho e fiquei morrendo de medo dela.

Os meses se passaram, vieram os pesadelos, o medo de sair de casa, a angústia e mais um turbilhão de emoções negativas. Era um medo real, avassalador, que me consumia por dentro. Eu tinha vergonha de compartilhar qualquer fagulha de informação a respeito desse tema.

Pensando no Coringa, percebi que ele não passou por um único trauma. Foram inúmeros ao longo da sua vida. Uma infância turbulenta, marcada por maus tratos, violência e abuso.

Uma vida adulta permeada pelo bullying, pela falta de respeito com o ser humano, com o diferente. Agressão, atrás de agressão. Uma após outra!

Vamos refletir? Como será que a personalidade do Coringa foi formada? Como se deu sua trajetória, da infância até a vida adulta?

Quantas vezes ele precisou mascarar sua dor na tentativa de fazer outros sorrirem? Com tantas agressões, será que ele conseguiria lidar com suas emoções sem se tornar agressivo?

A importância da primeira infância para evitar doenças mentais

Talvez alguns passem despercebidos pela menção da primeira infância do Coringa. Vocês se lembram que, após descobrir que era filho adotivo, Arthur Fleck vai em busca do seu passado?

Confrontado pelo milionário Thomas Wayne, o Coringa decide mergulhar no desconhecido. Ao visitar um hospital psiquiátrico onde Penny, sua mãe adotiva, ficou internada, o protagonista descobre um laudo médico.

Neste instante ele toma consciência de um passado sombrio. Lê, no laudo, relatos de uma agressão sofrida quando era muito pequeno.

Ele, quando criança, havia sido encontrado em um apartamento imundo, amarrado a um radiador de carro, com diversos hematomas e ferimentos na cabeça.

Para além de uma história de vida triste, fica nítido um desenvolvimento psíquico completamente comprometido.

Algumas abordagens da psicologia consideram que nossa psique começa a ser formada ainda no útero das nossas mães.

Nós carregamos conosco toda uma carga de informações sobre afeto, atenção, cuidado e vínculo. É durante a primeira infância que o cérebro mais se desenvolve em termos estruturais.

Ausência de segurança emocional vs doenças mentais

A segurança emocional que um olhar carinhoso transmite - do cuidador para o bebê, por exemplo - proporciona a formação de vínculos fortes e seguros.

Estudos comprovam que amar, brincar e cuidar são os principais fundamentos para o desenvolvimento das crianças, principalmente, porque o vínculo é sinônimo de segurança.

À medida que as experiências iniciais moldam a arquitetura do cérebro em desenvolvimento, elas também lançam os fundamentos da boa saúde mental.

As interrupções nesse processo de desenvolvimento podem prejudicar a capacidade de uma criança para aprender e se relacionar com outras pessoas com implicações ao longo de toda a vida.

Para mim ficou claro que o Coringa, quando pequeno, não teve o vínculo necessário para o desenvolvimento de uma personalidade saudável.

Os traumas podem danificar a estrutura cérebro e aumentar a probabilidade de problemas significativos de saúde mental.

Por causa de seus efeitos duradouros no desenvolvimento cerebral e em outros sistemas orgânicos, o estresse tóxico pode prejudicar a prontidão escolar, o desempenho acadêmico e a saúde física e mental de um indivíduo. E, a meu ver, assim foi com Arthur Fleck.

Coringa, um psicopata moldado pela sociedade?

Podemos definir um psicopata como sendo uma pessoa que sofre de um distúrbio mental crônico com comportamento social anormal ou violento.

Em geral, psicopatas são definidos por sua falta de empatia, tendendo a manipular pessoas sem qualquer culpa.

Uma pesquisa norueguesa descobriu que muitos assassinos têm uma história de negligência total dos pais ou de pais autoritários que os controlavam rigidamente.

Além disso, todos os psicopatas criminais estudados também tinham um histórico de abuso físico e/ou psicológico grotesco durante a infância.

Esse é exatamente o caso do Coringa, agredido pelo padrasto na infância e, continuamente, pela sociedade na vida adulta.

Para além das já citadas anteriormente, a cena do metrô também é chocante! Ele está triste, sofrendo pela demissão. De repente, vira alvo de chacota e agressões físicas por 3 jovens que estavam no mesmo vagão.

Portando uma arma, que havia recebido de um colega de trabalho, o Coringa atinge um ápice de contenção dos seus sentimentos e explode, atirando nos rapazes.

Naquela cena, pelo menos para mim, pareceu ficar evidente um “descolamento” do mundo real. Um cidadão, que até então estava à margem da sociedade, era quase invisível.

Mas, naquele instante de fúria, um novo personagem ganha vida: o assassino. A partir desse momento, as pessoas passam a conhecê-lo.

“Durante toda minha vida, eu nem sabia se eu realmente existia, mas eu existo e as pessoas estão começando a perceber.”

Será que existem Coringas perto de você?

Poderia ficar horas e horas discorrendo sobre percepções do filme. Provavelmente, precisarei assisti-lo mais algumas vezes.

Para não me alongar, gostaria de convidar você a olhar para o lado e pensar em como lida com o mundo ao seu redor.

Será que estamos prontos para acolher as pessoas que sofrem com um transtorno mental? Estamos preparados para ouvir, não julgar e oferecer apoio a quem precisa de ajuda?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, vivemos em um dos países com maior incidência de transtornos mentais do mundo.

Ironicamente, diversas pessoas enxergam o Brasil como o país da alegria, do samba, do futebol, das belezas naturais e do sorrisão no rosto. O problema é que boa parte disso é “fachada”.

Somos o país mais ansioso do mundo e o quinto mais depressivo, de acordo com a OMS. Se olhamos para o universo corporativo, a coisa fica ainda mais crítica.

O International Stress Management Association (ISMA-BR) afirma que 70% dos brasileiros sofrem com algum grau de estresse e 30% chega ao Burnout.

Vamos continuar ignorando as doenças mentais?

Ou vamos abrir a cabeça e começar a repensar a forma como lidamos com o adoecimento emocional? Podemos criar espaços para falar abertamente de traumas e vulnerabilidade ou simplesmente seguir fingindo que nada é comigo.

Afinal, isso é problema do outro, não é mesmo? Podemos seguir perguntando por que o colega do lado está triste, mesmo tendo tudo.

Falar que depressão é frescura, falta de louça na pia para ser lavada ou acordar para a triste realidade que vivemos e tentar fazer algo diferente! Eu optei por tentar fazer algo de bom.

Falar, me expor e mostrar que está tudo bem ficar triste de vez em quando. Sentir medo também. O importante é saber que tem jeito e formas de pedir ajuda.

E, assim, sigo minha opção! Vou usando minha escrita, às vezes ácida, para debater saúde mental e tentar derrubar algumas barreirinhas por aí!

E você, já se sentiu como o Coringa?

A raiva que sentimos no dia a dia pode levar a uma série de comportamentos. Como dizia o Coringa, basta um dia ruim para você se transformar. Isso pode ser verdade, mas você também pode aprender a lidar melhor com suas emoções.

É por isso que eu sempre indico a psicoterapia. Com ela, você aprende que em um dia ruim, de alguma maneira você pode tirar uma experiência boa.

A vida está repleta de pessoas que, de alguma maneira, nos fazem sofrer. Às vezes, sem querer, por um comentário bobo, por exemplo.

Se blindar é importante e por isso uma construção terapêutica vai te guiar pelo autoconhecimento. Você terá a oportunidade de olhar para si e descobrir quem realmente é. Quando isso for descoberto, nada externo vai te afetar tanto quanto pode afetar agora.

O filme é ótimo para nos causar essa reflexão, mas também nos faz pensar em como vivemos atualmente. Todos passamos por coisas ruins.

Todos sofremos algum trauma em determinado momento da vida. O que temos que fazer é pegar essa dor e transformar em esperança.

* Tatiana Pimenta é CEO e fundadora da Vittude, plataforma que conecta psicólogos e pacientes. 

Fonte: Pineapple Hub



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